O SAL E A TERRA

 

Para nossos irmãos pequeninos

 

Edson Machado

 

 

 

Fillha dos tempos!

 

Tuas lágrimas vilipendiadas pela indiferença; teu coração acorrentado a lembranças tão amargas; teus pés jungidos a caminhos tão difíceis ...

 

E pedes-me, hoje, um remédio para a tua dor. Pede-mês uma lâmpada para o caminho.

Filha! O nevoeiro que cobre o coração do mundo já amortalhou, também, todas as noites do homem simples, já conspurcou todos os caminhos, já enterrou a fé nas coisas que hão de vir.

 

Os destroços de todas as batalhas dos homens, o furor e o ódio dirigindo nossos passos, estão, hoje e aqui, em nossos corações.

E pedes-me um roteiro...

 

A lâmpada que nos visitou por tão pouco tempo e que prometeu conosco ficar, foi há muito subtraída pelos mercadores do templo, perdidos, também eles, por falsa visão.

Tantos são hoje os salvadores, filha, que desconfiamos da salvação; tantos são os donos da verdade que a verdade se nos parece a própria contrafacção.

 

Assim caminhamos nós, supondo a vida abundante o charco que nos prende às ilusões e terríveis compulsões.

 

Acreditamo-nos livres porque podemos escolher as próprias correntes para nos prender os pés.

 

E felizes, cantamos hosanas ao circo da vida que faz de cada um de nós um triste marionete.

 

- E a lâmpada?

 

- Nossos pés encontrarão a senda e nossas mãos alcançarão a lâmpada no velador quando os nossos corações na plenitude do amor, aprenderem a sangrar pos nossos irmãos  pequeninos!

 

 

Relíquias do Jornal "O progresso"

Fundado por Orlando de Souza

Propriedade e direção de Ernesto de Souza

Em benefício da Sociedade Musical Santo Antônio

Ano LXIV - 10 de abril de 1988 – Num  2.543.

 

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