Cidade desurbana  

Orlando Eller

 

 

Já parou para ver e sentir a cidade em que vive, se urbana e se ela se dispõe civilizada; se recebe, abraça e afaga sua gente até enfeitar as almas de alegria? Ou se, já desurbana, passa e repassa arredia e dura, todo dia, aos solavancos, como traiçoeira esfinge que não se deixará jamais interpretar?

 

Sabe me dizer se esta cidade é sua por livre escolha ou, como se fez imperiosamente com toda essa sofrida multidão ignara, você também é posse absoluta dela; e, deste modo, vítima de talvez evitável predestinação compulsória de viver a angústia em grande solidão comunitária?

 

Sua cidade tem aparência? Tem formosura? Como raras que se conhecem, tem cor? Azul, verde, amarelo, como na terra de um sonho intenso? E sabor, tem? Tem perfume cujo aroma lembre em terna saudade um feliz tempo perdido? Ela é seu aprisco, seu ninho seguro sem medo; sua calçada de caminhar sem tropeço, às vezes de mãos dadas; sua rua de ir e vir, assim, sem agonia nem dor?

 

Como é a sua cidade? Um mastodonte sem rosto e sem alma? Chão pontilhado por semelhanças urbanizadas ou por contrastes doídos, feitos de quem pode, de quem manda, de quem faz, de quem tem, de quem sobrevive pendurado no morro ou atolado no brejo? Que é isso de ser e não ser, de ter e não ter, de viver e não viver que se cultiva nela tão intensamente sem reflexão?

 

Vi sua cidade passar. Também moro nela. Não sei se sou dela ou se ela é minha. De qualquer modo, ela tem palácio e tem poder; tem gente que vai e que vem, que vive, que morre, que sofre, que ama, que mata e maltrata; tem muita gente, cada vez mais gente que vai se acumulando como cupins enfileirados para disputar o último pedaço de celulose.

 

Você não pensa nisso? Por quê? Basta-lhe a lida de pouca esperança e doída angústia que nasce toda manhã e morre noite adentro, todos os dias? Não lhe está por sonho converter as grades em liberdade, os muros em jardim, as calçadas em passeio, os postes em árvore, as praias em água cristalina e o céu em transparente abóbada de um azul refeito, para nela soltar, além de pipas coloridas, imaginação própria para dias de sol e para noites de lua?

 

Você escolhe a cidade em que vive. Porque, por pequeno que seja, você é um pedaço do poder que pode se esparramar como gota de óleo numa bacia de água. Contamine às avessas sempre que puder, de preferência nas eleições. Imagine-se, ilimitadamente, imolando um político corrupto e desgraçado; imagine-se pendurando-o com prazer, em forca instalada na urna silenciosa, para que morra em inominável solidão, para beneplácito da cidade e dos urbanos que a edificam e a mantém, para que seja, enquanto existir, um lugar muito agradável, bom de se viver.

 

Você deve ter seu IDH pessoal, a medida de sua alfabetização, de sua educação, de sua capacidade econômica e de sua esperança de vida na cidade em que habita. Estenda-o como bandeira nesta próxima e em qualquer outra eleição, para que seja o obus, o míssil, a espada e o tacape, vetores da mortalidade que se deve desferir como prêmio contra cada um dos políticos de carreira, maioria desgraçada de nefastos, corruptos e maléficos, que estão aí, de campanha na rua, querendo comandar o cotidiano da nossa cidade e da nossa vida.

 

Se você quiser trocar os votos, seu e de sua família, por duzentas lajotas ou três sacos de cimento, este será ato voluntário da sua inconsciência política e da sua absoluta falta de compromisso com a nossa cidade. Mas saiba que este custo retornará em forma de mazela e lhe será imputado como preço a ser pago compulsoriamente sempre que a indignidade eleita impuser influência na sua vida pessoal ou na de sua família.

 

Orlando Eller é jornalista, aposentou-se recentemente da Vale do Rio Doce e mora em Vitória.