CARNAVAL DE ALVINÓPOLIS

 

Rafael Rodrigues

 

 

 


À minha frente, apenas duas fotografias.

Um bloco carnavalesco: os rapazes, caras pintadas, desajeitados, a maioria fantasiada de pierrôs.

As moças, verdadeiras colombinas, com aquele ar de inocência e saias caindo até os pés.

O conjunto musical com seus instrumentos que, para os dias de hoje, parecem arcaicos. Ledo engano, pois justo daquelas tubas, clarinetas e daqueles bombardinos e trombones é que soaram os primeiros acordes de duas marchinhas que marcaram época no carnaval de Alvinópolis: "Os Bambas do Gaspar" e "Adeus Marinha", verdadeiros hinos do Alvinopolense e do Industrial respectivamente.
 

A deduzir pelas fotografias que temos à nossa frente e as mensagens das músicas daquela época, imaginamos o carnaval de então como uma festa de alegria toda pura, sem maldades, diria quase familiar.

Tempo de Ciro Corrêa, Zé Rodrigues, Waldir da Fábrica, Zé Faustino, Quinzinho, Clodomiro, Zé Campeão e tantos outros foliões...

 

"Um Pierrô apaixonado, que vivia só cantando / Por causa de uma Colombina acabou chorando, acabou chorando"...
 

Uma guinada no tempo e chegamos às festas momescas dos anos 50 e 60, com ligeiras lembranças das dos anos 40. Já não temos à nossa frente apenas fotografias; temos imagens captadas pela nossa retina e fixadas em nossa memória que, agora, se vê aguçada e fustigada.

 


 

Os clubes, ainda em suas antigas sedes:

o Industrial em seu reduto, a Baixada, com sua sede em plena Praça São Sebastião; o Alvinopolense, com sua sede de dois andares, na principal rua do Gaspar.

 

Em ambas, não faltavam os bailes pré-carnavalescos, os chamados ensaios.

Neles, a folia começava a tomar corpo, num preparativo para a explosão final. Paralelamente aos clubes, vários blocos independentes faziam a sua preparação.

O sucesso, como sempre, era garantido, pois a espontaneidade e a originalidade eram uma constância entre eles. Aí é que também entrava a meninada, com seus blocos sempre imitando alguma coisa. Dentre os foliões solitários, é inesquecível a figura singular do Sebastião de Olga: pequeno, olhos esbugalhados, praticamente não precisava se mascarar: era a própria fantasia em pessoa!
 

Em surdina, os clubes preparam seus carros alegóricos, suas fantasias.

O Industrial conta com o apoio financeiro da Cia Fabril Mascarenhas;

o Alvinopolense, sem isso e talvez por isso, é chamado sarcasticamente pelos adversários de "Pouca-Roupa".

Mas sua popularidade era incontestavelmente superior.

E a cidade enche-se de visitantes - os da terra que moram fora e pessoas de cidades vizinhas e até distantes.


Tudo pronto: do Gaspar, saí o Alvinopolense; da Baixada, o Industrial.

Uma tensão nervosa toma conta de todos, pois o encontro entre os dois rivais, seja em que ponto for é inevitável.

Nossos olhares começam a captar as pitorescas imagens dessa batalha carnavalesca.
 

 

Fogos e mais fogos de artifício, confetes, serpentinas lançados no ar, o cheiro de lança perfume a exalar.

Devagarinho, o Alvinopolense desce, ao som de "Os Bambas do Gaspar", a rua do Cine Alhambra;

o Industrial, vindo da Baixada, perto do Hotel Carvalho, retruca com seu "Adeus Marinha", tendo seu principal carro alegórico em forma de navio, contrastando com o do adversário, em forma de nave espacial.

Navio e nave espacial, dois símbolos de potências, encarnam agora um só objetivo: abafar o carnaval.
 

Alguns atropelos de última hora: o carro do Industrial, com seus mastros alongados, se enrola na fiação elétrica dos postes.

Corre-corre daqui e dali, enquanto os foliões, alheios ao acidente, seguem cantando e pulando.

 

Dentro da nave do Alvinopolense, o menino Taquínho (filho do Raimundo Chieira), esquecido pelos autores do audacioso engenho, quase morre sufocado pela fumaça que dentro dele se acumula.


Os músicos extrapolaram seus limites para manter a música sempre vibrante.

É a batalha dos sustenidos e bemóis entre Júlio Papa, Chico e Zé de Ná, Só Neco, Caetaninho e tantos outros.
Os que não participam diretamente dos festejos procuram os melhores lugares para bem visualizar a festa. Os sons se misturam...

 "Adeus Marinha fica aí sozinha até eu voltar" /

"Os Bambas do Gaspar estão na rua, pedem licença para farrear..."


Aos poucos e com dificuldades, os blocos vão se afastando um do outro, seguindo o trajeto previamente estabelecido, mostrando sua beleza e alegria às outras partes da cidade, até às suas sedes para a apoteose final.

A convicção de ambos é a mesma: ganhar o carnaval de toda maneira!


Não houve vencedor nem vencido naquele carnaval e em nenhum outro já distante no tempo.

Na verdade, a vitória sempre pertenceu à cidade e seu povo, que sempre mantiveram viva a festa carnavalesca.

 

 

Certo é que passou o tempo, acabou-se a tradição.

É de se lamentar ver nos dias atuais, que carnaval se restringe apenas a um ou outro "Trio Elétrico" a emitir ruidosos sons com suas estridentes guitarras. - músicas anti-carnavalescas para minguados espectadores estáticos em mesas de bar.


Maior tristeza deve sentir o Quinzinho em dias de carnaval, na sacada de sua casa, a ver simplesmente nada onde outrora houve tanta empolgação.

 

E, lá em baixo, na outra entrada da cidade, em sua esmirrada vendinha, uma figura humilde, certamente desconhecida dos mais jovens: Zico de Zé de Tote, que nos legou inspiradas marchas carnavalescas.

 

Por certo seu olhar carrega uma amarga dor, a dor de saber que ali, bem à frente de sua vendinha, passaram blocos e mais blocos de alegres foliões a cantar a sua genial marcha "Os Bambas do Gaspar".

 

Este texto está no livro Literatura Alvinopolense - Terceiro Movimento
Excelente inciativa de José Afrânio Moreira Duarte e Ana Maria Terrôla de Menezes, este livro foi lançado em Alvinópolis no ano de 2004.
No livro são citados os vários escritores, da nova e antiga safra de Alvinópolis, relembrando contos e poesias. Pequenas lembranças de uma terra rica em cultura.

 

Rafael Anselmo Rodrigues


Filho de José Rodrigues Filho e de Maria Turrer Rodrigues, nasceu em Alvinópolis, no dia 25 de fevereiro de 1940.
Formou-se em Contabilidade na Escola Técnica de Comércio Professor Cândido Gomes, na terra natal.
Em Belo Horizonte trabalhou como bancário, tendo se formado em Letras.

Posteriormente diplomou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Oeste li Minas, em Divinópolis.
Sempre se interessou pelas letras e artes, com especial predileção pela música erudita.
Escreveu um livro de memórias no qual gravou em todos seus aspectos, de maneira indelével, a Alvinópolis dos anos 50 do século XX.

 

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