A Fataria de vô Amir

 

Sheila Vieira 

 

A alfaiataria de vô Amir, mais conhecida e chamada carinhosamente pelos membros da família como "Fataria", tinha de tudo um pouco.

 

Lembro-me que toda tarde depois da aula, eu passava lá, “tomava bença” ao meu avô e logo ia pegando seu espanador de retalhos coloridos, que ele mesmo fez para espanar a poeira.

Mas o que eu gostava mesmo de fazer com o espanador, era chegar frente ao espelho comprido que ficava na parede e ao lado da porta dos fundos e colocá-lo na cabeça como a Emília do Sitio do Pica-Pau Amarelo.

 

E toda vez Vô dizia:

- Isso ta sujo menina. Tira da cabeça. – mas eu nem ligava.

 

Depois de cansar de brincar com o espanador eu mudava de atividade. Pegava a vassoura surrada e velha e ia varrer toda Fataria. Deixava-a um brinco! No meu ponto de vista, claro, mas um brinco!

 

Acho que eu ficava enrolando só para pedir:

- Vô, me empresta o jogo de dama?

 

Ele adorava jogar damas e tinha um tabuleiro, com peças de madeira colorida em vermelho e preto e toda tarde, Nozinho, seu compadre, passava por lá e eles jogavam algumas partidinhas.

 

No verso do tabuleiro de damas tinha um jogo de Ludo, Trilha e Xadrez Chinês. Eu não sabia jogar Ludo, nem Xadrez, mas era um tabuleiro tão colorido que chegava a me encantar!

 

E vô, sempre prestativo, parava de mexer com seus cortes de calças, pegava um banquinho de palha e subia pra pegar o tabuleiro no alto do armário onde ele guardava os ternos prontos.

 

Até hoje lembro do cheiro do jogo de damas. Era um cheiro de madeira misturado com guimba de cigarro. Esse cheiro vinha do vício de meu avô e de Nozinho, cujas unhas eram amareladas pelo tabaco. E como os dois jogavam todos os dias, o cheiro se tornou marca registrada das peças de dama.

 

 

Como eu não tinha com quem jogar, Vô, pacientemente, parava suas costuras e vinha jogar comigo até seu companheiro de damas chegar. E eu tomava uma lavada. Jogar com um profissional não é tarefa nada fácil.

 

E lá íamos nós, passando o restinho de tarde juntos, como avô e neta.

 

Sheila Souza Vieira é alvinopolense e bióloga.

Contato : sheila_sapiens@yahoo.com.br