Salve Paulo Coelho - o legítimo

 

Tuca Zamagna

 

 

 

Este senhor que aparece aí na foto – a intrometer o cavanhaque baitolo no desenho que fiz para ele, em comemoração aos nossos 40 anos de amizade – é o único Paulo Coelho que vale à pena ser lido. Porque é o legítimo, o que sabe escrever, cravejado que é de genes garimpados nas mais ricas lavras de magia das Geraes, mormente em Codisburgo, pátria adotiva de uma leva de imigrantes de Saturno, seus antepassados maternos, e feudo do bruxo Guimarães Rosa e seus matutos alquimistas.

 

Este Paulo, mais do que Paulo, é Coelho de verdade, como todos os torcedores (ele e mais dois) do América, o glorioso decacampeão mineiro que atualmente chuta bola de meia lá pela décima divisão do futebol boliviano – ou vietnamita, guatemalteco... por ali.

Ontem, dia 14 de março, este xamã de pedigree completou um ano de vida, a terceira ou quarta que encarna – direto, sem tirar de dentro! Por isso, publico aqui um de seus textos, colhido no Rindo de Nervoso, o blog de sua vida imediatamente anterior. Por isso, também e sobretudo, faço aqui, de público, uma confissão que a ele não fiz (a bruxos lá carece que se fale o que sua audição de raios X capta no eco do oco anímico dos mortais?): a obra da foto não foi uma simples homenagem à nossa longa amizade: bem mais do que isso, foi – e continua sendo – a tradução visual de um apelo candente, desesperado, histérico: “Não ouse morrer, mano véio fedaputa!”

E vamos, sem mais delongas piegas, ao texto do mestre transcendental:

 

 

De porta em porta

 

Paulinho Saturnino Figueiredo
 

Aos tantos amigos, alguns
hoje já mortos, que me
carregaram nas escadas dos
bares da vida, e muitas
outras que tais.

 

. . . . . . Boteco é assunto transcendente em boca de belorizontino, fizemos da qualidade e da simpatia de nossos botecos uma lenda, e adoramos proclamá-la; mais que isso, nos obrigamos a cultivá-la. Não existe relato de história passada por aqui, na tinta do poeta ou na boca fácil do vulgo, que não inclua seu exemplar: do onisciente Bar do Ponto dos primórdios, aos balcões onde mal cabe um par de cotovelos no Mercado Central dos fígados acebolados; dos copos sujos do baixo e do médio meretrícios, aos incontáveis barzinhos da moda que dão fundo biográfico aos lazeres de nossa classe média. Existem botecos onde o melhor é a conversa, existem outros onde ouvir boa música parece regra, e existem até aqueles onde se encontra paz para partilhar silêncios e testas franzidas, olhares perdidos em copos pela metade.

 

 

 

Diz-se que os que habitam esse território ornado por montanhas feridas precisam de razões relevantes, quase nobres, para não ocuparem, com disciplinada constância, um bom lugar no boteco de escolha. Pensando assim, de sopapo, me ocorreram três dessas razões: falta de dinheiro, crise de desamor pelas surpresas da vida, e barreiras arquitetônicas e urbanísticas, que é a razão que ora mais me interessa. Às duas primeiras razões, com as quais quase todos um dia conviveram, dirijo umas palavrinhas.

 

Lamento a morte covarde do fiado e do pendura, verdadeiras instituições da convivência cordial que expunham, para constrangimento ou gáudio dos assuntos da freguesia leal, nas cadernetas ensebadas ou nos papeizinhos espetados, depoimentos vivos sobre as penúrias ou as falhas de caráter de algum parceiro de copo. Quem os matou foi a banca, com seus tristes e indispensáveis cartõezinhos de plástico – ¿ débito ou crédito, senhor? –, que transferiram tais assuntos para seus cofres e sigilos inescrutáveis. Da razão ligada ao desamor pela vida, não cabe aqui tratar. Paradoxalmente, é assunto bom para mesa de bar, amainadas a mágoa e a dor.

 

Mas, sei dessas coisas aí mais por ouvir contar, pois os botecos de aqui, em sua grande maioria, hoje são cruéis com os de minha laia. Já não sei em quantos deles tentei aportar e fui expulso pelas impossibilidades ambientais, rabicho entre as pernas. Andando com muletas até à beira dos 50 anos de idade, numa Beagá amena por boa parte desse tempo, apesar dos percalços pude transitar de modo razoável pelos botecos da cidade. Em especial nas décadas de 1960 e 1970, foi na efervescência de suas mesas que desenhei o principal de minha vida, de meus rumos, e o perfil de meus amigos.

 

 

 

Hoje, regredido para cadeirante há já uns 8 ou 10 anos (11 ou 13, atualiza este blogueiro), no que deveria ser o gozo da aposentadoria, só vi as coisas se complicarem. Os amigos pensam em te convocar, mas sabem que naquele boteco, ou naquele outro do torresmo perfeito, cadeira de rodas não chega, e não entra.

 

Proponho um raciocínio de ordem capitalista, pragmático (sem fricotes humanitários ou cidadãos, posto que isso parece irritar os donos do negócio e as autoridades concernidas): devagarinho, os deficientes vêm ascedendo às classes consumidoras, por outro lado vemos os velhos rejeitando a morte, e, ao esticar a vida, reabastecendo com freqüência as legiões de deficientes. Estamos sendo empurrados para os shoppings centers e derivados, espaços onde não floresceram botecos de qualidade, talvez por alguma incompatibilidade inata entre o beberico e a conversa mansa, de um lado, e as tsunamis de homens e mulheres ensacolados, e crianças urrando seus mais baixos desejos, de outro.

 

Pensando bem, o acesso adequado a botecos de bom nível merecia ser tratado como uma questão básica de cidadania, direito inalienável. Ainda comemoraremos essa idéia, então vitoriosa, num boteco de boa bebida, bons petiscos e bons acessos.

Nota (fúnebre porém edificante) de Teophanio Lambroso:

Se mudar de idéia, seu pacóvio pajé cadeirento, e resolver empacotar pra valer, tome aí (de graça, garruchão!) o mais singelo dos 150 itens do meu (já à venda!) Catálogo Lambroso de Epitáfios do Caralho!:

 

Esta acanhada morada é infinita

como a paz de quem nela mora:

Não cabe a mulher que me irrita

Nem filho nem sogra nem nora.

 

 

*Este texto foi publicado no Jornal Cometa Itabirano.

 

 

Tuca Zamagna e Paulinho Figueiredo são amigos do nosso colunista Romildo Guerrante.

 Do blog  Desinformação Seletiva : http://tucazamagna.blogspot.com/

 Contato : ac.zamagna@gmail.com / paulimbh@gmail.com