Sobre um jantar especial de domingo

 

Vanderlei Lourenço

 

 

 

Toledo é um pequeno povoado que está situado entre a Sede do município de Alvinópolis e o Distrito de Fonseca. É daqueles lugares onde a infância é construída ou vivida de forma lúdica, onde ao lazer, mistura-se a necessidade de colaborar com o trabalho executado pela família e onde o sobrenatural há muito tornou-se rotina de situações naturais entre os habitantes. Do que vivi ali, lembro-me dos muitos casos de situações verídicas vividas pelo meu pai e que, oportunamente, serão transformados em exercícios literários. Lembro-me, igualmente, do meu irmão mais velho chegar em casa, muito tarde, naqueles horários que a minha mãe classificava de “horas mortas”, tremendo dos pés à cabeça, depois de ter sido apedrejado por criaturas invisíveis. Crédula, até a raiz dos cabelos e cheia de razão, mãe não cansava de repetir que já lhe avisara para não ficar jogando truco até aquelas horas na casa dos outros. Acrescente-se que não tínhamos energia elétrica no povoado, o que dava ao lugar ares de mal assombrado, tão logo passava das seis horas...

O que eu vou contar hoje, aconteceu em um domingo. E nossos domingos eram agitados. Tinha culto na igreja, que, a propósito, era em frente à minha casa, os rapazes jogavam futebol no campo, muitas vezes, recebendo times de povoados próximos, como Zamparina, Contendas ou Cata Preta, o almoço era especial e a tarde era animada com os três butecos que havia abaixo do adro da igreja abrindo suas portas para vender bebidas, salgados e outros produtos. Tudo em temperatura ambiente, já que não havia gelo em decorrência da ausência de energia elétrica. No final do dia, os mais velhos que jogavam bingo permitiam que nós, crianças, gastássemos as parcas moedas que o pai nos dava para um pouco de diversão com eles. Viravam as caras à nossa participação, já que, ganhávamos e abandonávamos o jogo em busca de outros interesses.
 


Mas, nesse domingo, aconteceu algo diferente. Foi na casa de Tião de Caxambu, carvoeiro que trabalhava para Vivi, da Fazenda da Limeira. Morava com a família lá no alto da Mata, onde a sua mulher passava o domingo sozinha, já que todos estavam fora. Foi no final da tarde que a coisa aconteceu. Alguém chegou trazendo a notícia de um pedido de socorro, que a mulher estava trancada em casa, cercada por um bicho esquisito. Ai começaram as versões. Que bicho era esse? De onde viera? Seria de outro mundo? Os homens correram em casa, pegaram as armas e arriaram os cavalos. Meu pai pegou a espingarda que ficava pendurada entre dois pregos na sala e que ajudava a espantar os pretensos namorados das meninas, juntou-se aos demais e saíram a galope.

Não sei quanto tempo durou a missão de salvamento. Lembro da nossa ansiedade para saber que bicho era aquele e não parávamos de dar palpites. Acho que, pelo menos entre as crianças, ninguém se preocupou com os homens, já que, não imaginávamos que eles correriam algum risco. Eu, de minha parte, sempre tive no meu pai um super homem e, diante dos casos que ele contava, de situações que vivera, isso não era nada.

Voltaram quando já escurecia. Corremos ao encontro dos cavalos que apareceram na estrada. Vinham rindo, conversando. E fez-se uma roda: todos queriam saber, afinal, que bicho era aquele. E foi um misto de alívio e decepção: Nada de sobrenatural. Nada de bicho do outro mundo.

 

Foto: Sérvio Ferreira.

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Era só uma capivara, que, acuada, foi morta e teve a carne dividida entre os homens que participaram da missão. Pelo visto, era bem grande...

Naquele dia, em todas as casas do povoado, além do almoço especial de domingo, o bicho da mata proporcionou uma novidade: o jantar de domingo. E a mulher do Tião passou a ser olhada com desconfiança: afinal, que mulher é essa, que mora na mata e não conhece uma capivara?

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Email : Vanderhugo@yahoo.com.br

Blog : http://www.vanderhugo.blogspot.com