E a gente sonhando ...

 

Vanderlei Lourenço

 

 

Milton Nascimento é uma dessas raridades que só a nossa música brasileira poderia produzir. Uma bela voz. Qualidade técnica invejável e um repertório fabuloso, composto de clássicos já imortalizados da MPB. Tudo isso conjugado com uma trajetória de superação, desde a infância simples em Três Pontas. Por obra do acaso ele foi "parido" no Rio de janeiro, mas é mineiro até na timidez e na simplicidade com que se porta nas entrevistas. Observem.

 

E a boa notícia: Milton Nascimento continua o mesmo. Nunca se rendeu aos apelos de um mercado que está sempre a exigir músicas comerciais. Quando faz sucesso comercial é porque o coração do público acolheu a inspirada arte que ele vem produzindo, com o mesmo estilo de “Travessia”, o estrondoso sucesso com que se lançou no festival da canção de 1967.

 

“Travessia” tem a poesia, tem a melodia, tudo na medida certa para a emoção. Assim como “Maria, Maria”, “Coração de Estudante”,  “Canção do sal”,  “Cais”, “San Vicente”, “Milagre dos peixes”, “Sentinela”, “Itamarandiba”, “Pra eu parar de me doer”, “Anima”, “Canção da América”. E mais uma infinidade, caso o foco seja apenas aqueles sucessos que a gente canta ou assobia até mesmo sem perceber. E tem aqueles clássicos que não estão na cabeça das pessoas, mas que merecem ser garimpados nos chamados “lado B” de suas obras. Emociona até quando reinventa obras de outros artistas, como fez em “Hello Goodbye” dos Beatles. É de arrepiar. E fazer sonhar, pois, felizmente “os sonhos não envelhecem”, como ele canta na letra terna de “Clube da esquina II”, um dos temas do movimento musical do qual Milton foi a estrela mais fulgurante.

 

 

 

Não bastasse todo esse talento, Milton Nascimento é um sobrevivente. Nos anos 90, apareceu magérrimo, vítima de uma espécie rara de hepatite, que, maldosamente, alguns insinuaram ser AIDS. E decretaram a morte do cantor. Mas, qual fênix, pouco tempo depois lá estava ele, ressurgindo com o mesmo apuro vocal em composições como “O rouxinol” ou “Guardanapos de papel”. O disco chamava-se “Nascimento”, porque simbolizava mesmo o renascimento do artista, ainda que a foto da capa mostrasse um fiapo de corpo, a anos luz da exuberância física com que nos habituamos a vê-lo.

 

A nota dissonante veio um pouco depois através do álbum “Crooner”, com regravações das músicas com as quais se apresentava nos bailes do início da carreira. Depois, veio uma parceria com Gilberto Gil. Eu esperava mais, entretanto, merece o devido desconto, pois, quando se reúnem dois diamantes desse quilate a gente sempre espera brilho maior.

 

Mas, teve o álbum “Pietá”, em 2002, com músicas de novos compositores da cena mineira e cantoras como Simone Guimarães, Marina Machado, além de lançar Maria Rita, filha de Elis Regina, que, pouco tempo depois interpretaria “Encontros e Despedidas”, outra pérola do artista, tema de abertura de novela global. Em “Pietá” ainda pode-se ouvir os “Meninos de Araçuaí” e o Grupo “Ponto de Partida”, na clássica “Beira-mar novo”. Para mim, era o melhor álbum de Milton dos últimos anos. Mas aí...

 

 

Aí, eis que surge “... e a gente sonhando”, o novo lançamento que acaba de sair do forno,  fazendo-nos embarcar numa viagem musical única, da qual se pede para não sair. E é tão bom ouvir Milton que a gente não resiste a sonhar e, ainda, atreve-se a indicá-lo para os ouvidos que apreciam a boa música. Foi ouvindo-o que nasceu essa pequena resenha.

 

Mais um trabalho contando com uma nova safra de músicos mineiros, agora jovens da cidade de Três Pontas. Mais um ponto para o artista que garimpa novos talentos, em contraponto àqueles que lastimam que não se faz boa música hoje em dia. Ao lançar a nova geração, Milton não apenas prova o equívoco dessa afirmativa, como presta grande serviço à renovação da MPB.

 

As músicas são realmente lindas, apesar das regravações desnecessárias de “Advinha o que”, de Lulu Santos, que ele disse em entrevista (no “Programa do Jô”, salvo engano), que sempre quis registrar e “Resposta ao Tempo”, um espetáculo de canção de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc que, para mim, foi imortalizada na voz de Nana Caymmi. Há algum tempo a cantora Simone a regravou e recebeu tantas críticas negativas que fez um desabafo de que música não tem dono. Nesse caso, os críticos tinham razão. A música pertence a Nana Caymmi.

 

Apesar disso, nada compromete o belíssimo trabalho que acaba de chegar. Experimente ouvir os versos “Quem vem de lá, o que nos traz/quem vem de lá, que gente que é...” da música “Espelho de nós”. Experimente viajar nos versos de “Estrela, estrela”, uma das músicas mais inspiradas da dupla gaúcha Kleiton e Kledir, ou em “Raras maneiras” de Tunai e Márcio Borges, há alguns anos gravada por Simone. Experimente ouvir “Amor do céu, amor do mar”, “Gotas de primavera” ou “O ateneu”.

 

Experimente, pois eu, depois de ouvir tanta coisa boa, ainda fui capaz de me surpreender  com o coro de uma nova faixa : “ei dor, eu não te escuto mais...”

 

Uai, mas essa não é do Jota Quest?

 

Pois era. Experimente ouvir na voz de Milton Nascimento:

 

“Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.”

 

É como diria Elis:

" Se Deus fosse cantor, ele cantaria com a voz de Milton Nascimento.”

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Email : Vanderhugo@yahoo.com.br

Blog : http://www.vanderhugo.blogspot.com

 

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