MACHADO DE ASSIS:

O GÊNIO QUE NASCEU NO MORRO

 

Por Vanderlei Lourenço

 

 

 

Recentemente, fui convidado a falar sobre Machado de Assis para alunos do ensino médio na Semana da Cultura promovida pelo Colégio Salesiano.

Que oportunidade fabulosa!

Sobretudo nesse momento em que encontramo-nos todos extremamente carentes de bons exemplos.

A genialidade de Machado de Assis desafia o nosso vocabulário: menino pobre, gago, epilético, nascido no morro, autodidata que se transformou no maior escritor brasileiro. Que melhor exemplo para fortalecer a nossa auto estima?

 

Machado de Assis nasceu no morro do Livramento, no Rio de Janeiro, em 1839, época em que a cidade contava cerca de 300.000 habitantes, grande parte dos quais, escravos. Mulato, neto de negros alforriados e de saúde frágil na infância.

Com um histórico desses, impossível alguém apostar que, quando do seu falecimento, em 29 de setembro de 1908, uma multidão acompanharia o seu cortejo fúnebre, despedindo-se daquele a quem a história reservara um lugar de honra.

 

Toda a sua trajetória é espantosa. Pouco frequentou a escola. O que se sabe é que sua madrasta (perdeu a mãe e a única irmã ainda criança) o matriculou na única escola pública que chegou a frequentar. Aos catorze anos, vendia doces para ajudá-la a manter a casa, depois de Ter perdido, também, o pai. Pode ser que assistisse aulas nos intervalos de suas vendas. O fato é que, conhecendo uma Senhora francesa, proprietária de uma padaria, o seu forneiro lhe deu aulas de francês e, coisa que só acontece aos gênios,  não só veio a falar fluentemente o francês, como traduziu, ainda na juventude, o livro “Os trabalhadores do mar”, obra do escritor Victor Hugo.

 

Fora as traduções, Machado de Assis iniciou sua carreira literária com um livro de poesias, “Crisálidas”, por sinal, bem recebido pela crítica.

Nunca deixou de publicar poesias, bem como textos críticos, contos e crônicas. Este último gênero, aliás, precursor da crônica moderna, onde se destacaram, entre outros,  Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade.

Durante toda a vida, colaborou com diversas publicações de sua época. Seus escritos eram frequentes nos jornais de então. Os contos são um caso à parte, muitos deles clássicos, como “O alienista”.

 

Não bastasse toda essa produção, é nos romances que a genialidade machadiana brota em toda a sua plenitude. Seus primeiros romances, estão entre os grandes clássicos da fase romântica da nossa literatura. Em “Ressurreição”(1872), “A mão e a luva”(1874), “Helena”(1876) e “Iaiá Garcia”(1878), encontramos as características do romantismo, embora antecipando algo da fase realista dos livros seguintes, o que talvez explique o fato de que, mesmo sendo bastante diferentes, seus romances da Segunda fase tenham sido igualmente bem recebidos pelo público de então.

 

“Memórias Póstumas de Brás Cubas” foi o livro responsável por inaugurar o realismo na literatura brasileira, ao lado de “O Mulato”, de Aluísio Azevedo. O grande feito do livro é romper com a tendência “idealizante” dos escritores românticos. Enquanto esse gênero literário caracteriza-se individualismo e pela subjetividade, o realismo busca retratar a realidade de forma objetiva, denuncia a hipocrisia, analisa psicologicamente os personagens, privilegia a narrativa minuciosa, detalhada. O grande mérito de Machado de Assis foi ter ido além das características do realismo, antecipando, em sua literatura, inovações que só seriam exploradas anos mais tarde, pelos escritores modernistas.

 

“Memórias Póstumas”, ao qual se seguiu “Quincas Borba”, de 1891, subverte a maneira de escrever praticada até então. De cara, apresenta uma história narrada por um defunto que reconta a própria vida na ordem de suas lembranças. Machado vai além dos escritores românticos que haviam transformado o romance em gênero respeitado no Brasil: além de divertir, busca esmiuçar o espírito humano, refletir sobre determinados valores e denunciar a realidade brasileira. Estas, aliás, algumas das características do realismo, estilo que o livro inaugurava.

 

Para a maior parte da crítica especializada (pelo menos daquelas de que tomei conhecimento), este é o grande momento, o ápice da literatura machadiana. Eu, particularmente, não obstante o apuro técnico e de linguagem de “Memórias Póstumas”, tenho especial predileção por “Dom Casmurro”, obra que seria publlicada em 1889, antepenúltimo livro do escritor, ao qual se seguiram “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”. A história do relacionamento de Bentinho com a sua vizinha de infância Capitu é uma das mais belas páginas literárias que tive oportunidade de ler até hoje. Sem contar a eterna dúvida dos aficcionados por literatura: terá ou não terá Capitu traído Bentinho?

 

É por construir personagens com esse grau de complexidade e por construir obras tão marcantes em nossa literatura que Machado de Assis se firmou como o maior escritor de nossa literatura, hoje reconhecido com um dos maiores da literatura mundial. E, como se isso não bastasse, é um grande exemplo de vitória do esforço pessoal mediante as adversidades de uma infância pobre e difícil.

Não é por acaso que a Academia Brasileira de Letras, da qual foi fundador e primeiro presidente, é chamada “Casa de Machado de Assis.

 

Nesses tempos em que carecemos de bons exemplos, a genialidade de Machado de Assis deve ser encarada como um facho de luz nas noites das nossas descrenças.

 

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Vanderhugo@yahoo.com.br