Sobre pastores, ovelhas, lobos e tigres

 

Vanderlei Lourenço

 

 

 

         Esta é a minha primeira colaboração com o Alvinews, depois de alguns meses. Começamos o ano falando sobre a sétima arte. Trouxe dicas de alguns filmes que enchem a alma, o coração, os olhos... e nos deixam mais sensíveis, com um outro olhar em direção ao próximo e a nós mesmos. Por enquanto estou devendo novas notas sobre películas que mudaram meu estado de espírito  ao assisti-las. Em outubro, o Alvinews aproveitou um texto que eu enviara no início do ano, refletindo sobre a genialidade de Machado de Assis, no centenário de sua morte. E, passado o turbilhão das eleições municipais, comecei a refletir sobre o assunto a ser dividido com os internautas nesse nosso espaço.

 

Pois bem. Para título do presente artigo, invoquei um texto de Rubem Alves -  psicanalista, educador, teólogo e escritor mineiro, para tecer modestos comentários sobre o assunto que dominou o segundo semestre de 2008 e que domina, igualmente, os comentários postados no mural do site: a política municipal.

 

Refleti longamente sobre o assunto a ser tratado, até porque nós todos, em maior ou menor grau, temos dificuldades com as discussões de matérias que se relacionem a esse tema. Se bem refletirmos, é uma preocupação desnecessária, porque, queiramos ou não, a política está ínsita em nosso cotidiano, de diversas formas e fugir ao debate nos tira a oportunidade de, por vezes, contribuir com idéias que muita utilidade poderia ter. É a paixão suscitada pela campanha em si que nos tira, muitas vezes, a razão. Quando não permitimos que a paixão do momento ou da nossa preferência nos cegue, conseguimos participar do momento  e exercer a nossa cidadania da forma como ela deve ser exercida: baseada nos princípios de bom senso que devem nortear o comportamento do ser humano no convívio com o outro.

 

Eu, particularmente, participei de uma campanha que muito me enriqueceu. Primeiro, como candidato, quando tive oportunidade de repensar sobre o fazer político, sobre o que realmente podemos fazer enquanto agentes políticos. E refletir, inclusive, que não precisamos da política partidária para sermos embaixadores do bem em nossa comunidade. Um mandato eletivo é apenas uma das formas de prestar serviço, conforme a definição de política. Hoje, podemos fazer muito através das entidades não governamentais, talvez, até, mais do que através de um mandato, pois, nessas, não temos as amarras ou o comprometimento gerados por uma vitória nas urnas. E, segundo, porque, depois de muitos anos, vivemos um clima real de disputa eleitoral em Belo Horizonte, com as paixões de lado a lado e, na reta final, com a baixaria desnecessária que a disputa acaba gerando.

 

Acompanhando, meio de longe e ora de perto, a disputa em Alvinópolis, vivenciamos o que nem sempre assistimos na disputa da capital: a rivalidade exacerbada entre os grupos em disputa. Essa rivalidade, por vezes assusta, pois corre-se o risco de se esquecer do respeito de que o nosso semelhante é merecedor. Corre-se o risco da zombaria para com o perdedor, sem nenhum ganho em função disso. E, nesse quesito, há uma equação curiosa: o mesmo grupo que zomba do “perdedor” em uma eleição, corre o risco de receber o mesmo, ou pior tratamento quatro anos depois. Fossem as pessoas partidárias da máxima que manda fazer ao outro somente e exclusivamente aquilo que gostaríamos nos fosse feito e, certamente, isso não aconteceria. Até porque, em política, inimigos de ontem podem posar de “melhores amigos no hoje” e vice versa.

Nas grandes cidades, muito dessa rivalidade é amenizada pelo fato de que o eleito para cargos majoritários, conta, muitas vezes em seu governo, com membros da coligação que lhe fez oposição em campanha, visando obter condições de governabilidade. E, levando-se em conta outros parâmetros, não devemos qualificar as pessoas pela sua posição político-partidária, o que, muitas vezes, impede a relação entre seres que, em situação normal, seriam grandes amigos.

 

Agora, uma questão curiosa. O período eleitoral gera, muitas vezes, perseguições (vivemos isso nessas eleições em Belo Horizonte), inimizades e até mortes. Quando buscamos a definição que o dicionário oferece à palavra política e analisamos que um dos significados é a arte de bem governar, imaginamos que essa arte seria melhor executada caso fosse baseada em outros valores que não aqueles geradores dos conflitos próprios da disputa eleitoral, bem como pelo comportamento dos governantes, voltados mais para a politicagem, que significa, segundo o dicionário Aurélio, política mesquinha, estreita, de interesses pessoais e é utilizada para apontar os políticos pouco escrupulosos ou desonestos.

É ai que entra a análise exposta por Rubem Alves no texto “Sobre pastores, ovelhas, lobos e tigres”, constante do livro “Conversas sobre política”. De um lado, as boas intenções que norteiam os novatos em cargos eletivos: o pastor disposto a cuidar de suas mansas e indefesas ovelhas e defendê-las de qualquer perigo. De outro lado, os lobos acostumados a atacar e devorar as mesmas ovelhas em um consórcio com cães famintos e hienas, até então, magras. Na tentativa de manter o seu compromisso de protegê-las, o pastor contrata tigres vegetarianos que acabam se convertendo em carnívoros e levam-no a uma aliança infame em que todos saem ganhando, exceto aquelas que necessitam ganhar, como ocorre com a nossa população mais necessitada.

 

O mal da política é justamente esse: por mais bem intencionados estejam os recém chegados ao poder, a maioria  acaba sucumbindo aos lobos, cães, hienas e tigres da política.

É nosso papel transformar essa realidade. Não se deixando corromper pelo poder estabelecido, mas, sobretudo, combatendo o mal em seu nascedouro, impedindo as paixões (normais) que assomam durante o processo eleitoral de nos transformar em canibais de quem poderia, inclusive, colaborar com a transição de governo. Vejo, na imprensa,  as imagens de Bush e Obama, em que um promete, civilizadamente,  facilitar a transição para o governo do seu opositor e relembro fatos de nossa história política recente em que um Presidente da República saía pelos fundos do Planalto, recusando-se a entregar a faixa presidencial ao seu sucessor.

 

Em nossa política falta generosidade, falta espírito conciliador, falta a seriedade que caracteriza os verdadeiros líderes, de que temos tanta carência.

Oxalá, a nova geração de homens públicos que o cenário pós eleitoral está oferecendo à população brasileira (inclusive em nossa querida Alvinópolis), possa romper com esse sistema arcaico que tanto mal tem causado à nossa gente.

 

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Vanderhugo@yahoo.com.br