HISTÓRIAS DO MENINO ZEQUIEL

CAPÍTULO I

 

Vander Hugo

 

Ninguém podia com aquele menino Ezequiel. Era o xodó da família, desconfio que era porque conseguia levar todo mundo na lábia, vendendo histórias falsas como se fossem casos acontecidos. Era o sexto de uma família de onze irmãos. Tamanho de família que não se faz hoje em dia. Cinco irmãos, meninos homem e seis meninas criados todos na roça, no povoado do Batistinha, assim batizado por causa de um antepassado seu, homem que parecia gato, porque sete vidas, no mínimo ele tinha.

E, de cada uma, Zequiel dava notícia. Menino danado. Mas tinha um bom coração e, quando não podia fazer nada para ajudar alguém, desfiava uma reza que só ele conhecia, contristado, sentado no velho pilão que ficava na cozinha de casa. “Que fazendo aí, Zequiel?”, mãe perguntava, sem esperar resposta, porque, nessas horas, o menino só tinha pensamento para suas orações.

 

Muito tempo depois de falecido, a geração nova que substituiu aquela do seu tempo, ainda repetia os casos que nasceram da sua cabeça. Cabeça prodigiosa, a professora explicaria, anos depois, para a meninada, orgulhosa do conterrâneo que contava histórias.

 

A primeira história, ouvira da Mãe, quando contava seis anos de idade e explicava a origem do seu nome. Foi durante a novena da semana Santa, no início da gravidez, quando Mãe conheceu uma parábola do livro do profeta bíblico e batera o martelo: se for menino, será Ezequiel.

 

O que encantara a sensibilidade de Mãe, foi uma história sobre um Cedro do Líbano com belas ramagens e um tronco tão elevado que seu corpo se colocava entre as nuvens. As águas o fizeram crescer e seus rios fluiam em torno do lugar em que ele estava plantado, regando-o de forma incessante. Dessa forma, seu tronco era mais alto do que o de todas as árvores, seus ramos se multiplicavam e todas as aves do céu faziam ninho em suas ramagens; todos os animais selvagens procriavam debaixo dos seus galhos e os trabalhadores vinham descansar à sua sombra. Era tão belo que todas as árvores do jardim do Éden tinham inveja dele. Mas, por ser muito orgulhoso em sua beleza e grandiosidade, teve o seu tronco cortado e foi abandonado por não ter mais sombra e os animais pisotearam seus galhos.

 

 

Zequiel ficara triste por terem derrubado a árvore, mas Mãe aproveitou para explicar que era uma alegoria, para mostrar que nenhuma pessoa deve se elevar acima das outras ou ter orgulho de sua situação na vida. Zequiel abraçou as pernas de Mãe, que era até onde conseguia alcançar, mostrando que havia entendido. Mãe tinha um jeito especial de ensinar e ele sempre queria ouvir mais. Com paciência infinita, ela aproveitava para contar sobre o seu nascimento.

 

A noite em que Zequiel nasceu chegou embalada por um vento forte, seguido de dois minutos de violenta chuva de granizo. Pai ficou preocupado com o telhado que se quebrava e a casa entrou em polvorosa com o barulho que vinha lá de fora. Acenderam lamparina em todos os cômodos da casa e Mãe entrou em trabalho de parto.  De repente começaram as contrações, sentiu a barriga descendo e começou a perder líquido. Pai acompanhou Mãe até a cama que já estava preparada com lençol abaixo e em cima de um plástico comprido, enquanto Vó providenciava outro  lençol grande para cobrir o corpo de Mãe e um menor, de flanela, para enrolar o corpo de Zequiel. Toalhas de rosto, panos absorventes para receber os líquidos de Mãe e uma vasilha de plástico com água quente para receber a placenta. escorria bicas de suor.

 

Ezequiel nasceu por volta das nove horas da noite. Era 21 de setembro, que anunciava, também, a chegada da primavera.   cortou o cordão umbilical, cobriu com gaze e algodão. Durante todo o trabalho de parto, ela conversava com Mãe e fazia massagem nos momentos de dor. Mãe e o bebê sorriam quando ele nasceu. Esse sorriso seria sua marca registrada pela vida afora. Era a primeira vez em que observava um recém nascido sorrindo. E estranhava seus olhos abertos, mirando o teto  furado pelo granizo da tempestade.  Depois, sorriu, também e o entregou ao calor do colo materno. Pai entrou no quarto, pesou e mediu o bebê, sem conter as lágrimas que os olhinhos meio puxados  de Zequiel não deixou de registrar. Só muitos anos depois veria Pai  chorar novamente. Mas , dessa vez, não seria de alegria.

 

Vander Hugo é alvinopolense.