EZEQUIEL

CAPÍTULO 2

 

Vander Hugo

 

 

 

Dia seguinte era sábado. Ezequiel acordou primeiro.Abriu os olhinhos e fixou o teto, que não conseguia divisar por causa da escuridão. A casa toda dormia e Zequiel não teve medo. Nem mesmo do barulho estranho e até assustador que ouvia bem ali, ao seu lado, na cama e que foi subitamente interrompido, quando Pai acordou e levantou-se. Pai foi até a cozinha, mexeu em uma pequena caixa de madeira sobre a mesa e um som baixinho tomou conta da casa. Zequiel vibrou. Nos anos seguintes ficaria acostumado a despertar ao som das músicas sertanejas que Pai tinha o hábito de ouvir, nos programas vespertinos do rádio.

 

Aos poucos, o dia clareou de vez. Uma chuva fina caiu de madrugada e o tempo estava nublado. Pai buscou umas achas de lenha e acendeu o fogão, onde postou-se com uma chaleira grande, de ferro, com água, para preparar o café. Enquanto a água fervia, trouxe, da despensa, um pedaço de rapadura para adoçá-la. Daí a algum tempo, provou para ver se estava no ponto e buscou o velador, onde colocou o coador de pano com o pó e, por baixo, um bule esmaltado. Em instantes, o café estava passado. Pai serviu-se de uma caneca e buscou a chaleira menor. Depois, dirigiu-se ao quintal. Ali, a  horta ocupava um grande espaço, cercado por bambus amarrados com arame farpado. Entre os canteiros de hortaliças primorosamente cuidados por Mãe, localizou a plantação de alfazema. Colheu algumas folhas e voltou à cozinha. Preparou o chá e levou até o quarto de Mãe que, naquele momento, amamentava Zequiel. O menino parou e olhou nos olhos de . “Esse menino parece entender as coisas”, ela pensou, enquanto reparava o pequeno rosto redondo, “cara de lua cheia”, pensou. E sorriu.

 

 

Casa desperta, hora de dar banho no menino. Incansável, colocou mais lenha no fogo e água para ferver. A bacia encontrava-se a um canto e foi conduzida ao quarto, com água fria. Depois de temperar a água, Mãe pegou roupas e fraldas limpas e deixou sobre a cama.  Com muito cuidado, segurou Zequiel, protegendo a moleira e, com chumaços de algodão, limpou as orelhas, os olhos e o seu rostinho. O umbigo mereceu carinho especial, sendo molhado para ajudar a amaciar. Depois do banho, ainda passou álcool absoluto no cordão umbilical. Depois de seco e perfumado, Mãe deitou Zequiel de volta.

 

Pai jogou a água no jardim. Depois buscou uma cadeira de madeira, com assento de palha traçada e sentou-se no quintal, ao lado da janela da cozinha. Tinha entre as pernas um balaio de taquara: o berço de Zequiel que ainda não tivera tempo de terminar. Enquanto trançava a taquara, nas artes que dominava desde menino, cantava uma de suas músicas preferidas. A voz era doce aos ouvidos de Mãe, que, deitada ao lado de Zequiel, também cantou, baixinho:

 

“Era florada, lindo véu de branca renda
Se estendeu sobre a fazenda
Qual um manto nupcial
E de mãos dadas fomos juntos pela estrada
Toda branca e perfumada
Pela flor do cafezal”

 

 

De verso em verso, o cesto ficou pronto. Uma obra prima que Pai não se cansava de admirar. Gostava do resultado de seu trabalho com a taquara. E usava uma espécie rara, que nasce apenas de sete em sete anos. Assim havia tecido o forro do teto da casa e até os balaios pendurados no galinheiro para colher ovos das galinhas caipiras.

 

E assim, a manhã voou. Hora do almoço, preparou canja de galinha para o resguardo de Mãe. E foi a partir daí que a vizinhança começou a chegar para as visitas ao recém nascido. Veio Margarida de Gonçalo e Dona Nenega, que tinha a boca torta porque pegara friagem à noite, depois de torrar café. Os irmãos Camilo, que construíam as casas do povoado e suas mulheres, amigas da infância de Mãe. Veio Tiana, irmã e desafeto de pai, por assuntos de família que Pai fazia questão de não mencionar. Durvalina, benzedeira de mau olhado e olho gordo e Filhinha, a costureira oficial da região. Depois, apareceram Zeferina, que tinha fama de pembeira, acompanhada de Tia Rosa, que protagonizou o acontecimento do dia. Tia Rosa era casada com Franquilim, que fazia a barba de Pai, mas chegaria mais tarde porque fora atender um outro cliente com sua barbearia móvel. Outras visitas chegariam no decorrer do dia.

 

recebeu a todos com café e biscoitos de polvilho. Os homens ficaram conversando sobre cavalos e plantação no quintal. E as mulheres, alvoroçadas, revezaram-se pegando Zequiel no colo enquanto comentavam a chuva que caíra anteriormente. A mais animada era Tia Rosa. Explicou longamente sobre a sua dificuldade em chegar. A cada passo que dava para a frente, dava uns dois ou três para trás. Ficou assim, na beira da cama, quando chegou a sua vez de carregar Zequiel: um passinho para a frente. Dois passinhos para trás. Um passinho para a frente, dois passinhos para trás. Até que recebeu ajuda e seus olhos se encontraram com os olhos do menino. Tia Rosa sentiu um calafrio e fez reparo para as donas que estavam no quarto: “tem alguma coisa com esse menino...”, mas a conversa ficou só nisso, já que ninguém lhe deu muita atenção. Estavam ocupadas, ouvindo Dona Nenega contar o susto que levara na sexta-feira santa quando fazia o almoço. Colhera chuchu na horta, mas, enquanto picava, escorreu sangue do legume em quantidade tão impressionante que a fez desmaiar. Refeita, resolvera guardar o dia de sexta-feira Santa. Almoço? Só o que sobrasse do jantar do dia anterior. Mãe observou que não era mesmo de bom agouro desrespeitar a sexta-feira da paixão. Há mais tempo, era comum o sangue substituir o leite nas tetas das vacas leiteiras. Matar galinha poderia paralisar o braço e comer carne, então, nem pensar. Nesse ritmo, a conversa ficou animada no quarto.

 

 

Conversaram, ainda, um bom tempo, trocando impressões sobre tudo. Lá fora, os homens receberam Franquilim, que tocava sua inseparável sanfona e tomavam café com broa e biscoitos. Até que, percebendo que o dia terminava, começaram a se despedir. Foi nessa hora que a coisa se deu. Uma trovoada, seguida de um vento forte e, outra vez, uma pequena tempestade de granizo. Durou dois minutos.

 

Tia Rosa, que estava sentada numa cadeira ao lado da cama, fez esforço para levantar-se. Seus olhos encontraram os de Zequiel e ela podia jurar ter visto algo naquele olhar. Franziu a testa  e fixou o menino na cama, tentando descobrir alguma coisa. Se as demais pessoas presentes fizessem o mesmo, talvez conseguissem detectar um meio sorriso escondido sob as bochechas, mas, “que diabos”, pensou. Era apenas um recém nascido enrolado numa manta azul claro.

 

Entretanto, quando ficou de pé e andou em direção à cama, seus pés, traindo sua intenção, a levou para trás. Nova tentativa. Mais dois passos para trás. O quarto virou um burburinho de vozes. Os homens que, no estrépito da chuva, acomodaram-se na cozinha, acorreram para ajudar. Tia Rosa lutava, de forma desesperada, com as forças de suas pernas, para caminhar para frente. E seus pés continuavam levando-a para trás.

 

 

Como a chuva havia passado, resolveram que não era bom para o resguardo de Mãe aquela confusão ao seu lado. Nem para o menino, que precisava ser amamentado. Carregaram Tia Rosa até a sala e buscaram água com açúcar para que se recuperasse do susto. Ela parecia mais velha e até maior, embora ostentasse um metro e meio de altura. Abatida, tentava entender porque os pés não mais obedeciam à sua vontade. Constatado que nada havia a ser feito, as visitas despediram-se e, enfim, fez-se silêncio dentro de casa. Em choque, tia Rosa saiu amparada por Franquilim. Foi andando de fasto até sua casa. Sem tirar da cabeça o olhar do pequeno Zequiel. “Menino danado. Eu sei que foi coisa dele.”

 

Aquecido pela sua manta de cor azul clara, Zequiel dormia, depois de ter sugado o seio que Mãe lhe oferecera. Pudesse Observar o céu, veria o arco íris que se formara depois da chuva e as tanajuras que voavam em torno de casa, fazendo a festa das crianças do Batistinha. O tempo bom de fim de sábado anunciava uma semana tranqüila. Exceto para Tia Rosa, impossibilitada de consultar a um médico, porque as duas tempestades das últimas horas destruíram a estrada que levava à rua. Ignorando que mal a acometia, passaria o domingo acostumando-se à sua nova situação.

 

O que ninguém sabia é que esse fato era apenas a primeira das muitas esquisitices que aconteceria por ali a partir da chegada do menino Ezequiel.

 

Vander Hugo é alvinopolense.