EZEQUIEL

CAPÍTULO 3

Vander Hugo

Domingo era dia de ir à igreja. Vó acordou bem cedo e começou a rezar o terço, daí a pouco amanhecia e ficaria à disposição de Mãe e Zequiel. Há muito tempo fazia suas orações conforme aprendido. Primeiro, o sinal da cruz e, segurando o crucifixo, rezava o credo. Quando era vista assim, parecia estar em outra dimensão, tal o desligamento que fazia de quaisquer outras coisas. Por isso, gostava de rezar sozinha, logo que punha os pés para fora da cama. Mais um Pai nosso, três vezes a Ave Maria e um Glória ao Pai. Seus olhos se perdiam no vazio ao fazer o oferecimento da oração. A partir daí, em observação aos mistérios, vinha a seqüência mais demorada, onde sua mente conseguia focalizar todos os passos da vida de Jesus. Era capaz de dar uma aula sobre o significado do terço. Explicar, pacientemente, que ali, nos mistérios gozosos, viajava pelo nascimento e infância de Jesus, desde a anunciação do anjo Gabriel. Depois vinha os mistérios da luz, iniciando-se no batismo do senhor por João Batista, passando pelo momento da transfiguração e finalizando com a entrada de Jesus em Jerusalém. Vó se arrepiava com os mistérios dolorosos, da agonia de Jesus no Monte das Oliveiras à sua crucificação. Mas, voltava à serenidade quando rezava os mistérios gloriosos que se iniciava com a ressurreição de Jesus, terminando com a coroação de Nossa Senhora como rainha do céu e da terra. O terço estava no fim. Agora eram apenas a Ladainha de Nossa senhora, o Cordeiro de Deus e o sinal da cruz. Então, estava pronta para o novo dia que começava a nascer.

A casa de ficava no quintal, a poucos metros da casa de Zequiel. Quando ficara viúva, Pai e Mãe insistiram para que morassem todos juntos, mas ela não quis. Não iria abrir mão da sua privacidade e de cuidar das suas coisas. Era uma casa pequena, de dois quartos, um dos quais, raramente era visitado. Seu quarto era ornado com uma imagem de Nossa senhora Aparecida, diante da qual havia sempre uma rosa vermelha dentro de um copo d’agua. Quando seca, era substituída por outra, recém colhida no jardim da frente de casa. Uma cama simples, colchão de palha e cobertores sempre limpos, prontos ao uso. Na sala havia bancos de madeira, ainda dos tempos da família grande, toda na mesma casa e um rádio de pilha, modelo antigo, em madeira, um presente que Pai lhe dera. Na cozinha, poucos pertences: panelas de ferro, fogão à lenha, mais bancos de madeira e uma prateleira, cuidadosamente coberta por uma cortina de chita.

Aliás, de chita era também o vestido de vó naquela manhã de domingo. Claro, porque ainda iria à pequena igreja do povoado para continuar as orações do dia.

Pai morava em uma casa bem maior, de nove cômodos. Na frente tinha um pequeno alpendre onde Mãe gostava de pendurar samambaias chorona, que as visitas admiravam e, não raro, saiam carregadas de mudas. Tinha, também, duas janelas: uma do quarto dos meninos, que seria ocupado por zequiel. Ficava à direita de quem chegava e a outra, à esquerda, era do quarto de hóspedes, pois sempre tinham visitas que dormiam em casa. No meio dos dois quartos, ficava a sala, com piso de cimento e, orgulhosamente, um conjunto de sofá de dois e três lugares. Um luxo para o povoado.

Pai se preocupara em fazer uma copa, onde havia uma pequena mesa redonda e, quase sempre, servia apenas de passagem, já que, geralmente, faziam as refeições na cozinha. No canto, Mãe tinha uma cristaleira onde guardava canecas de louça e outras vasilhas mais chiques, que deixava à espera das visitas mais importantes. Mais dois quartos ladeavam a copa: à direita o quarto de Pai e Mãe e, em frente, o quarto das meninas. A cozinha era espaçosa. Tinha uma mesa grande, armário no canto da parede, uma base para suportar o filtro de água, um fogão de lenha já bem perto da porta e, a um canto, o banheiro, com chuveiro que era aquecido através da serpentina. Tinha duas janelas, sendo uma próxima ao fogão, com vistas para o quintal lateral, de frente para a casinha de Vó.

Logo na porta da cozinha, Pai fez um puxado e construiu um forno pra Mãe fazer quitanda. Ali ficava o pilão, ao lado de um baú grande, de madeira, onde eram guardados arroz, feijão e outras colheitas que serviam para abastecer a casa. A bica de bambu, trazia água de uma nascente que ficava bem acima, no terreno de Tiana. Ali Vó lavou as vasilhas e encheu a panela com água para ferver e, em seguida acendeu o fogo para fazer o café.

Pai levantou-se e tomou-lhe a benção. Um ritual obrigatório no primeiro encontro diário dos dois. Era o seu filho caçula, com o qual sempre tivera relação mais próxima. A ponto de dividirem o mesmo quintal. Mãe juntou-se a eles na cozinha e conversaram sobre as visitas do dia anterior.

Depois de café coado e chá pronto, Vó dirigiu-se ao quarto de Mãe. Zequiel já estava acordado, com os olhos grudados no teto da casa. Mãe preparava-lhe o banho. O menino estava quieto. Sorriu quando Vó o pegou no colo, fazendo com que o seu rosto enrugado sorrisse também.

Daí a pouco Vó estaria entre as outras mulheres do povoado, assistindo ao culto celebrado por Dona Lalinha, que tomava conta da igreja. Missa, só uma vez por mês ou em dias de festa, quando o Padre vinha da rua para celebrar. As filhas de Dona Lalinha chegavam mais cedo para tocar o sino e abrir as portas da Igreja, que ficava bem no centro do povoado. Daí a pouco, as estradas começavam a povoar-se das poucas famílias que viviam ali. E a pequena igreja ficava repleta de mulheres, crianças e moças. Os homens vinham mais tarde, jogar futebol no campo em frente ao adro e, mais tarde, jogar bingo numa área comum dos dois botecos que so abriam nos domingos e dias festivos. Cassim era mais velho e só vendia refrigerante quente, já que não tinha eletricidade e pastéis que a sua mulher fazia. Zé de Zico era mais ousado: vendia pinga e carne de frango de tira-gosto. As mulheres passavam em frente e torciam-lhe o nariz.

Vó não demorou a voltar. Certamente, Mãe receberia mais visitas e precisaria dela por perto. Mas, a única visita do dia foi de Dorvalina, a benzedeira de quebranto e mau olhado. As outras foram ver Tia Rosa, cujo infortúnio espalhara-se e todos buscavam uma explicação para o fato de ela agora andar apenas para trás.

Pai não estava em casa e Dorvalina benzia Zequiel quando Vó entrou. Estava concentrada, falando palavras que só ela conhecia. Vó podia jurar ter percebido alguma malícia no olhar de Zequiel. Mas, era "apenas um recém nascido", pensou. E foi na horta, apanhar couve para o almoço. Depois, separou feijão cozido e temperado, farinha de mandioca, lingüiça, cozinhou ovos e começou a preparar um tutu para o almoço de domingo.

Dorvalina permaneceu sentada ao lado da cama depois de terminar de benzer. Só deu-se conta de algo errado ao levantar-se para sair. Seus olhos encontraram os de Zequiel quando tentou andar para despedir-se de Mãe. Podia jurar ter visto algo naquele olhar de bebê. Mas não pôde fitá-los por mais tempo, porque notou que os pés não lhe obedeciam mais. Tentando andar para a frente, dava passos desordenados para trás. Fez-se um burburinho no quarto outra vez. A mesma cena do dia anterior. Pai, que acabava de entrar em casa, acorreu ao seu encontro. E todos olhavam Zequiel que, fechando os olhinhos, dormira tranqüilamente na cama, alheio ao que se passava ao redor.

Sem se dar conta da estranheza dos acontecimentos, Dorvalina insistia com seus pés. E deu-lhe a urgência de ir embora. Foi andando de fasto, boquiaberta, Pai amparando-a. Em pouco tempo, os visitantes de Tia Rosa estariam em sua casa, começando a suspeitar de algo muito estranho ligado à presença de Zequiel.

Vó não quis comentar o acontecido naquele momento. Disciplinada, queria terminar o Tutu que estava preparando. E achava que não devia provocar preocupações que prejudicassem o resguardo de Mãe. Mesmo assim, não pode deixar de notar a ausência de visitas durante o resto do dia. O que se soube no dia seguinte é que o povo do Batistinha passou o dia dividido entre a casa de Tia Rosa e de Dorvalina, fazendo especulações sobre o fato de, em menos de vinte e quatro horas as duas passarem a andar de marcha a ré. Ambas após visitarem Zequiel.

Vander Hugo é alvinopolense.