EZEQUIEL

CAPÍTULO 4

 

Vander Hugo

 

 

 

 

Avizinhava-se o período das águas e a semana prometia ser de muito trabalho. Pai deixara uma extensa área plana preparada para o plantio do milho, como fazia todos os anos. Terra fértil e generosamente adubada. Nem bem amanhecia, seu vulto podia ser divisado ao longe, carregando um bornal. Levava café e broa de fubá para o lanche e marmita de feijão com farinha e carne cozida para o almoço, preparado na véspera. Os primeiros raios de sol veio encontra-lo despejando, cuidadosamente, cerca de três grãos de milho em covas de pouca profundidade. Suas mãos calejadas soltavam as sementes e, em seguida, seus pés espalhavam a terra uniformizando novamente o solo. Parecia uma dança cadenciada ao ritmo dos braços que semeavam e dos pés que cobriam o milho, uma das fontes de sustento da família. Mal percebia o tempo passando, tal o deleite com que ouvia o canto de pássaros, misturado ao assovio do vento nas árvores e, mais distante, o barulho das águas, formando uma bela sinfonia da natureza. Resolveu cantar, também, e sua voz juntou-se aos outros sons, num ritmo cadenciado das canções que ele tanto gostava:

 

"Riacho do Navio
Corre pro Pajeú
O rio Pajeú vai despejar
No São Francisco
O rio São Francisco
Vai bater no meio do mar
O rio São Francisco
Vai bater no meio do mar..."
 

 

A música parecia contagiar o povoado e prenunciava uma semana tranqüila. Não fosse o fato de que ali, no Batistinha, nunca houve semanas inteiramente tranqüilas...

 

Em casa, Ezequiel acordara mais tarde. Inquieto, chorava sem parar. Preocupada, Mãe massageou-lhe a barriguinha, conseguindo um breve alívio. Percebendo que o menino tinha cólicas, Vó providenciou chá de funcho e encheu a mamadeira. Ezequiel bebeu e, depois de arrotar, demorou pouco para que ele dormisse. Mãe ficou sentada na cama, observando a tranqüilidade daquele sono, tomada de uma alegria sem tamanho. Era seu filho. E nesse momento de breve encantamento, tinha vontade de dançar, rodopiar e agradecer pela felicidade de que sentia-se preenchida.

 

Mal reparou nos passos de Vó, que chegava trazendo Dona Lalinha, a beata, que ainda não tivera oportunidade de "aparecer para uma visita". Na verdade, viera sondar o pequeno Ezequiel, para estabelecer se ele tinha, realmente, alguma ligação com o mal que, de súbito, acometera Dorvalina e Tia Rosa. Depois dos cumprimentos, ficou longos instantes olhando a cama. "Não. Isso não faz sentido. É apenas um recém-nascido", pensava, enquanto mirava Zequiel. Vó a convidou para tomar café e saíram do quarto, cerrando a porta.

 

 

Dona Lalinha não parava de falar. "seria bom que Rosa e Dorva se visitassem para conversar", ela disse. Mãe estranhava aquela conversa, porque as duas deviam ter muitas dificuldades de locomoção agora que não caminhavam mais para a frente. Além do mais, as duas não trocavam palavra havia pelo menos uns trinta anos. E ia encerrando a conversa porque esse assunto era tabu e, embora os mais velhos conhecessem a história, ninguém tinha coragem de menciona-la em público. Mãe se calava, mas Dona Lalinha, não tinha papas na língua e, sem qualquer constrangimento lembrava a velha amizade que um dia, uniu Tia Rosa e Dorvalina. "As duas eram unha e carne", exclamava, como se fosse novidade. Vó foi até o quintal tratar das galinhas. Não gostava daquele jeito de Dona Lalinha falar da vida alheia.

 

Mãe fez que não se lembrava. Mas isso serviu, apenas, para incitar Dona Lalinha a contar a história desde o início. E o início, era a infância, quando Dorva e Rosa eram melhores amigas. Freqüentavam festas do Padroeiro no povoado e não perdiam os Congados. Visitavam a costureira juntas e faziam vestidos parecidos. Foram inseparáveis e até combinaram de se casar na mesma data. Mãe limitava-se a balançar a cabeça. Pudesse, colocaria uma vassoura atrás da porta para dispensar a visita indesejável. Mas não tinha vassoura que desse jeito na língua de Dona Lalinha. Vó entrava pela porta da cozinha justamente no momento em que ela contava, em detalhes, o fato que separou duas almas quase gêmeas. Dorva acabou casando-se primeiro, justo com o alvo dos sonhos românticos de Rosa, de nome Valdivino. "Era divino", pensaram as duas, ao mesmo tempo quando o viram a primeira vez, na procissão da festa de São Sebastião. Alto, queimado de sol e cabelos encaracolados, ele era um dos carregadores do andor. Como tudo o que faziam, apaixonaram-se ao mesmo tempo. E pelo mesmo homem. No dia seguinte, Rosa amanheceu indisposta e não pode sair de casa. Foi quando Dorvalina e Valdivino se viram e começaram a namorar. Com o namoro, Rosa ficou em segundo plano na vida da amiga, mas a amizade acabou interrompida quando, lá pelo sétimo ano de casamento, sem que ninguém suspeitasse de algo entre os dois, exceto Dona Lalinha, como ela mesma fazia questão de salientar, Valdivino saiu a cavalo e roubou Rosa que já o esperava com uma pequena bagagem.

 

 

Dona Lalinha parecia em êxtase: "Imagina que ele fez um rancho escondido para ela". Tinha até gangorra no meio das árvores", para que pudessem brincar, durante o período de uma semana em que durou a aventura. Depois disso, mudou-se para a casa de Tia Rosa e viveram juntos por dois anos, até ser acometido de morte súbita. "Ah, mas isso foi obra de Dorva, não é à toa que ela é benzedeira. Esse povo conversa com o diabo", concluía Dona Lalinha, para alívio de Mãe.

 

Mal parou de falar, Ezequiel deu um sorriso na cama e Mãe foi até o quarto. Mas, não chegou a se despedir da visita, porque, nesse momento, Pai cruzava a porteira do quintal e Dona Lalinha tratou de sair apressada mal se despedindo. Não tinha ousadia o bastante para falar da vida alheia na frente de Pai. E só os dois sabiam por que.

 

Pai estava cansado. Mas não havia cansaço a resistir diante dos olhos cheios de vida de Zequiel. Ficou uma hora inteira sentado na cama, com o dedo indicador entre as mãozinhas do filho. Até que a água da serpentina estava no ponto e Vó chamou para o banho.

 

A noite chegou e todos acabaram dormindo mais cedo. Os olhos de Zequiel encontraram os de Mãe e ela cantou baixinho: "É tão tarde, a manhã já vem... todos dormem, a noite também..." e foi o que bastou para que seus olhinhos se fechassem. E nesse ritmo completou sete dias de nascido. 

 

O sétimo dia de Ezequiel começou quente, com uma atmosfera pesada, como se houvesse algo escapando aos sentidos. Desde cedo, Vó reclamava de palpitação e pressentimentos.  Depois, buscou fumo de rolo, esquentou na chapa do fogão e socou no pilão. Fez um pó que untou com azeite morno e levou ao quarto para curar o umbigo de Zequiel. Mãe dava-lhe banho e fazia caras e bocas para diverti-lo. Naquele dia não sairiam do quarto e não receberiam visitas. Era o ritual de sete dias.

 

Quando Pai chegou, ainda fazia sol. Estava feliz por terminar o plantio do terreno. E queria sair para comprar algumas coisas e abastecer a despensa de casa. Vó estava na bica terminando de lavar vasilhas e ali ficaram conversando sobre a roça de milho recém plantada. Daí a pouco era hora de plantar o feijão das águas. O sol se foi e, quando se encaminhavam para dentro de casa, tiveram a sensação de ouvir alguém chamando e, depois, um grito de susto, vindo do quarto de Mãe:

 

- Santana das Virgens!!!

 

Foi só o que ouviram. E adentraram a casa, correndo.

 

Vander Hugo é alvinopolense.