EZEQUIEL

CAPÍTULO 5

 

Vander Hugo

 

 

 

 

Juvenal ainda usava calças curtas na primeira vez em que viu um aparelho de rádio. A novidade chegou, com grande estardalhaço na fazenda e foi colocada em lugar de destaque na sala. Em pouco tempo, um pequeno grupo se acomodava diante da pequena caixa quadrada, de madeira. Extasiado, ouviu sair, de dentro da caixa, a voz de Vicente Celestino, que cantava o “Coração materno”. Aquela voz de tenor entrou pelos seus ouvidos e tocou em algo que ele não sabia definir. Naquele dia resolveu economizar tudo o que pudesse para ter o seu próprio aparelho de rádio.

 

Mas, custava caro. E quando Juvenal e Vó se casaram, anos mais tarde, precisou esquecer o sonho de consumo para poder criar os filhos. Não se entristeceu por isso. Para ele, a família viria sempre em primeiro lugar. A partir do nascimento de Tiana, a primeira filha, passou a cultivar  o hábito de fazer o café da manhã. Durante toda a sua vida, levantou-se primeiro, preparava o café e, só depois, permitia que Vó se levantasse. E vez ou outra, voltando para casa, depois do trabalho, trazia-lhe algo no bolso. Às vezes uma rosa, às vezes uma fruta da época. E, quando não tinha nada, contava-lhe histórias. Assim, ela estava sempre feliz.

 

Pai era criança de colo quando resolveram residir no Batistinha, que ainda não era um povoado, mas, um vale de  mata cerrada que divisava com as terras da fazenda e se estendia até a Cabeceira dos Índios. Ali, num cerrado escondido do mundo, vivera uma comunidade indígena, conforme rezava antiga lenda. Dizia-se, ainda que os índios, ao morrerem, viravam árvore, pássaro, quati, tatu, ou qualquer outro ser. Isso fazia parte das histórias que eram disseminadas de geração a geração. Dessas histórias, Juvenal tirava o material com que coloria a imaginação de Pai, na sua inocência de criança.

 

Nessa época, apenas três famílias residiam no vale. O acesso era feito passando-se por uma porteira que servia para demarcar o término das terras da fazenda. Dali, era só descer uma pequena encosta para avistar a área onde Juvenal construiu a casa onde iria criar sua família. Em breve, outros lavradores viriam se juntar a eles e transformariam o lugar no povoado cheio de vida que Ezequiel conheceria anos mais tarde.

 

 

O rádio não deixara de povoar os sonhos de Juvenal. E foi por causa dele que  concordou em acompanhar o velho Arthur e seu filho Totinha numa visita à Cabeceira dos Índios. Pai e filho eram de baixa estatura, atarracados e de pouca conversa e possuíam os olhos exageradamente arredondados e arregalados. Vó não gostou nada daquela idéia. A Cabeceira era um lugar perigoso e ainda não se tinha notícia de ninguém que tivesse andado por aqueles lados. Mas, o Velho Arthur atiçou a curiosidade de Juvenal, afirmando que os índios haviam enterrado velho baú repleto de ouro, numa das encruzilhadas próximas à aldeia. Teriam que ir à noite, quinta-feira. O lugar estava marcado por uma cruz que deveria ser arrancada exatamente à meia noite. Segundo a lenda, eles deveriam ir em três, mas, se conseguissem encontrar o ouro, apenas dois regressariam. Vó estava aterrorizada. Mas Juvenal era destemido. Além do mais queria dinheiro para comprar o rádio. Foi assim que acertaram a empreitada para a quinta-feira seguinte.

 

No dia marcado, tão logo anoiteceu, puseram-se a caminho. Não queriam que eventuais surpresas adiassem o projeto. Iam carregados de ferramentas para cavar o ouro enterrado sob a cruz. O vulto alto e forte de Juvenal destacava-se na noite de lua, ao lado do Velho Arthur. Um pouco à frente, Totinha usava uma lanterna enferrujada para melhor clarear o caminho inexplorado que teriam pela frente.

 

Tão logo terminaram de subir o morro, o que sinalizava estarem entrando nas antigas terras indígenas, Totinha tropeçou num arbusto e sentiu a lanterna ser arrancada de sua mão. Pensou que o pai amparava seu tombo, mas, já no chão, percebeu quando o Velho Arthur aproximou-se para levantá-lo. De olhos ainda mais arregalados, comentou que alguém puxara-lhe a lanterna. Os homens não se assustaram. “A noite ta clara, hoje. Precisa lanterna, não”, disseram e continuaram a andar. Juvenal cortava arbustos e cipós e foi, aos poucos, descobrindo a acanhada trilha pela qual supunham que deveriam passar. A essa altura, Totinha vinha atrás, desconfiado, mas sem revelar o medo que começava a fazê-lo tremer.

 

Já caminhavam havia uma hora quando o Velho Arthur tropeçou em algo. A noite fizera-se mais escura, “um breu”, conforme Juvenal contaria depois. O trio parou e, agachados, conferiram tratar-se de uma cruz. Com as mãos no chão, Totinha levaria o segundo susto da noite: medindo os pés da cruz, suas mãos tocaram em um objeto conhecido. Agora, todos estavam assustados: nenhum deles podia explicar como a lanterna perdida fora parar ali.

 

 

Mas, agora era tarde demais para recuar. Totinha iluminou o local com mãos trêmulas. Estavam em um descampado e observaram que, de fato, parecia ter havido uma encruzilhada naquele lugar. Encontravam-se diante do ouro. Ninguém tinha relógio, mas, pelos cálculos do Velho Arthur, deviam esperar um pouco. Juvenal contou anedotas para distrair pai e filho e, em poucos minutos, ninguém mais sentia medo.

 

Velho Arthur sinalizou a hora de começar. Totinha apontou a lanterna e Juvenal arrancou a cruz com a mão. Imediatamente nesse instante ouviram um zumbido de abelhas. Sem que  fosse necessário dizer palavra, correram os três ao mesmo tempo. Sorte que não foram perseguidos. Estranhamente, elas pareciam estar lá apenas como guardiãs do ouro.

 

Quando, aos tropeços e tombos, conseguiram chegar na descida do morro que os levaria de volta ao povoado, os três tiveram a mesma impressão de ver um estranho homem com feições indígenas na divisa do terreno. Entretanto, jamais poderiam afirmá-lo, tal o estado em que se encontravam.

 

Juvenal entrou em casa e não disse palavra. Vendo que ele voltara sem as ferramentas e advinhando o que poderia ter acontecido, Vó preferiu não tecer comentários. Preparou-lhe um banho e foram dormir.

 

Uma semana depois, o Velho Arthur sofreu um infarto fulminante. Fez-se o alvoroço. E a Cabeceira dos Índios transformou-se de vez em tabu. Nos anos seguintes ninguém se atreveria a pisar naquelas terras.

 

Pai cresceu ouvindo essas e muitas outras histórias. O próprio Juvenal se encarregaria de contá-las, em doses homeopáticas. Pai ficava extasiado com tanta experiência e, enquanto ia deixando de ser menino para transformar-se em adulto, a imagem de Juvenal crescia igualmente, em admiração, dentro de si. “Quero ser igual ao senhor”, disse-lhe um dia, quando ouvia mais uma daquelas histórias que nunca acabavam.

 

Mãe reparou na semelhança dos traços entre os dois no dia em que foram pedir a sua mão. Quando ela e Pai se casaram, o sogro já era uma das figuras mais caras ao seu coração. De manhã, levava-lhes sempre um bule de café. E, à tarde, contava-lhes “causos” que afirmava serem experiências verídicas. Não se cansava de surpreender-se com a sua inteligência e inventividade. E, quando ficou grávida, Juvenal converteu os “causos” em pequenas histórias para o seu neto. E arrancava risos do rosto de Mãe, quando falava que continuaria contando histórias para ele depois que nascesse, afirmando que ela teria um menino.

 

 

Com tanta dedicação, Mãe vivia pensando uma forma de retribuir a afeição demonstrada por ele. Não achava algo à altura , até o dia em que apareceu um mascate vendendo  roupas, jóias e utensílios domésticos no povoado. Mãe não queria nada daquilo, mas perguntou se era possível ele trazer-lhe uma encomenda a ser paga em prestações mensais.

 

E assim, Juvenal foi surpreendido quando chegou em casa e encontrou um rádio de pilha idêntico àquele da sua infância.

 

Naquele dia, perdeu a fome. Sintonizou uma estação e  de lá saltou a voz de orlando Silva: “Tu és divina e graciosa estátua majestosa...”

 

Dia seguinte, Vó não sentiu o cheiro do café que Juvenal fazia todos os dias. Mas sentiu o braço que, ainda na cama, fazia pressão sobre o seu. Quando ia chamá-lo, ouviu sua voz dizendo que estava na hora de deixá-la. Percebendo-o trêmulo, ela quis levantar-se e ele a segurou. “Não vai dar tempo”, ele disse. “mas, assim que tiver oportunidade, eu volto.” E morreu.

 

Naquele dia, depois de anos esperando que ele retornasse, como havia prometido, Vó e Pai conversavam na bica, quando ouviram o grito de Mãe: “Santana das Virgens.” Chegando no quarto, Zequiel dormia tranqüilo, mas o rosto de mãe estava virado para a janela, onde parecia ter acabado de ver uma assombração.

 

Não era assombração. Era apenas Juvenal cumprindo a promessa. Antes que Mãe conseguisse articular palavra, Vó sentira o cheiro de café fresco. E aquele cheiro era um velho conhecido seu.  

 

Vander Hugo é alvinopolense.