EZEQUIEL

CAPÍTULO 6

 

Vander Hugo

 

seguia à risca o tempo de penitência da quaresma. E, chegada a quarta-feira de cinzas, resolveu aposentar, pelos quarenta dias seguintes, o cigarro de palha que confeccionava com fumo de rolo.  Disciplinada e sem nenhum pesar pela decisão tomada, jogou fora a palha que trazia nos bolsos do vestido e foi limpar o fogão de lenha na cozinha. Passou um pano úmido nas trempes e ficou um bom tempo absorta na retirada do picumã acumulado sob o fogão. Mãe veio fazer-lhe companhia e em seguida afastou-se para varrer o terreiro da frente de casa. Aproveitava o sono ao qual Ezequiel se entregara no final da manhã. Incansável, foi preparar o almoço.

 

O dia amanhecera sem sol. O vento soprava como quem sussurra segredos nas copas das árvores. E a sensação de que havia algo no ar era compartilhada por todos os moradores do pequeno povoado. Embora, a verdade é que ninguém dava mais importância para as esquisitices que aconteciam ali. Haviam se acostumado. Mas, quem observasse os movimentos do dia, perceberia um certo nervosismo entre os moradores.

 

Ainda bem cedo, Dona Lalinha abriu a igreja, passou um pano úmido sobre o altar, limpou as imagens e passou pano molhado no chão. Em seguida, fez um creio em Deus Pai e cerrou as portas, caminhando meio alheia até a sua casa. Ana de Cassim limpava uns poucos mandis e lambaris que o marido trouxera no final da tarde do dia anterior. Quem a visse, diria que a faca deslizava, praticamente sozinha nas escamas dos peixes, enquanto seu olhar permanecia fixo, olhando para lugar nenhum. Durvalina não saiu de casa. E também não benzeu naquele dia. Quem a procurou, simplesmente marcava para o dia seguinte, sem conseguir atinar com o vazio de que era tomada quando tentava imaginar o outro dia. Tia Rosa pode ser vista andando em círculos no seu quintal. Deu umas sete voltas em torno de casa, sempre de costas e depois não foi mais vista. Dona Nenega, esta sim, foi notada: esteve toda a manhã, postada na janela da sala de sua casa. Mas, olhava pro tempo, ensimesmada, como se ali não estivesse. Filhinha não ousou costurar depois da primeira tentativa, ainda cedo, quando espetou uma agulha no dedo mindinho. Passaria despercebido, não tivesse espetado a metade da agulha dedo adentro, até Tiana chegar para provar uma peça e interromper a cena. Puxou a agulha e desinfetou o dedo da costureira com álcool, mas não conseguiu fazê-la dizer palavra. Resolveu voltar, convencida de que o vento que soprava parecia cochichar maus presságios para o Batistinha.

 

 

E assim a manhã se arrastava. As horas não passavam. Enquanto os homens trabalhavam, as mulheres apresentavam um alheamento completo. Exceto uma: Margarida acordou às cinco horas. Lavou roupa até encher o varal. Limpou a casa e o quintal. Rezou diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida que mantinha na sala, com um copo e uma flor do lado. E entoou músicas religiosas de forma tão afinada que essa foi a única lembrança que os moradores guardaram daquele dia: "às vezes eu paro e fico a pensar e sem perceber me vejo a rezar, o meu coração se põe a cantar, pra Virgem de Nazaré..." e cantando ela percebeu que o sol ia se escondendo e o vento aumentando de intensidade, já levantando poeira nas estradas. Resolveu entrar e fechar a porta.

 

Estranhamente, naquele dia, Pai não cantava quando chegou em casa, à tardinha. Estava calado, ensimesmado como, de resto, toda a vizinhança. Pai tinha um cavalo, chamado Brinquedo. E foi Brinquedo quem o trouxe para casa, em trotes suaves. Depois do banho, tomou Ezequiel no colo e, por um longo tempo, fez-lhe caras e bocas. E então teve sono.

 

Por volta da meia noite - um pouco antes, talvez - acordou com uma cantoria alta e estridente a confundir-lhe os tímpanos. A mesma cantoria que ressoou em todo o povoado e, em poucos minutos, colocou o povoado inteiro de pé. Eram vozes vindas do alto do morro que dava acesso ao Batistinha. E foram, aos poucos, se aproximando...

 

Lamparinas se acenderam em todas as casas e, apesar da escuridão da noite, algumas pessoas se postaram nas janelas, ou foram até o quintal, procurar entender de onde vozes tão afinadas entoavam o hino “com minha mãe estarei”. Não demorou para que pudessem divisar uma procissão descendo o morro. Mesmo os mais velhos considerando o horário, “horas mortas”, conforme gostava de frisar, podiam ser vistos, tão assustados quanto as crianças. Apenas os muito novos permaneceram nas camas. Os demais, famílias inteiras se entreolhavam, sem coragem de dizer palavra.

 

A procissão de aproximava. Uma pequena multidão, trajando roupas tão brancas que brilhavam em contraste com o escuro da noite. Cada um carregava uma vela nas mãos e os lábios continuavam entoando a melodia religiosa.

 

 

Passaram pela casa de Dorvalina, contornaram à esquerda e caminharam, chegando à casa de Dona Lalinha,e, de lá, até a casa de Cassim. Em seguida, retornaram, passando pelo grupo escolar, alcançando o campo de futebol no sentido da casa de Tia Rosa. Margarida ousou abrir a janela apenas o suficiente para observar, sem ser vista. Mas, de nada adiantou, pois, em frente à sua janela, alguém se destacou do grupo, em sua direção e entregou-lhe a vela que portava. Paralisada de susto, bateu a janela, passou a tranca e apagou a vela, jogando- a em um canto qualquer. E cuidou de voltar para a cama.

 

Retornando ao campo de futebol, o grupo caminhava, agora, na direção do adro da igreja. Um a um, subiram as escadarias que levava à entrada do templo e, desviando-se, seguiram em destino ao portão do cemitério. As velas se apagavam à medida em que desapareciam e o canto se convertia em um sussurro que, em poucos segundos, transformou-se em leve ventania.

 

Os moradores estavam estáticos. E não conseguiram articular palavra. Em silêncio passaram o resto da noite deitados sem dormir. Talvez, para não terem oportunidade de transformar o evento em escândalo, amanheceram mudos. E assim ficaram pelos sete anos seguintes.

 

Vander Hugo é escritor alvinopolense.