A PRETEXTO DE RETROSPECTIVA...

 

Vanderlei Lourenço

 

Dedicado às seguintes pessoas e instituições que fizeram com que

Alvinópolis brilhasse durante o ano de 2008:

Kalamidade Pública,

Banda Santo Antônio

Irmã Helena,

“De frente pra vida”,

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Alvi.com.br

APAE

 

       I

As cortinas estão se fechando para o ano de 2008. E fica-nos aquela sensação de que o ano engole seus doze meses com a rapidez de quem tem muita pressa para chegar a algum lugar. E ai nos perguntamos: onde? Para onde estamos indo com essa “sangria desatada”? (expressão que o nosso caro Zé Afrânio usava para descrever a pressa que eu tinha em publicar meus escritos quando adolescente). Aliás, por falar nele, é uma das referências culturais de que fomos privados neste ano que se despede.

 

Além de muitos anônimos, como de praxe, muita gente boa do cinema, do teatro, da música e da televisão se foi, deixando o mundo das artes menos inspirador.  Foi o ano que nos tirou a irreverência de Dercy Gonçalves, que, desde criança eu pensava ser figura “imorrivel”. E, para não me estender, o mundo da imaginação, que na infância eu acompanhava através do Sítio do Pica-pau amarelo, perdeu o ator André Valli, o Visconde de Sabugosa, da fase áurea daquela série televisiva.

 

Muita gente e muita coisa ficou encantada no decorrer de 2008, que, em contrapartida, poderia ter devolvido a vergonha na cara aos nossos representantes que protagonizaram escândalos seguidos na vida pública nacional.  Já em janeiro estourava o primeiro deles: a farra dos cartões corporativos. Durante o mês de fevereiro, ensaiou-se até a instalação de uma CPI no Congresso. De um lado, a oposição esperneava pela apuração. De outro, membros do governo montavam dossiê para chantagear os opositores que, no poder, fizeram a mesma coisa. Nos “finalmentes”, entre mortos e feridos, parece que a única a não se salvar foi a Ministra da Igualdade Racial, demitida depois de algumas semanas tentando se justificar.  De CPI mesmo, instalaram a dos Grampos que, vez por outra produziu algum factóide. O que dizem por aí é que assuntos sérios agora, só pessoalmente, já que ninguém pode afirmar estar livre de ter sido grampeado. Depois, estourou o caso da promiscuidade do banqueiro com os escalões mais altos do executivo, do legislativo e, até, do judiciário. Assim, de escândalo em escândalo, os três poderes da nação passaram o ano.

 

Talvez fiquemos espantados, sem entender o que o poder Judiciário, a quem cabe investigar, julgar e punir, faz no meio de tanta podridão, dividindo as benesses com aqueles a quem deveria estar investigando.  Quando achamos a resposta, ficamos “sem chão”, atônitos como aquela personagem do “Chapolim”: “e agora, quem poderá nos defender?”.

 

Enquanto isso, péssimas notícias nas áreas de saúde, educação e segurança pública. De um lado, a dengue se alastrando feito praga no Estado do Rio de Janeiro. De outro, as imagens de um professor surrado por aluno em sala de aula, exemplificando as milhares de cenas similares que acontecem Brasil afora e a TV não mostra. Não bastassem essas, acompanhou-se atentamente o caso da menina que era arremessada pela janela, supostamente pelo próprio pai, essa entidade de quem esperamos, no mínimo a proteção inerente à sua posição. Ou, ainda, o pulso firme que faltou para impedir que um rapaz mantivesse uma adolescente, mal saída da infância, durante uma semana inteira, sob a mira de um revólver e sob ameaça, dando entrevista para redes de TV,  acabando por assassina-la, sem que as autoridades nada fizessem para impedi-lo.

 

E não só as grandes cidades padeceram com a violência generalizada. Até a nossa pequena Alvinópolis forneceu material para a crônica policial: roubos, homicídios e, para coroar, uma tentativa de seqüestro!

 

Não foram poucas as cenas de violência a que assistimos em 2008. E não foram poucas as vezes em que nos perguntamos onde buscar apoio diante de tanta brutalidade. O normal seria “chamar a polícia”. Mas, na hora de chamar, corre-se o risco de encontra-la no banquete com os bandidos. Até a minha sobrinha de três anos já fez referências assim: “a polícia mata”...

 

Mas nem só de más notícias vivemos o ano de 2008. O mundo saudou, entusiasmado, a eleição do primeiro negro para a Presidência dos Estados Unidos. Não é que ser branco, negro, amarelo, enfim, devesse fazer diferença, mas pelo simbolismo contido nessa eleição, em um mundo que, historicamente tem sido intolerante com as diferenças e tem dificuldade em conviver com a diversidade. A chegada de Obama ao poder abre perspectivas reais para quebrar  paradigmas que impedem um amplo setor da população de alcançar posições de destaque. Até mesmo porque ninguém responde a um censo dizendo-se preconceituoso, mas continua negando posições de destaque a negros, mulheres e  homossexuais, por exemplo, independente de sua capacitação.

 

E, já que mencionamos as eleições, bom lembrar que o Brasil viveu mais um momento de renovação no âmbito municipal. Em muitos municípios o resultado surpreendeu, com antigos caciques saindo derrotados. É como se, reagindo a tudo aquilo que dissemos no terceiro parágrafo deste artigo, a população quisesse criar novos líderes com um outro perfil, para se contrapor às lideranças antigas, responsáveis pela maioria das más notícias que infestam o noticiário.

 

II

 

O final do ano chegou trazendo dias terríveis para milhares de famílias de Santa Catarina. Mortos, desaparecidos, soterramentos, em conseqüência de chuvas torrenciais e enchentes que não acabavam mais. Um triste episódio que colocou à prova a nossa capacidade de dizer sim à solidariedade. E a resposta não tardou a chegar. Enquanto o governo se embaralhava na “burrocracia” para atender às vítimas das chuvas, elas eram socorridas pelo Brasil inteiro. De norte a sul, de leste a oeste, toneladas de mantimentos, roupas, produtos de higiene e palavras de conforto choveram, tanto quanto a chuva, em Santa Catarina. Esse é o espetáculo que nos enche de esperança. Depois de tudo o que foi dito acima, esse episódio nos dá a certeza de que nem tudo está perdido. A capacidade da nossa gente se solidarizar com o seu próximo parece não ter fim.

 

Vejamos o exemplo de apoio aos catarinenses, vejamos o exemplo de Alvinópolis, onde a banda “Kalamidade Pública” promoveu mais um “Natal sem fome”. Vejamos tantos exemplos que acontecem Brasil afora, protagonizado por instituições, organizações não governamentais e por uma infinidade de pessoas anônimas. Se por um lado, a crônica policial nos oferece espetáculos dantescos, por outro, a sensibilidade das pessoas nos dá momentos que nos fazem ter orgulho de nossa gente. 2009 já bate à porta e nos oferece novo chamado à solidariedade. É como dizia o poeta Gonzaguinha:

 

“vamos lá fazer o que será”...

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Contato : Vanderhugo@yahoo.com.br