Caso de infância

 

 

Zózimo Drumond

 

 

Meus amigos/as:

Há dias postei com o título CONSELHO/EXEMPLO, uma sátira sobre diversos comportamentos humanos, nos quais os partícipes, presos a um determinado foco por eles eleitos como "a coisa principal", não dão conta da quantidade de vezes que agem com atitudes que contradizem o seu foco. Puxei os que irresponsavelmente saem às ruas avisando que voltam em minutos, e nem voltam; aqueles que, uma vez fora de casa, chegou a hora de extravasar sua irresponsabilidade, pouco se importando com o resultado possível e os meios para atingi-la; que amizade sincera e definitiva e amizade momentânea e interesseira se repudiam; que redutos de frequentadores da madrugada não são recintos próprios para quem constitui família, que uma pessoa que enfatiza o respeito nunca se apropria de um bem alheio, ainda que sob estado etílico; que a perder o respeito da família, é preferível perder a vida e enfim, para não tornar o texto enfadonho e para ser lido até o fim, apliquei-lhe uma pitada de humor, mesmo assim sem a certeza de que algum desconhecido, não sabedor de que os casos e nomes citados eram fictícios, julgar que eu estivesse vivendo uma alucinação ou prestando  uma confissão da qual me arrependeria pelo resto da vida.

Mas antes, valorizador que procuro ser das coisas boas que  nos acontecem, vou aproveitar o "gancho" da palavra CONSELHO, contida no título, para passar-lhes um fato sucedido na minha vida, do qual sou orgulhoso "ad eternitat".

É muito veiculado, principalmente pelos profissionais da intelectualidade , de que os adultos só conseguem relembrar fatos que lhe sucederam após os sete anos de idade. Acho que de um modo geral, é assim mesmo, ressalvando, com o devido respeito,  que se um fato, acontecido antes dessa idade,  foi portador de algo MARCANTE para a pessoa envolvida, tal poderá ser objeto de lembrança para sempre. Comigo aconteceram dois, mas um deles é motivo de tanto orgulho, que vou tentar aqui relatá-lo, numa homenagem póstuma, justíssima a uma pessoa que dele foi participante: minha querida e saudosa mãe.

Quando eu, com idade inferior a 5 anos, tive a grata satisfação de ver chegar mudança para uma residência, umas quatro ou cinco casas acima da em que eu morava na Rua de Baixo, de um senhor muito sério, que diziam ser o novo Juiz de Direito, do qual não me lembro o nome, mas lembro do da sua esposa, a muito bonita e simpática Dona Maria Auxiliadora, e dos dois filhos, lembro apenas do nome do mais novo, o Lucas, que tinha idade próxima à minha. De imediato fizemos a amizade infantil e afirmo na experiência de hoje que seria estranho, pais de outras localidades, não ainda bem informados sobre a nova vizinhança , de padrões sociais e vida diferentes, deixar tão rapidamente semelhante aproximação. (deve ser a tal de EMPATIA que já existia em tão longínqua época). Tínhamos autorizações de brincarmos, uma vez por semana, nos respectivos quintais, lembrando-me do quanto ele se espantou quando esteve a primeira vez no meu, deixando claro que ele nunca havia visto uma chácara tão grande, provida de um pomar com tantos frutos, muitos dos quais ele não conhecia. Com a chuva de novembro ele, além de ir, teve o direito de convidar o irmão, a mãe e o pai, que, permitam-me A irreverência, "sem nenhuma frescura" ficaram à vontade, degustaram o máximo que quiseram das negras jabuticabas e ainda levaram muitas para casa.


Chegou o Natal. Lá em casa, além dos presentes que meu pai comprava, sempre unindo o útil ao agradável, (camisas, calças, sapatos), tínhamos o privilégio de termos o irmão Antônio, dotado de uma habilidade anormal para quem tinha apenas 11 anos, que, nessa época, pegava as ferramentas disponíveis, umas sucatas de madeiras que conseguia em restos de construções, e fazia milagres conseguindo miniaturas de veículos, oratórios, casas, moinhos, charretes, etc, cada um destinado a um irmão. Nesse natal, a mim coube um caminhãozinho que, com touquinhos e réguas trabalhados, mais uma pintura de alvaiade, ficou um primor, fazendo inveja aos demais irmãos.

Muito bem. O primeiro encontro com o Lucas foi aquela alegria, cada um com seu trunfo, o meu, advindo de uma habilidade artesanal, o dele, talvez, de centro comercial muito maior, porque a beleza daquele automovelzinho, feito de um material anterior ao advento do plástico, chamado celulóide, jamais seria exposto nas humildes vitrines do simples comércio de nossa querida e pequena Alvinópolis . Voltamos para casa, cada um com o presente do outro na sua cabeça.

Na semana seguinte, a agenda de brincar era na sexta-feira, na parte da tarde, e o local era o quintal de minha casa, que ficou todo revirado de faca, de tanta estradinha de terra que fizemos para os "carrões". Coveiro de cemitério não conseguiria  sujar tanto suas roupas, como nós conseguimos.

Muito bem. Minha mãe, preparando-me o banho, vê um objeto no chão da sala e exclama: "o quê é isto aqui?" -" É o presente que o Lucas ganhou de Papai Noel" - "E ele o esqueceu aqui?" - Não, mamãe! Ele gostou muito do meu caminhãozinho e pediu-me que trocasse pelo carro dele". - "O quê?  Vista esta roupa suja mesmo que nós estamos indo agora na casa dele levando o que é dele". E fomos. Chegando lá, a mamãe muito bem recebida pela Dona Ma. Auxiliadora, foi logo dizendo: "tenho duas desculpas a pedir: a primeira, por ter distraído com meus afazeres domésticos, só dei pela terra na roupa na hora que eles se despediram; a segunda , na inocência infantil, não sei partindo de ideia de qual deles (não disse que sabia ser do Lucas), fizeram a troca dos presentes, razão porque estamos aqui para a devolução"

- Dona Ritinha ! Que alegria e orgulho ter a senhora como vizinha, e que bom saber que meu filho tem como amigo uma pessoa de sua qualidade!. Primeiramente, ele chegar sujo e amarrotado aqui, foi motivo de satisfação para mim e meu marido, pois já estávamos preocupados de, em razão de nossos relacionamentos anteriores, vermos sempre nossos filhos muito "engomadinhos", sem qualquer aproximação com a natureza; quanto ao caso da troca dos brinquedos, eu já sabia, inclusive que foi uma sugestão do meu filho pois ele próprio me disse, e só não fui procurá-la para o desfazimento, para não provocar constrangimento na senhora, mesmo porque sabia muito bem que iria fazê-lo, sem, no entanto pensar que fosse tão de imediato. Após entrar com o Lucas, vou sentar-me no sofá com ele, e redimir-me de uma possível omissão que eu tenha cometido, ao não ensinar-lhe que um presente, não deve ser trocado por outro objeto, ainda que este lhe apresente mais bonito.
 

Voltamos para casa e minha mãe, antes de entrarmos, assentou-se comigo na pedra que ficava sob a porta e me disse:

"Meu filho, às vezes, na correria do dia-a-dia, a gente se esquece de informações importantes. Família é uma reunião de pessoas que vivem debaixo do mesmo teto, têm afinidades e costumes próprios, muitos destes, comuns a outras famílias. Mas existem outras famílias que são, por razões diversas, de classes diferentes, mas perfeitamente de convívio social com todas as outras, desde que nelas existam pessoas da educação e doçura que a mãe do seu amiguinho acaba de nos provar ser valorizadora. Mas o meu CONSELHO a você, é que sempre valorize o que ganhar, e que nunca ache que alguma coisa  seja melhor do que a que você recebeu e nunca, MAS NUNCA ,MESMO, dê, voluntariamente, prejuízo material ou imaterial a outrem.

Faço hoje transcrição das falas de duas pessoas, usando palavras minhas, porque, depois de 65 anos, impossível seria eu repetir as originais, reconhecendo, outrossim,  que as atuais não seriam de alcance a  crianças daquela idade, garantindo, todavia, que em nenhum momento o conteúdo e sentido foram deturpados, restando-me, porém, a preocupação da possibilidade  de falhas nas informações de detalhes, diante de tanto tempo passado.

Quanto a eventualidade de alguém suscitar a dúvida de uma criança, com menos de cinco, sem acesso a rádio, tv, internet, numa época em que nem havia pré-primários, desconhecendo calendários, datas , etc, pudesse ter ciência de sua própria idade ou a do seu irmão de 11 anos, isto é facilmente explicável: "certo dia, o pai do Lucas pediu-nos que nos posicionasse no passeio para uma foto de nós dois. Passados alguns dias, ele procurou-me para entregar- me uma foto, a qual trazia, no verso, com letra de sua mãe o seguinte:

"Ao meu amigo Zózimo.
Meu pai foi transferido para uma cidade muito longe daqui, e lá em casa já estão providenciando a mudança.Estou levando uma cópia desta foto comigo e deixando uma para você, com meu abraço. Alvinópolis, 14 de junho de 1.948."

Ficou fácil, não é? Esta foto rodou lá em casa , numa caixa de sapato, por muitos anos. Por outro lado, a gente cresce, se preocupa com coisas outras, e deixa escapulir as referências que poderiam ser úteis no momento atual. Como seria bom encontrar-me hoje com um senhor que já foi, um dia, aquele frágil Lucas.

 

Zózimo Drumond é alvinopolense e reside em Belo Horizonte.

Contato : zozimodrumond@yahoo.com.br

 

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