F O R R
O B O D Ó
Zózimo
Drumond
Era o dia 28
de fevereiro de 1968. Plena
quarta-feira de cinzas. Descuidei-me e quando saí do
clube, o ônibus dos Vianas já havia ido embora.
Naquela
época só havia aquele das cinco horas da manhã, e quem o
perdesse, só no dia seguinte conseguiria ir para B.H.
Não me importei e, apesar de naquela época eu já ser
trabalhador de frequência assídua, admiti que o Banco da
Lavoura, naquele dia, estaria desfalcado de um
funcionário no seu Setor de Cruzamentos. Sem outra
alternativa, rumei-me para a casa dos meus pais, que
ainda era na Rua de Baixo..
Acordei com a cara
amarrotada e a voz cavernosa quando já passava do meio
dia. Deitei-me no sofá da sala, liguei a radiola numa
música clássica, bem baixinho, pois meus miolos estavam
para estourar. Logo em seguida, minha mãe, que já tinha
"despachado" o almoço, assentou-se numa poltrona, ficou
calada alguns minutos, fitou-me, e disse:
-"No meu tempo
é que era bom, nem sabíamos o que é isso que vocês
chamam de ressaca, que eu nunca experimentei, para saber
se é ruim ou bom, era só alegria.
-"Mas,
de quê a senhora está falando mamãe?
-"Dos
nossos carnavais... Quantas alegrias, quanta saudade!
-"Então conta pra mim". E ela contou.
-"Alvinópolis não tinha eletricidade, então não tínhamos
também rádios. Quando chegava o carnaval, o Sô Raimundinho de Artur, pessoa de muita inteligência e
esclarecimento, compunha marcha de carnaval para que o
povo pudesse cantar nos bailes. Escrevia a letra numa
folha e deixava disponível em sua casa para, quem se
interessasse, ir lá e copiá-la. Dava fila na porta da
sua casa. No ano que eu atingi idade para que meus pais
deixassem eu ir, foi que ele compôs a mais famosa de
todas as suas.
- "E
como se chamava? Lembra-se da letra?
-
"Chamava-se Forrobodó. Ele fez menção a um sujeito que
tinha uma perna perfeita e a outra de pau. Era assim:
Na hora de dançar, o forrobodó
Todo mundo vai dançar o
forrobodó!
Forrobodó é uma dança
diferente,
Não é samba, não é rumba,
Seu inventor, foi um tal de
João Cotó
-"Fenomenal, mamãe!"
E eu estava achando fenomenal
mesmo. Afinal, uma cidadezinha, cravada entre longínquas
montanhas, que nem a luz tinha, não deveria ter
estradas, não deveria constar nos mapas, não ficaria
privada de um acontecimento tão alegre e tão sadio.
E
ela continuou:
- "Mas
tudo era muito difícil, havia muitas barreiras. O padre
local desconjurava, bradando no altar que era festa do
demônio, não havia clube. Alguém que tivesse na casa uma
sala maior, a cedia para aquela finalidade.
Moças e rapazes se reuniam e promoviam enfeites de flores,
balões, etc. Ajuntava-se então sanfoneiros, amadores do
violão, pandeiristas. Havia também a Inezinha de Sá
Honorata, que tinha uma voz muito boa, e ficava lá, a
noite inteira, cantando numa campana de papelão que
eles improvisavam.
Ela cantava tão bem, que, durante
muitos anos, só ela cantava, representando a figura da
Verônica, nas semanas-santas. Ela decorou com facilidade
a letra de Forrobodó, e foram três dias de alegria. Para
simular o som da perna de pau do João Cotó, ela, ao
mesmo tempo que cantava, cadenciada e entusiasticamente,
batia com um cabo de vassoura no assoalho, ensejando um
"toc, toc, toc" e no mesmo embalo e ritmo todos batiam
palmas "plac, plac, plac, plac", a noite toda."
No dia
seguinte as palmas das mãos estavam vermelhas"
-"Muito
bom, mamãe, mas, e as outras músicas?"
-"Uai?
Não eram três dias de carnaval?"
-"Sim,
eram, mas era só uma música"
-"O
què? Uma para cada noite?"!
-"Não.
Uma para as três noites. Ele fazia uma por ano.
-"Mas
aí ninguém suportaria, iria lembrar da música por uma
semana. Cantar uma música a noite inteira, durante três
dias..."
-"O
quê? Ainda havia ensaios?"
-"Três
vezes por semana, nas quatro que antecediam o carnaval,
estava lá: toc, toc, toc, toc, plac, plac, plac,
plac..."
Levava meses para a gente tirar aquilo da
cabeça. A gente que era criada preservando-se muito as
coisas da Igreja, ficava com um certo ressentimento por
estar em plena quaresma sem ter-se esquecido da música
do João Cotó.
Mas quando aproximou-se a Semana Santa, eu
não tive dúvida de que, como devota que eu era, iria ter
muita oportunidade de orar e pedir perdão. E também
estava ansiosa por ver a Inezita de Sá Honorata, com
aquela voz linda, representar a Verônica.
E chegou o
dia. Na hora que ela ia cantar a primeira vez, num
silêncio total, todos todo ouvidos, ela abre a boca e
começa:
"Eu quero ver você, com uma perna só...."
O padre veio, vermelho, bufando, correndo, tropeçando,
mas antes que ele a atingisse, Dona Honorina, que fazia
parte do côro, já havia dado um puxão na vestimenta
dela, ato este suficiente para "acordá-la" e
fazê-la recomeçar, cantando a música correta.
Zózimo Drumond
é alvinopolense e reside em Belo Horizonte.
Contato
:
zozimodrumond@yahoo.com.br
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