TESTEMUNHO
CRISTÃO
Por
Zózimo Drumond
Ei gente: às vezes
escrevemos contos, às vezes, crônicas, de vez quando
contamos piadas que recebemos de outrem, há, até vezes
que não recebemos e inventamos, mas, há também horas que
nos reconhecemos sérios, honestos, gratos, e escrevemos
coisas sérias. O relato que vou fazer a seguir é
verídico e aconteceu comigo. Sou católico praticante e,
ao contrário de ter vergonha de dizê-lo, tenho orgulho
de externá-lo, o que vou fazer na calma, para ter um
raciocínio lógico e inteligível. Respeito todas as
religiões, e também quem não as pratica pois, conheço
inúmeras pessoas que nunca entraram em qualquer igreja,
mas têm um espírito de respeito e solidariedade às
pessoas, de fazer inveja a muitos praticantes. Estas
suas atitudes, sendo tão espontâneas, valem muito mais
para Deus, do que as daqueles que as praticam
pressionados por seitas.
Pois bem.
Influenciado, talvez, pelas pessoas que não conseguem se
livrar dos grandes centros urbanos, e, para compensar a
agitação a que são submetidos nas grandes cidades,
também eu, comprei um sítio, na esperança de que, após
uma semana de gravata atada, teria o direito de
usufruir, junto com a minha família, de dois dias de
ambiente cheio de verdes, cachoeiras, moinhos d'água,
matas, pássaros, e, quem sabe, até uma vaquinha jersey.
Após várias pesquisas em "classificados",
cheguei à conclusão de que, entre vários
mostrados, deveria adquirir, considerando a
variável custo-benefício, um terreno que, apesar de
desprovido de qualquer benfeitoria, tinha a
quilometragem compatível para, a ele se dirigir, quem
estava precisando de descanso.
"Negócio
fechado" a próxima preocupação era a de, antes
de construir a casa, começar a ganhar tempo,
plantando o pomar, que não se torna adulto de um dia
para o outro.
Apareceu, na firma
que eu trabalhava na época, o Sr. Aníbal, pessoa
humilde, braçal, que necessitando de sustentar a si e
aos seus, sujeitou-se a um trabalho temporário, sem
vínculo empregatício, para fazer a limpeza externa da
grande área da Empresa. O seu trabalho seria,
principalmente, capina, remoção de entulhos e todos
serviços que se enquadravam à pessoa simples que
demonstrava ser.
Como eu precisava de
uma pessoa resistente para, no meu terreno, abrir as
covas para ali serem plantadas as mudas de laranja,
limão, tangerina, mamão, etc, convidei-o para, nos fins
de semana, acompanhar-me para aquela função, ao que o
recompensaria financeiramente. Numa das idas, estávamos
desincumbindo as nossas tarefas, quando vi que a água
potável havia acabado. Peguei o "bujão" de cinco litros
e fui abastecê-lo. Ao voltar ele disse que o enxadão
estava cego e que precisaria de uma "lima" para
amolá-lo, tarefa que não seria difícil para mim já que
sempre me esmerava em ter todo tipo de ferramentas no
meu humilde "fusca" ,
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Ah, se meu fusca falasse... |
comprado especificamente
para levar-me num lugar que tinha muitos quilômetros de
estrada de terra, na qual nunca colocaria meu carro
principal. Acontece que, indo ao fusca, abrindo o seu
"capot", dei falta de uma sacola na qual trazia
todas as minhas ferramentas. Olhei de novo, olhei
debaixo dos bancos e até naquele baú que existe atrás do
banco traseiro. Nada de ferramentas. Perguntei ao Sr.
Aníbal: "Durante a minha ausência, esteve aqui
alguma pessoa estranha ?" Ele foi categórico em
afirmar que não. A partir daí comecei a engendrar na
minha falha cabeça, todas as hipóteses, inclusive a pior
delas, a de que o Sr. Aníbal, na minha ausência, teria
pego minhas ferramentas, escondido-as em alguma moita de
mato para, numa próxima vinda, arranjar uma maneira, por
exemplo, misturá-las numa sacola de mandiocas, e
levá-las embora.
A noite
aproximou-se. Juntamos tudo, paguei o combinado e
rumamo-nos para B.Horizonte. No caminho, apesar de
ele puxar conversa, não achava apoio, já que eu me
encontrava silente. Deixei-o no seu ponto de ônibus,
na certeza de que era aquela a última vez que o
fazia.
A Empresa em
que eu trabalhava comprou um míni-trator, para a
função de fazer toda a limpeza de sua área externa,
o que tornou desnecessária a presença do Sr. Aníbal,
ali.
Chegou o
fim-de-ano que sempre vinha acompanhado de enormes
enchentes. Em um dia, em que no anterior o bairro de
Venda Nova, onde ele morava, foi vítima de enorme
inundação, vi, na fila do Banco Real, entidade
financeira que tinha exclusividade na Empresa, alguém
falar que o Sr. Aníbal era uma das vítimas daquela
catástrofe, uma vez que o seu barraco também fora
embora, ante a voracidade das águas. Não tive a sórdida
indagação: "Bem feito ! Prejudicou-me, agora
está pagando?"! Mas, apesar de nunca ter sido
portador de tão torpe idéia, lá no íntimo, talvez
involuntariamente, vinha um pensamento mais brando:
"Quem prejudica o outro, paga aqui mesmo".
(perdoa-me, meu Deus, por mais esta) Resolvi, sendo eu
daquelas pessoas que fazem tudo em casa (desentupir a
pia, consertar o fogão, reparar a rede elétrica,
consertar o chuveiro, etc.), que a melhor maneira de
esquecer aquilo que me atormentava, seria, numa
oportunidade, ir a uma casa especializada e comprar as
ferramentas básicas em qualquer residência : furadeira, martelo,
alicate, chave de fenda, serrote, e outras. Mas...a
cada vez que usava as novas ferramentas, lembrava-me das
antigas, e o pensamento negativo sempre voltava.
Muito bem. Num
sábado, lá pelas seis da manhã, após certificar-me de
que não estava esquecendo nada para trás, (inclusive a
marmita que a Pompéia preparava para mim, já que eu
estava indo para o alto de uma colina, desprovida de
tudo), rumei-me para o fusca, saindo da porta de fundo
da casa, indo em direção à garagem para, após colocar
todo o material no carro, ir para o sítio. Quando eu
estava a apenas, no máximo cinco metros do veículo, (ou
a 15 segundos dele) veio-me à mente, o pensamento que
sempre se repetiu durante um longo tempo: "Quem
prejudica a outrem, paga aqui mesmo" Deu
um "estalo" em minha cabeça e, desta vez
pensei com razoabilidade: "como posso, morando em
casa própria, tendo um bom emprego e condição
econômico- financeira estável, reagir assim,
contra um indivíduo que, ainda que esteja errado, não
tem certeza do seu amanhã?" Pedi perdão a Deus
e, mesmo sem ter certeza de ser atendido, pedi também
pela paz e felicidade do Sr. Aníbal. Continuei em
direção à garagem e, em 15 segundos, no máximo,
constatei que o pneu dianteiro do fusca estava vazio.
Abri o "capot", retirei o estepe que iria
socorrer-me e constatei que minhas ferramentas estavam
bem debaixo dele, com certeza colocadas por mim, quem
sabe, para evitar todo esse transtorno, por mim criado.
Fiquei estático. Senti que recebi um prêmio lá de cima,
ao "tocar-me" o quanto estava errado, e este
prêmio, se chegasse 15 segundos depois, já era
tarde.
Se alguém que ler este
texto (inclusive o Papa), quiser convencer-me de que o
relatado não passa de uma coincidência, continuarei com
o meu pensamento de que, após minha primeira falha, o
bom Deus começou a monitorar-me com o seu possante
GPS, deve ter visto que o mau pensamento voltou
várias vezes, mas, ao notar que nos próximos 15
segundos eu iria deparar com a verdade que me deixaria
de arrependimento para o resto da vida, pensou: "ele,
como todos terrenos, é portador de inúmeros defeitos,
mas não é tão ruim assim, que deveria pagar com tão
grande pena" .Quem duvidar desta afirmação, que
pense comigo: como uma indagação desta, que veio-me à
mente inúmeras vezes, num tempo que calculo, próximo a
um ano, sem obter êxito, iria obtê-lo 15 segundos antes
do seu esclarecimento? Concluo, pois, que o Criador não
perdeu tempo. Mandou pelo seu GPS um "mea
culpa" relâmpago, que livrou-me de um remorso
eterno, substituindo-o por uma gratidão "ad
infinitun"
Oxalá esta minha
manifestação de gratidão, alcance meus pais,
mostrando-lhes que não foi em vão quando, num longínquo
fevereiro de 1943, levaram-me a uma pia batismal, onde
o saudoso Padre Antônio Pena iria dizer a Deus que
estava a caminho mais um de seus queridos filhos. Meus
pais, além de endireitar-nos pelo caminho do bem,
valorizando a honestidade e o respeito às pessoas,
provaram-nos que, um barco pequeno, com onze frágeis e
inocentes crianças, chegaria ao ancoradouro, se fosse
guiado por pessoas que, na hora de altas tempestades
agissem com prudência e serenidade, e que tivessem mão
firme quando o mar estivesse revolto.
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