O
futuro nos pertence
Josué Serôa da Matta
Sobrinho
Dentre as atividades humanas a
que mais depende do meio ambiente é o setor do
agronegócio. Qualquer variação
ambiental que fuja a média causa sérios prejuízos, influenciando,
entre outras coisas: a capacidade produtiva através
dos períodos de secas ou de inundações,
a incidência de pragas ou doenças e até mesmo a época do plantio.
Seriam
os envolvidos neste setor, por força das circunstâncias, os guardiões do equilíbrio
ambiental do nosso planeta.
Entretanto
é sabido que a conduta social não é movida unicamente pela lógica, há necessidade de
leis que a eduquem e disciplinem
em prol da comunidade.
Desde
o tempo do Império, com o Patriarca da nossa Independência
José Bonifácio de Andrada e Silva, que se começou a cunhar leis ambientais com
vistas na economia e na geopolítica,
cujo “objetivo era preservar a madeira necessária nas proximidades das sedes das
fazendas e dos rios, para a construção
naval e civil e para consumo na forma de energia”, mais tarde com o destaque do
Desembargador Osny Duarte Pereira chega-se ao Código Florestal em
1965.
Hoje,
mesmo com as leis ambientais em vigor, a sua desobediência civil é um fato real devido à
leniência do nosso Estado em todas as suas representações
a nível federal, estadual e municipal e a grupos sociais
bastante organizados, que visam os seus interesses apoiados em
pressões políticas/partidárias que exercem, fazendo com que não
se cumpram as leis. Isto acontece
também pelo pouco esforço da sociedade em se envolver concretamente
no assunto, deixando a cargo das Ong’s a defesa dos seus interesses
existenciais.
Com
a criação dos Comitês de Bacias Hidrográficas, esperava-se que a situação fosse
modificada, pois estas bacias representam uma radiografia concreta do meio
ambiente em tempo real. Estes na sua constituição
envolviam um quorum composto por entidades governamentais e
da sociedade civil organizada, que juntos com gerentes das
Agências de Bacias decidiriam com a comunidade entre outros: o
uso e a ocupação do solo visando principalmente
à manutenção ou ampliação da quantidade d’água e a sua melhoria sob o ponto
de vista químico/físico e orgânico; a
manutenção
do balanço hídrico da bacia atualizado; a cobrança pelo uso dos recursos hídricos;
análise e emissão de pareceres sobre os projetos e as obras a
serem financiadas com recursos gerados
pela cobrança dos mesmos, encaminhando-os a instituição financeira
responsável pela sua administração.
A nosso ver a mais importante de todas as
decisões que poderiam ser tomadas seria a de propor ao Comitê de
Bacias Hidrográficas o enquadramento dos corpos d’águas segundo suas
classes de uso.
O
que seria a classe de uso de um corpo d’água?
Dentro de uma comparação primária seria
a mesma coisa do que o resultado de um exame de
sangue em um check-up. Neles estão presentes os indicadores da
qualidade da água que está sendo usada para fins industriais,
agronômicos, de abastecimento e dessendentação
ou de recreação. A maneira pela qual as atividades econômicas as
usam reflete diretamente na sua classificação,
quanto mais baixo numericamente falando esta for, melhor será a mesma.
O
ideal seria que todos os rios do nosso Estado fossem classificados
na classe 2 (dois) o que na realidade não ocorre. Mudanças
de classes demandariam políticas públicas e privadas que requerem grandes
comprometimentos políticos e governamentais, assim como aporte de capital
financeiro e humano e de tecnologia de última
geração, além de mudanças comportamentais de toda a sociedade. Em suma,
esses indicadores são sem sombra de dúvida, a
realidade mais concreta do manejo adequado
de todo o meio ambiente.
No
que se refere ao capital humano qualificado, existe um grande vazio na preparação
dos mesmos pelas Universidades, especialmente
naquelas ligadas ao agronegócio, onde ainda existem
entre os docentes os partidários dos “ruralistas” e dos “ambientalistas”,
prejudicando a visão holística e equilibrada que deveria
existir no meio acadêmico. Talvez uma maneira de corrigir este erro fosse a de se
instituir, assim como se faz na Medicina, com a obrigatoriedade da
residência, e no Direito, com os exames da ordem, fazer com que os
cursos principalmente o de Agronomia terminassem
com uma monografia de planejamento integral de uma microbacia
hidrográfica, onde todas as disciplinas lecionadas durante
o curso estivessem alinhadas em uma visão global, os fatores técnicos, econômicos
e sociais estivessem presentes associadas
com o manejo do meio ambiente.
O
manejo das microbacias hidrográficas seria a célula mater
também dos projetos extensionistas de Minas Gerais, logicamente
com aporte de capital e créditos compatíveis com a importância do mesmo,
corrigindo-se situações anteriores onde o nosso Estado, apesar de
ser um dos mais importantes na “produção de água” na região
leste, naquela época foi o que menos recebeu recursos do governo
federal.
Queiramos
ou não, todos nós vivemos em uma hidrobacia, seja na cidade ou no campo, e a
nossa sobrevivência com qualidade
de vida, a médio e longo prazo, dependerá do manejo que dela fizermos, estribados em
comportamentos de códigos legais que nos proporcione
segurança e tranquilidade no futuro.
As
propostas destes Comitês são amplas e ambiciosas e demandam,
como dissemos anteriormente, recursos humanos,materiais
e financeiros em grande quantidade para a sua execução.
Por
outro lado existe o viés democrático da participação e fiscalização das
comunidades, representadas atualmente nos seus comitês e subcomitês que dão
“um temível” certo controle social às decisões técnicas e
administrativas, fugindo em boa parte das pressões
espúrias e exógenas que possam vir a ocorrer. Porém a sua regulamentação
e a fonte dos recursos necessários para o seu eficaz funcionamento
não obtiveram a transparência midiática necessária.
Sem
que isto venha a ocorrer não só o agronegócio como também o nosso IDH (Índice de
Desenvolvimento Humano) estarão comprometidos
e não haverá leis presentes ou futuras que possam nos salvar.
Josué Serôa da Motta Sobrinho
Engenheiro Agrônomo Aposentado
Curso de Mestrado em Sociologia Rural
Contato :
josueseroa@planetarium.com.br