Música

 

A voz do samba


O talento de Tânia Malheiros

 

 

Por Romildo Guerrante*
Fotos Ricardo Poock

 

          

 

         No palco de luz tênue, que ainda há pouco, todo iluminado, havia sido sacudido pelo sax emocionante de Daniela Spielman, mal dá pra ver Tânia Malheiros em meio aos músicos que passam o som, embora colorida por um longo vermelho de alças. Mais um pouquinho e, agora sim, com os spots sobre ela, a ex-jornalista e Prêmio Esso de Reportagem abre seu show no Rio Scenarium, a casa mais linda da Lapa, Rio de Janeiro.

Foram sete anos de luta até que essa moça de Niterói conseguisse chegar ao templo do samba carioca. Chegou pelas mãos de Nadinho da Ilha, um desses muitos compositores de valor desconhecidos da maior parte da população. Ele levou Tânia pra dar um canja lá no Scenarium, e as portas se abriram. Como já tinham sido abertas todas as outras portas da Lapa e da periferia ao canto forte da moça. Mas faltava alguma coisa mais. Ela liquidou a fatura na semana passada.

Com a casa lotada pouco depois de 10 da noite, Tânia atacou de “Brasil Pandeiro”, do mestre Assis Valente, cria de Heitor dos Prazeres levado ao suicídio na década de 50 por uma montanha de dívidas: 

 

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor

Eu fui à Penha e pedi à padroeira para me ajudar

Salve o Morro do Vintém, pendura a saia que eu quero ver

Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar

 

Nem bem tinha finalizado essa estrofe, carregada com emoção pelo sete cordas de José Roberto Leão, seu produtor musical, e pela harmonia perfeita do grupo que a acompanhava, Tânia já lotara o amplo espaço de dança do Rio Scenarium, o casarão imenso de três andares na Rua do Lavradio, onde inicialmente o mineiro Plinio Fróes tocava uma loja de antigüidades que deu partida ao colosso de hoje.Tudo na Lapa renovada começou ali, há 10 anos, com reuniões aos sábados para ouvir chorinhos nos fundos da loja recheada de peças antigas para aluguel.

 

Enquanto Tânia desfilava um rosário de clássicos do samba, de Noel a Xangô da Mangueira, passando por Wilson Moreira, Nelson Cavaquinho e Cartola, o público se acotovelava para chegar mais perto do palco. No meio de tantos curiosos, inclusive a multidão de turistas estrangeiros que enche o Rio nesta época, um par de bailarinos de academia fazia esforço para abrir espaço e mostrar sua arte. Em vão. Daí a pouco os casais vão se formando, o samba come rasgado e não há como fazer no salão cheio de “amadores” os voleios e cabriolés exigidos aos discípulos de Carlinhos de Jesus e Jaime Arôxa.

 

Em três sets de uma hora cada, Tânia passou em revista o que de mais belo se fez neste país em matéria de samba. Foram mais de 50 músicas até que ela deixasse o palco, já no começo da madrugada.

 

Enquanto cantava, a casa lotada ou aplaudia ou se jogava pra sambar na pista encerada de tacos de madeira, piso perfeito pra quem gosta de escorregar na gafieira. E lá vem ela de novo, sambando com o sucesso de Xangô da Mangueira, sem tempo para fôlegos:

 

“Quando eu vim de Minas

Trouxe ouro em pó

(quando eu vim)

Quando eu vim de Minas

Trouxe ouro em pó..”

 

Xangô da Mangueira, 85 anos,  o mestre do partido alto, foi dos primeiros a acreditar em Tânia como revelação. Xangô sabia da história de vida da jornalista, filha de cavaquinista e embolada nas rodas de samba desde garota. E, há pouco mais de sete anos, começou a acompanhá-la nos shows, juntamente com Vó Maria, viúva do compositor Donga, autor do primeiro samba gravado no Brasil, em 1917. Todos são sobreviventes de uma estirpe de sambistas que deixou poucos herdeiros. Herdeiros de Nelson Cavaquinho, Cartola, Carlos Cachaça, Pixinguinha, Ismael Silva, Paulo da Portela e muitos mais.

 

 

 

Tânia, presa ao samba de raiz pelas ligações paternas, trouxe para junto de si os grandes contemporâneos de uma fase áurea do samba. E Xangô, acreditando na carreira da moça, acabou por convidá-la a participar do CD que lançou em 2006. O disco é primoroso, não fosse responsável por sua produção o gênio de Paulão Sete Cordas, um gigante – literalmente - da Portela que acompanha Zeca Pagodinho em todas as empreitadas.

 

Tânia agora se prepara para lançar o seu próprio CD, o primeiro da carreira que se anuncia gloriosa para essa moça simples que cultua o samba e viu com alegria brotar na Lapa o movimento para trazer de volta aquilo que aparentemente agonizava.

 

E lá vem ela de novo, agora com os versos de Nelson Sargento, 84 anos, parceiro de Cartola, Carlos Cachaça, Darcy da Mangueira, lançado por Beth Carvalho em 1978 como “um samba de resistência”: 

“Samba agoniza, mas não morre
Alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro...

A música era uma senha para saudar o ex-sargento do Exército, criado no Morro da Mangueira, que fazia 84 anos naquela madrugada. E logo nos primeiros versos Nelson Sargento, também um pintor primitivista de sucesso, entra no palco sob aplausos fortíssimos da platéia, que o trata com uma reverência comovente. 

O ex-integrante do conjunto a Voz do Morro, no qual cantava e tocava com os bambas Paulinho da Viola, Zé Kéti, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, José da Cruz e Anescarzinho, Nelson entra no dueto com Tânia Malheiros, trazendo junto consigo Vó Maria, 97 anos, que à boca do palco recebera uma braçada de flores. 

 

 

Condecorada pelo ministro Gilberto Gil com a Ordem do Mérito Cultural, lá vem Vó Maria, segunda mulher de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, entoando os versos do primeiro samba que se gravou no país, justamente de autoria de seu marido, em 1917, em parceria com Mauro de Almeida Versos mordazes e proibidos, que criticavam o envolvimento da polícia com os jogos de azar. Todo mundo canta em coro:

 

“O chefe da polícia
Pelo telefone
Manda me avisar
Que na Carioca
Tem uma roleta para se jogar... 

 

Pelo telefone, que hoje é verbete histórico do samba, nasceu nas rodas de samba da baiana Tia Ciata, na Praça Onze, freqüentadas por Sinhô, Pixinguinha e João da Baiana. Naquele tempo, tocar violão  era sinônimo de malandragem, e arriscava o sujeito ser preso e autuado por vadiagem. Mas foi ali que o jongo encontrou o lundu e os muitos outros banzos africanos que desembocaram no berço do choro e do samba. A casa da Tia Ciata não mais existe, virou garagem do metrô. Mas a música que lá se ouvia ainda se canta pelas ruas do Rio, e muito pela Lapa de hoje, graças a meia dúzia de resistentes defensores, como o próprio Nelson Sargento, que não assiste inerte à suposta agonia, antes alerta para as influências estranhas que tomaram conta dessa glória imaterial brasileira: 

 

Mudaram, toda sua estrutura
te impuseram outra cultura
e você nem percebeu"

 

Tânia viaja nessas músicas em busca das origens, um pouco na África, um pouco na Bahia e muito no território carioca que vai de Oswaldo Cruz ao Estácio. E, à medida que aumenta a temperatura na pista, onde a idade média dos que cantam não chega a 30 anos – valha-me a benção de todos os deuses -, a ex-jornalista condenada à carreira de cantora segue o roteiro e canta 50 das centenas de pérolas que conhece. 

Fecha em apoteose com “Yaô”, de Pixinguinha e Gastão Viana, em que o transe coletivo invoca todas as divindades e a proteção de Xangô, um saravá grandioso para os sambas imortais: 

 

“No terreiro de preto velho iaiá
Vamos saravá (a quem meu pai?)
Xangô!”

 

*Jornalista. E-mail: romildo.guerrante@gmail.com

Fonte : www.sergipe.com.br/balaiodenoticias