Sob a árvore de Natal

 

Luís Fernando Veríssimo

 


 
O ruído que vinha da sala era indefinido. Mas certamente o ruído de alguém fazendo o possível para não ser ouvido. O homem levantou-se da cama.
- Onde está o revólver?
- Sei lá - disse a mulher, da cama - Onde foi que você botou?
- Acho que está no armário da sala...
- Gênio.
O homem encaminhou-se para a porta do quarto. A mulher também saiu da cama.
- Fique aqui - ordenou o marido.
No corredor, o homem parou. Para se certificar de que o barulho na sala continuava - continuava - e para pensar no que fazer. O seu revólver estava na sala. O telefone, para chamar a polícia, estava na sala. Tudo que ele precisava estava mais perto do ladrão do que dele. Mas seria um ladrão? Um bicho. Podia ser um bicho. Algum inseto voador que entrara na sala mais cedo, atraído pela luz, e agora procurava a saída. O homem retomou sua caminhada, na ponta dos pés. Parou, pensando que era loucura entrar na sala sem uma arma. Sem nem um jornal enrolado, para o caso de ser mesmo um inseto. Nisso sentiu que alguma coisa se encostava nele por trás e de um grito.


- Aaaaah!

 

 

 


Era a mulher. Ficaram os dois abraçados, olhando, paralisados, para o fim do corredor, para a sala, de onde agora não vinha ruído nenhum. Quem quer que estivesse lá se espantara com o grito e fugira. Ou então vinha na direção deles...
Silêncio. Só o coração dos dois batendo. O homem pensando, e agora? A mulher pensando no filho dormindo no seu quarto, meu Deus, o Eduardinho!
- Eu tenho uma arma! - gritou o homem, surpreendendo-se com o som da própria voz, uma oitava acima do normal. - É melhor você dar o fora. Nós já telefonamos para a polícia. Daqui a minutos eles estão aqui. Dê o fora. Saia por onde você entrou e assim ninguém se machuca. Vamos!
O homem e a mulher esperaram um pouco. Depois dirigiram-se, lentamente, para a sala. E viram que havia presentes de todos os tamanhos, em embrulhos coloridos, espalhados sob a árvore de Natal. Presentes que não estavam ali quando eles tinham ido dormir.

- Hipótese número um - disse o homem - Era o Papai Noel.
- Ridículo.
Os dois estavam atirados no sofá, recuperando-se do susto.
- Hipótese número dois, é uma brincadeira.
- Mas de quem? Por quê?
- Sei lá.
- Vou abrir um dos pacotes.
- Cuidado.

 


A mulher abriu o pacote maior. Era um presente caríssimo. Um jogo eletrônico Justamente o que o Eduardinho pedira na carta para o Papai Noel. Os dois ficaram se olhando.
- Vamos examinar - sugeriu o homem - a hipótese número um.
- Você está doido! A hipótese número um é que o Papai Noel existe. E traz os presentes de Natal. Pelo menos trouxe para o Eduardinho. Deve ser algum tipo de promoção. Nós fomos sorteados. Ganhamos algum concurso sem saber.
- Mas por que entregar os prêmios no meio da noite? Secretamente? Isso seria a antipromoção. E como é que iam adivinhar o que o Eduardinho queria?
- Tem razão...
- Hipótese número um - insistiu o homem.

- Está bem. Papai Noel existe, e esteve aqui esta noite. Pense em tudo o que isso significa. Vamos ter que reformular todos os nossos conceitos. Principalmente você. Nem em Deus você acredita!
- Peralá. Eu nunca disse que não acreditava. Disse que era agnóstico.
- E toda a explicação que você deu para o Eduardinho quando ele escreveu a carta para o Papai Noel? Que não existia uma pessoa "Papai Noel". Que era um símbolo e coisa e tal. Agora vai dizer que existe, que esteve aqui e trouxe tudo o que ele pediu?
- A gente não precisa dizer nada.
- O quê?
- Não diz nada. Para todos os efeitos, esta noite não aconteceu.
- Mas aí também não é justo.
- Eu não posso voltar atrás e dizer pro Eduardinho que o Papai Noel existe, sim. O que ele vai pensar? Vai perder a confiança em mim, vai ficar confuso. Pode prejudicá-lo para o resto da vida. Vamos ter que gastar com psicanalista. Ou então, posso ver agora. Daqui a alguns anos, ele tentando nos convencer de que Papai Noel não existe. Nós dizendo "Ele existe sim, nós temos prova!" e ele pacientemente tentando explicar que não existe uma "pessoa" Papai Noel, que é tudo simbólico.

 


- Mas...
- Outra coisa. A notícia podia vazar. Pense no carnaval que a imprensa faria. "Milagre na rua tal. Família diz que recebeu visita do Papai Noel. Exame psiquiátrico confirma que casal não é doido". Das duas, uma: ou iam nos chamar de loucos ou iam fazer uma enorme badalação em cima. Com repercussão internacional. Pense só. Acabaria o nosso sossego. E mais! Nós estaríamos colaborando com essa onda de irracionalismo que assola o mundo. Dando força para superstições e mitos obscurantistas.
- Mas se ele existe mesmo, não é mito.
- Não interessa! Além de tudo, é um símbolo da cínica exploração capitalista dos sentimentos, para vender mais. Sem falar que também é um símbolo do colonialismo cultural. Não. Eu me recuso. Fica combinado. Não aconteceu nada, aqui, esta noite.
- E os presentes?
- Eu comprei. Aumenta meu prestígio com o Eduardinho.
- Olha ali!
- O quê?
- Pegadas de bota, e restos de neve no chão.
- Limpa! Limpa!


 

Um feliz Natal para todos!