DOSSIÊ DE TOMBAMENTO DA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

PREFEITURA MUNICIPAL DE ALVINÓPOLIS – MG

 

Desenvolvido de acordo com as normas do IEPHA-MG[1] para o período

de ação e preservação de 16 de abril de 2008 a 15 de abril de 2009

 

INFORME HISTÓRICO DO BEM CULTURAL

 

 

A origem da devoção a Nossa Senhora do Rosário remonta ao século XIII tendo se propagado através de São Domingos Gusmão para quem a virgem teria aparecido e entregado um rosário em 1208 na Igreja de Prouille, França. De acordo com Cota e Souza (2007: 1-5) há registros de que o Papa Pio V teria pressentido no ano de 1571 a vitória dos cristãos sobre os muçulmanos na Batalha de Muret, fato que veio a confirmar-se como verdadeiro implicando na construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora da Vitória. Em 1572, por ocasião de outra vitória cristã, desta vez na Batalha de Lepanto, o Papa instituiu a festa de Nossa Senhora da Vitória como uma celebração litúrgica para que pudesse ser comemorada todos os anos na data de aniversário do acontecimento, 7 de outubro. Em razão de naquele mesmo dia haver sido feita uma procissão do Rosário na Praça de São Pedro, em Roma, solicitando o sucesso da missão da Liga Santa contra os turcos otomanos no oeste da Europa, Nossa Senhora da Vitória foi então denominada Nossa Senhora do Rosário.

 

Fora assim, através de Pio V, que a devoção a Nossa Senhora do Rosário teria sido criada e propagada por toda a Europa (e posteriormente ao mundo) em uma época de lutas em que eram reincidentes os apelos da Igreja aos cristãos para que rezassem pela vitória da cristandade. De acordo com pesquisa realizada por João César das Neves[2] além de apelar às nações católicas para defesa da religião cristã o Papa teria estabelecido que o Santo Rosário fosse rezado diariamente por todos, como forma de pedir ajuda à mãe de Deus para a conquista da paz e da vitória. Tal desejo, concretizado com a queda de Constantinopla e o fim da Idade média efetivou a crença no poder de Nossa Senhora do Rosário quando finalmente, após anos de luta, a 7 de Outubro de 1571 a frota ocidental, comandada por D. João da Áustria (1545-1578), teve uma retumbante vitória na batalha naval de Lepanto, ao largo da Grécia, afirma o autor. Conta-se que nesse mesmo dia, em meio a uma reunião com os cardeais, o Papa levantou-se, abriu a janela e disse: “Interrompamos o nosso trabalho; a nossa grande tarefa neste momento é a de agradecer a Deus pela vitória que ele acabou de dar ao exército cristão”.

 

Conforme Sgarbossa e Giovannini (1983: 300), o rosário teria nascido do amor dos cristãos por Maria na época medieval, provavelmente no tempo das cruzadas à Terra Santa. O objeto de recitação desta oração, o terço, era confeccionado com pedrinhas e nos conventos medievais os irmãos leigos, dispensados da recitação do Saltério pela pouca familiaridade com o latim, completavam as suas práticas de piedade com a recitação repetida do Pai-nosso. Segundo os autores, haveria uma lenda pela qual Nossa Senhora, tendo aparecido a São Domingos, teria lhe indicado a recitação do Rosário como arma eficaz para debelar os hereges albigenses e, por esta razão, os principais promotores desta devoção teriam sido os dominicanos. A festa do Santíssimo Rosário, assim chamada antes da reforma do calendário católico em 1960, seria um resumo de todas as festas de Nossa Senhora dada a importância atribuída às orações dos fiéis à vitória conquistada pelos cristãos em Lepanto.

 

No Brasil, a devoção à santa e a criação das primeiras irmandades de Nossa Senhora do Rosário remetem ao século XVI quando teria se tornado a padroeira da cidade de Santos e, no século seguinte, atingira outras cidades como Itu, Parnaíba e Sorocaba, todas situadas no Estado de São Paulo. A partir do fim do período colonial, as irmandades do Rosário passaram então a ser constituídas pelos “homens pretos”, ou seja, passaram a vincular-se aos escravos que, sendo negros submetidos ao cativeiro e ao trabalho forçado, buscavam na imagem e nas orações o alívio para os

sofrimentos infligidos pelos brancos. Registra-se[3] que os escravos recolhiam as sementes de um capim cujas contas são grandes para confeccionar terços e rezar. Por esta razão, tais sementes foram chamadas “lágrimas de Nossa Senhora”. 

 

As seguintes datas e locais de fundação das Irmandades dos Homens Pretos podem ser apontadas: 1708 - São João del-Rei, Minas Gerais; 1711 - São Paulo1713Cachoeira do Campo e Sabará, Minas Gerais1715Ouro Preto, Minas Gerais; 1728Serro, Minas Gerais; 1754 - Viamão, Rio Grande do Sul; 1771 - Caicó, Rio Grande do Norte; 1773 - Mostardas, Rio Grande do Norte; 1774 - Rio Pardo, Rio Grande do Sul; 1782Paracatu, Minas Gerais. Todas elas foram criadas com o objetivo comum de abrigar o povo negro impedido de freqüentar as mesmas igrejas dos senhores.[4]

 

Em Alvinópolis, a devoção a Nossa Senhora do Rosário remonta à própria origem da cidade datada da transição entre os séculos XVII e XVIII. De acordo com estudo realizado por Cota e Souza (2007: 2) teria sido precisamente no ano de 1730 que os primeiros grupos de famílias, seduzidas pela visão panorâmica da região, pela amenidade do clima e pelas esplêndidas águas que banhavam o solo fértil e verdejante, instalaram-se no local. Um século mais tarde, por volta de 1830, em conseqüência disto, teria se formado um povoado bastante populoso e já carente de uma padroeira. Teria sido então, por iniciativa de um dos primeiros proprietários de terras da região que fora erigida a Capela de Nossa Senhora do Rosário, santa de devoção do senhor de nome Paulo Moreira.

 

Em 20 de julho de 1754, inaugurada a Capela, logo sua bênção foi providenciada e realizada por Frei Manoel da Cruz. De acordo com anotações do livro de tombo nº 3 da Arquidiocese de Mariana, páginas 1235 a 1236, o povoado de Paulo Moreira foi elevado a Paróquia setenta anos depois de seu movimento religioso inicial. A criação da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário se deu no dia 14 de julho de 1832, ocasião em que Dom Viçoso era Bispo de Mariana e era pároco em Alvinópolis o Padre Antônio de Abreu e Silva (COTA; SOUZA, 2007). Acredita-se que à esta época teria sido providenciada a primeira imagem de maior apuro técnico de Nossa Senhora do Rosário provavelmente por iniciativa de Paulo Moreira - desbravador da região que dificuldades havia enfrentado para ocupação do território dominado pelos índios botocudos, razão pela qual atribui-se sua devoção à santa – juntamente com o pároco e a comunidade locais.  

 

Não há documentos sobre a primeira imagem da Santa existente na cidade, porém, acredita-se que a primeira capela atribuída a Nossa Senhora do Rosário teria tido uma imagem mais tosca, produzida sem os recursos técnicos do século XIX. De acordo com informações fornecidas por Adão Máximo Trindade, a imagem de Nossa Senhora do Rosário entalhada em madeira maciça e policromada, atualmente guardada pela Igreja Matriz de mesmo nome, remonta à ocasião de instalação da Paróquia (1832). Embora não haja registros acerca de seu autor ou procedência, verifica-se através dos detalhes apurados e delicadeza do entalhe e policromia que tal peça pode ter sido produzida por artífices de Ouro Preto, uma vez que o antigo arraial era local de passagem de viajantes vindos de Mariana para outros municípios localizados nas proximidades de Alvinópolis conforme aponta Almeida (1992: 8), ou até mesmo artífices estrangeiros, fato corriqueiro na época.  

 

Neste sentido, a continuidade histórica de desenvolvimento do município demonstra que era comum a atuação de mestres vindos de regiões longínquas bem como a absorção de outras culturas, o que pode ser comprovado na segunda metade do século XIX quando o culto à Santa em questão assumira aspectos particulares na cidade de Alvinópolis ao ser erigida a Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Negros. Inaugurada em 08 de setembro de 1884 pelo padre José Marciano de Aguiar, seu altar fora decorado por célebre pintor da época denominado Dom Vicente, o que reforça a tese de atuação de artífices estrangeiros e regionais na confecção de elementos religiosos na cidade. Acerca deste assunto registra-se[5] que em 1900 a Capela teria sido ornada com pinturas de motivos fitomórficos e vistas do povoado nas paredes laterais e no Altar Mor executadas pelo pintor espanhol supracitado.  

 

Outro indício é a instalação em fins daquele mesmo século do Cemitério Senhor do Bonfim, também pelo Padre José Marciano de Aguiar, que o teria mandado construir nos moldes de outro existente em Nice, na França. Conforme Cota e Souza (2007: 3) o cemitério construído com a ajuda financeira de comerciantes e operários da cidade, fora edificado em forma circular ficando registrado na Ata de sua bênção a incumbência dos fiéis de cercá-lo com um muro de pedras. Porém, após visita do Padre a Nice decidiu-se cercá-lo com bambus, tal como teria sido realizado naquela cidade, revelando uma clara abertura à absorção de influências exteriores.

 

Segundo Almeida (1992: 20), Padre José Marciano de Aguiar fora um importante empreendedor nascido na cidade de Mariana por volta de 1860. Teria estudado no Seminário daquela cidade onde se formara, sendo ordenado Sacerdote e designado Vigário da freguesia de Paulo Moreira. Entre os anos de 1883 e 1884 teria sido o responsável pela construção da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e posteriormente do cemitério Senhor do Bonfim. Para este último porém, teria utilizado-se de mão de obra local mas também de muitos operários vindos de fora. Estes últimos advinham da cidade vizinha de Saúde e redondezas onde, à época (1899), haviam sido paralisadas as obras de instalação da estrada de ferro Leopoldina deixando muitos desempregados na cidade e gerando uma grave crise no comércio. Optou-se assim, pelo aproveitamento dos empregados e seu remanejamento para o arraial de Paulo Moreira para a construção do cemitério.

 

A pesquisa histórica realizada sobre a evolução do município aponta, portanto, para a possível confecção da Imagem de Nossa Senhora do Rosário por importante escultor da época, tanto pelas características que apresenta quanto pelas influências regionais e estrangeiras recebidas pelo município em suas principais obras de arte e arquitetura. Conforme informações orais fornecidas por Adão Máximo Trindade, até os primeiros anos do século XXI a imagem em questão podia ser vista no altar mor da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário de onde foi retirada em 2005 por motivos de segurança. Na ocasião foi substituída por Imagem de maior porte, semelhante apuro técnico, e também representativa da padroeira. Sua remoção e guarda na Casa Paroquial representou assim, uma iniciativa de preservação de sua integridade bem como um reconhecimento prévio de sua importância para a comunidade local.

 

Confeccionada em madeira maciça e composta de encaixes dotados de elementos em metal e gesso, a imagem encontra-se atualmente no interior de um andor em madeira e vidro onde permanece trancada e sempre sob os olhos atentos do sacristão e seu auxiliar. O acesso a ela se dá somente com a permissão do Pároco local, Padre Uildes Flávio de Assis, o único a possuir as chaves. Embora sejam escassos os documentos que comprovem a origem e autoria da Imagem de Nossa Senhora do Rosário verifica-se através do movimento inicial destinado à sua preservação, a importância simbólica atribuída a ela pela comunidade cristã da cidade de Alvinópolis e um verdadeiro desejo de preservação que se soma aos indícios de ter sido ela a segunda Imagem da padroeira adquirida pelo município. 

 

DESCRIÇÃO DETALHADA E ANÁLISE DO BEM

 

 

A Imagem de Nossa Senhora do Rosário apresenta características iconográficas referentes à maioria das invocações modernas da virgem Maria. Diferentemente das invocações mais antigas em que a virgem apresenta-se assentada tendo ao seu colo o Menino Jesus, a imagem em questão representa Nossa Senhora de pé com o Menino Jesus acomodado em seu braço esquerdo sobre um manto branco. Conserva, contudo, aspectos gerais referentes à representação de Nossa Senhora tais como as vestes longas cobertas por um manto que revestem até os pés o corpo da santa em contraste com a nudez do pequeno Jesus além da presença de querubins aos seus pés.

 

Confeccionada em madeira maciça e metal fundido apresentando 24 cm de largura por 65 cm de altura, a imagem compõe-se de 4 peças sendo duas delas confeccionadas em madeira e equivalentes a Nossa Senhora e ao menino Jesus que leva nos braços, e as outras duas correspondentes a uma coroa e uma auréola confeccionadas em metal  posicionadas sobre a cabeça da santa e do menino respectivamente. As peças são unidas através de encaixes e parafusos não havendo qualquer vestígio de elementos colados. Jesus (com 7cm de largura por 17 cm de altura) encaixa-se sobre parafuso em metal cravado sobre o braço esquerdo da santa. Sobre sua cabeça, através de um furo, a auréola encontra apoio para fixar-se. Já a coroa de Nossa Senhora, por sua proporção generosa (7 cm de largura por 12 cm de altura) e considerável peso, é presa ao centro da cabeça através de parafuso que se fixa à madeira.

 

De olhos azuis, traços faciais arredondados e queixo paralelo ao solo, Nossa Senhora demonstra firmeza no olhar aparentando fixar-se de modo confiante no horizonte. O nariz e a boca revelam traços não muito delicados com pinturas que extrapolam os limites determinados pelo entalhamento que podem ser resultantes de intervenções não registradas. Os cabelos, em tom castanho, são ondulados e envoltos em tecido branco com detalhes sinuosos na cor dourada que permitem sua visualização apenas na parte frontal da peça junto à face. Sobre a cabeça uma coroa em metal, dotada de detalhes curvilíneos e composta por quatro hastes que se encontram ao centro formando uma pequena base sobre a qual uma cruz latina é posicionada, se assenta.

 

No que se refere às vestes de Nossa Senhora verifica-se significativa riqueza de detalhes e policromia. A longa túnica que cobre todo o corpo da santa deixando os pés apenas parcialmente visíveis possui tonalidade de fundo na cor branca à qual se sobrepõem inúmeros elementos na cor dourada com nuances verdes e vermelhas. Estes possuem formas diversas e aparentemente livres de qualquer simbologia específica destinando-se tão somente à decoração da roupa. A túnica é ainda adornada por contorno dourado e liso que percorre toda a extremidade do tecido representado. O cuidado no entalhe e na pintura é revelado ainda pelo movimento impresso na confecção da túnica que apresenta ondulações que remetem ao caimento natural do tecido oferecendo leveza à peça maciça.

 

Sobre a túnica de Nossa Senhora, sobrepõe-se um manto trabalhado de modo semelhante à primeira parte das vestes em termos de técnica de escultura. As nuances de seu acabamento apresentam, contudo, tonalidades diversas que variam conforme a face interior ou exterior do tecido. Externamente verifica-se tonalidade de fundo predominantemente azul à qual são aplicados elementos em tons dourados remetentes a rosáceas e também pequenos frisos que cobrem todo o tecido. Na face interna, predomina a cor verde sobre a qual também são aplicados elementos dourados de formas livres no interior dos quais encontram-se pequenas flores na cor azul e amarelo.

 

Sob os pés da Imagem, encontram-se três querubins de proporções e características físicas semelhantes, porém, posicionados em direções distintas e com semblantes diferenciados. Todos possuem cabelos castanhos e ondulados semelhantes ao de Nossa Senhora, além de traços arredondados como os da virgem. Ao centro, sob o pé esquerdo da Imagem encontra-se o primeiro. De olhos fechados e cabeça ligeiramente inclinada para baixo este querubim revela um aspecto meditativo. Ao seu lado esquerdo encontra-se o segundo, dotado de traços semelhantes mas apresentando cabeça levemente inclinada para trás e olhos abertos na cor azul. Do lado oposto, o terceiro querubim. Este possui a cabeça consideravelmente inclinada para trás e olhos também abertos e azuis. Considerados seres alados como todos os anjos, os querubins representados diferenciam-se pelas asas pintadas em tonalidades diferentes sendo o central, azul, o situado à sua esquerda, rosa, e o terceiro, posicionado do lado oposto a este último, verde.

 

O menino Jesus que a virgem traz em seus braços possui características semelhantes à dela própria apresentando cabelos castanhos, pele clara e olhos azuis. Seu braço esquerdo apóia-se sobre o peito e o direito estende-se para frente mantendo-se ligeiramente curvado. A mão levada ao peito permanece inteiramente aberta e apoiada enquanto a mão estendida mantém os dedos curvados para dentro. A peça não possui vestes exceto o tecido branco com detalhes dourados semelhantes ao tecido que envolve a cabeça de Nossa Senhora e que encontra-se sobre o braço da virgem como que preparado para envolver a criança. Sobre a cabeça a auréola forjada em metal com detalhes florais e simétricos posicionados no interior de sua forma curvilínea completa a figura. Nesta frisos radiais remetem a raios de luz que emanam da cabeça do menino.

 

A imagem assenta-se sobre peanha composta por curvas caprichosas características das “rocailles” muito utilizadas na arte e arquitetura Barrocas. Estas, em forma espiral, adornam a parte posterior da peça e posicionam-se em sentido oposto aos querubins. A base, de formato retangular e recortado de modo arredondado apenas na parte frontal, possui dimensões de 20 cm de comprimento por 12 cm de largura. Seu acabamento é realizado em pintura na cor vermelha aplicada de modo uniforme em toda sua extensão oferecendo interessante contraste com a policromia do restante da peça.  

 

O Estado de conservação da Imagem de Nossa Senhora do Rosário é regular apresentando muitos descascamentos, perda de partes (como uma das extremidades da base e dois dedos da mão direita do menino Jesus) e desgaste pela ação do tempo além de sujidades generalizadas. Não há porém, registros de intervenções realizadas ao longo do tempo. Verifica-se apenas alguns elementos aparentemente acrescidos que apontam para a possibilidade dela ter passado por alguma tentativa de preservação, tais como a presença de massa plástica na coroa disposta sobre a cabeça da virgem Maria e a presença de perfurações pontuais sob a base.

 

PARECER TÉCNICO PARA O TOMBAMENTO DA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

 

 

As características simbólicas e iconográficas correspondentes à Imagem de Nossa Senhora do Rosário demonstram ser esta uma peça de grande valor histórico não apenas para a comunidade alvinopolense como também para a região onde se encontra e talvez para todo o Estado de Minas Gerais. Entalhada em madeira maciça policromada com esmero e composta de elementos fundidos em metal dotados de figuras fitomórficas de grande apuro técnico, a Imagem em questão revela não apenas a maestria de seu desconhecido artífice como constitui-se parte fundamental da história de um período de grande relevância para toda Minas Gerais. 

 

Mesmo que carente de registros que permitam atribuir a autoria da peça a um artífice específico, suas características iconográficas e seu surgimento em meio à independência e reorganização interna do país somada ao movimento Barroco que se desenvolvia tardiamente por todo o território mineiro com a determinação de aspectos escultóricos específicos tais como a presença de “rocailles” e querubins nas representações religiosas encontrados com clareza na Imagem, reforçam a importância de sua preservação. Além disso, informações orais apontam ter sido esta a segunda peça representativa da padroeira da cidade de Alvinópolis adquirida por ocasião da construção de sua Igreja Matriz em 1832, o que revela sua importância perpetuada ao longo do tempo pela comunidade local sendo preservada até a atualidade.  

 

A Imagem apresenta também características iconográficas referentes à maioria das invocações modernas da virgem Maria. Diferentemente das invocações mais antigas em que a virgem apresenta-se assentada tendo ao seu colo o Menino Jesus, a peça em questão representa Nossa Senhora de pé com o Menino Jesus acomodado em seu braço esquerdo sobre um manto branco. Conserva, porém, simultaneamente, aspectos gerais referentes à representação de Nossa Senhora tais como as vestes longas cobertas por um manto que juntos revestem até os pés o corpo da santa em contraste com a nudez do pequeno Jesus. Constitui-se assim como um elemento possivelmente de transição entre uma cultura conservadora e a chegada da modernidade no país muito bem representada pela arte encontrada em Minas Gerais à época, sobretudo, na região próxima à antiga Vila Rica como é o caso de Alvinópolis.

 

Por tais razões indica-se o Tombamento da Imagem de Nossa Senhora do Rosário de modo que tal reconhecimento legal possa se unir às iniciativas de conservação da peça que vem sendo tomadas pela comunidade local desde 2005 com sua retirada do altar-mor da Igreja Matriz e armazenamento em andor confeccionado em madeira e vidro localizado na Casa Paroquial onde, sob os olhos atentos do pároco local e de seus auxiliares, permanece guardada de luz excessiva, umidade e ataque de insetos além de eventuais furtos.

 

Belo Horizonte, 28 de janeiro de 2008.

 

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Érika Jorge Rodrigues da Cunha

Arquiteta Urbanista – CREA-MG 83330


 

 

 

FICHA TÉCNICA

 

Equipe responsável pela realização do dossiê:

ARO Arquitetos Associados Ltda

CREA MG 28.859

CNPJ 04.544.819/0001-70

Inscrição Municipal 167.155.001-0

Av. Portugal, 2.085/loja 14, Pampulha,

Belo Horizonte - MG, CEP 31.555-000

TeleFax (31) 3491.1118/9157.9071

e-mail aroarquitetos@aroarquitetos.com.br

 

Levantamento e elaboração

Érika Jorge Rodrigues Cunha

Arquiteta Urbanista

CREA-MG 83330

Revisão histórica

Letícia Martins

Historiadora

RG. M-6.081.185

Colaboração/Agradecimentos

Equipe Técnica da Prefeitura Municipal do município de Alvinópolis

Conselho Municipal do Patrimônio Cultural do município de Alvinópolis

Apoio

Ariádne Mendes

Estagiária

RG. M-9.243.721

Branca Perocco

Arquiteta Urbanista

CREA-MG 79.329

Jusyanna Souza

Arquiteta Urbanista

CREA-MG 87.387

Viviane Braga

Arquiteta Urbanista

CREA-MG 92.005

Orientação e revisão

Andrea Zerbetto

Arquiteta Urbanista

CREA-MG 69.616

Coordenação Geral

Rodrigo Torres

Arquiteto Urbanista

CREA-MG 75.598

 

 

Belo Horizonte, 28 de Janeiro de 2008.

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Érika Jorge Rodrigues da Cunha

Arquiteta Urbanista – CREA-MG 83330

Responsável pelo levantamento e a elaboração

 

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Letícia Martins

Historiadora

Responsável pela revisão histórica

 

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Andréa Zerbetto

Arquiteta Urbanista – CREA-MG 69.616

Responsável pela orientação e a revisão geral



[1] http://www.iepha.mg.gov.br/icms_patr_cultural.htm - Deliberação para Proteção e Modelos ICMS Patrimônio Cultural.

[4] Idem

[5] COTA, Cornélia Vasconcelos Figueiredo; SOUZA, Maria Aparecida. Festa de Nossa Senhora do Rosário. Monografia apresentada ao curso de História. Faculdade de Ciências Humanas do Vale do Piranga, 2007.