Cartas, diários e filmes românticos.

Vanderlei Lourenço

 

Coisas importantes costumam acontecer em dias aparentemente calmos e noites com ar de mistério. Algo como receber amigos, tomar um vinho ou até mesmo fundar uma Academia de Artes, Letras e Ciências, ou (e porque não?) tudo isso junto.  

A noite mais propícia: 06 de setembro.

Domingo sem pressa, véspera de feriado. Domingo chuvoso, digno das melhores histórias de assombração, mas, a assombrar, mesmo, apenas as (muitas) crateras espalhadas pelas ruas de nossa cidade. Após driblar cada uma, tarefa árdua que até um contorcionista teria dificuldade em realizar e depois de um longo papo com Dr. José Silvio, sobre nomes, benzetacil e imortalidade da alma (conversa das mais apropriadas para encerrar a noite), despeço-me de Alesandra, (assim mesmo, com um “S” apenas), artista plástica, amiga que a casa de Ana e Edmundo, transformada em templo das artes nessa noite de chuva, fez reencontrar. “Tem Orkut?” – Pergunto, antenado com os dias atuais. “- Não. Não tenho”.

E está aberto o caminho do diálogo que me faz recordar as baleias da música de Roberto, da qual seus netos perguntarão um dia. E ponho-me a observar: perguntarão, também, dos discos de vinil, da máquina de escrever e do mimeógrafo. Engraçado, observa Alesandra, fazendo uma viagem no tempo, antes pediam o endereço. Depois, o telefone, depois o e-mail. Hoje pedem o Orkut ou MSN. Engraçado, penso eu, enquanto faço minha viagem mental, antes eu cultivava o hábito de escrever cartas. E que alegria quando encontrava resposta na caixa de correios. Alegria apenas superada pelo prazer de ler, com pressa, palavra por palavra, pulsando o coração por lembrar que, por alguns instantes, alguém sentara e escolhera letras, palavras, frases inteiras e as dedicara a mim. E que depois, endereçara e selara o envelope, para buscar a agência dos correios e encaminhar. De minha parte, quando enviava uma carta mais importante, contava os dias para imaginar o destinatário do outro lado, bebendo cada uma das palavras cuidadosamente tecida num pedaço de papel.

 

Pois é. Já não se escrevem mais cartas. Hoje mandamos e-mail. E, às vezes com tanta pressa, que abreviamos palavras que sequer comportam abreviaturas. E, às vezes com tanta pressa, que a mensagem sai seca, sem o calor das letras carinhosamente desenhadas na folha, como fazia-se antes. Pena que, em poucos anos, venham nos perguntar sobre o ato de escrever uma carta, colocá-la nos correios e esperar até que ela seja entregue.

Pena, porque jamais poderemos traduzir o intraduzível: a sensação única de beber as palavras do amigo, do amante, do parente ou de quem quer que possa ter-se detido, instantes que fossem, a nos endereçar uma carta.

Daqui a pouco perguntarão. E eu, que não saberei traduzir, talvez me lembre de sugerir: procure uma locadora. Vá na prateleira dos filmes românticos e busque. Não tenha pressa, pois você pode deter-se em coisas muito interessantes. Filmes que a crítica classificaria como “uma bobagem”. Mas, nem sempre você deve confiar nos críticos. Lembre-se de Fernando Pessoa que disse que “cartas de amor são ridículas”, mas que não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. É ridículo para quem não sente. É ridículo para quem não viveu. Mas, costuma ser uma experiência única para as almas sensíveis. Então, faça isso: veja se entre esses filmes românticos, você encontra um em especial, que tem por título “A casa do lago”. E, ao encontrá-lo, leve para casa, coloque no seu DVD e acompanhe. Você irá se comover com um romance temporal que se passa com um casal que vive em épocas distintas. Ela, em 2006. Ele, em 2004. São dessas invenções que só a sétima arte pode proporcionar. E justificar. Mas advinha qual o laço que os une, que faz com que apaixonem-se? Ela mesma: a caixa dos correios, sempre trazendo uma carta que, antes mesmo que se saiba exatamente como é a figura por trás, cria o clima que só corações apaixonados podem criar.

Filmes românticos costumam ser previsíveis, censuram-me. Costumam. Mas, se você é daqueles que apreciam os filmes de arte, como tenho feito de uns anos para cá, ou os filmes antigos que nos contam as melhores histórias que o cinema é capaz de contar, não se detenha apenas neles. Seu coração descobrirá que entre histórias feitas para refletir, há histórias feitas para sonhar e nos fazer mais leves em tempos de abreviaturas secas, frias e diretas.

 

E, se depois de descobrir as sensações que as cartas são capazes de despertar, você sentir desejo de conhecer outras histórias igualmente criadas a partir delas, não se acanhe. Nem tenha vergonha de levar para casa, repetidamente, um filme romântico. Volte à prateleira. Isso. Volte à mesma prateleira de filmes românticos. E, mais uma vez, não tenha pressa. Você certamente irá se deparar com “O diário de uma paixão”. Não se assuste com o título. É que as cartas de amor não foram suficientes e formaram todo um diário, onde uma sensível história de amor foi contada. Assista de coração aberto. Ele lava a sua alma. E fará você sentir-se menos incomodado se em nenhum momento da sua vida tiver experimentado a sensação inigualável de receber uma carta de amor.

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Vanderhugo@yahoo.com.br

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