Fernando Meirelles, Saramago e “Ensaio sobre a cegueira”

 

Vanderlei Lourenço

 

 

 

Em meu primeiro artigo para o Alvinews, já havia manifestado meu desconforto com as adaptações de determinados livros de sucesso para as telas. Ressalvando-se honrosas exceções.

 

No ano passado, vários livros serviram de roteiro para enriquecer a sétima arte. A vantagem de se conhecer a história através da leitura é que o exercício de ler nos oferece oportunidade única de criar um mundo todo próprio para as personagens, de nos transportar para a história que está sendo contada e viver, ai, a emoção de ser co-criador do texto, na medida em que imaginamos rostos e cenários daquilo que está sendo contado. O cinema nos priva dessa prerrogativa, na medida em que apresenta a mesma história sob a ótica de outra pessoa. Ainda assim, alguns diretores conseguem a proeza de recontar o livro de forma que nos arrebata e prende a atenção do princípio ao fim.

 

Um que se dispôs a recontar uma história foi o brasileiro Fernando Meirelles, indicado ao Oscar por “Cidade de Deus”, filme premiadíssimo, que faz parte da lista dos melhores que já assisti e que abriu as portas de Hollywood para o seu diretor. Lá, ele dirigiu “O jardineiro fiel”, bem recebido pela crítica e, recentemente, “Ensaio sobre a cegueira (Blindness)”, do livro do escritor português José Saramago, festejado autor de obras como “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Memorial do convento”. Nessa obra, Saramago, que o crítico norte-americano Harold Bloom classificou como “o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje”, fala de uma epidemia de cegueira que começa, inexplicavelmente num sinal de trânsito, onde um homem se descobre, de repente, cego. O homem que se oferece para levá-lo em casa é o próximo a ficar cego, bem como sua esposa, o médico que o atende e, a partir daí, a epidemia se espalha. Todos vão ficando cegos, exceto a mulher do médico. Um manicômio é o lugar escolhido pelo poder público para isolar aquele grupo de pessoas, que só recebia notícias exteriores através do rádio de um deles. O número de cegos vai aumentando, o governo acaba, finda-se o trânsito...

 

José Saramago

 

O livro, em síntese, é uma crítica aos valores sociais e expõe o caos de quando se perde um dos sentidos  e que vai mostrar quem realmente somos. E a situação de caos em que passam a viver os personagens, suas aventuras sexuais, o pudor, agora inexistente, porque não pode ser visto, a imundície que vai se instalando.  

 

Essa primeira descrição é apenas uma pequena amostra do desafio colocado ao diretor Fernando Meirelles, em traduzir, nas telas dos cinemas, uma história em que os personagens não tem nome e nem passado. São “o primeiro cego”, “a mulher do primeiro cego”, “o médico”, “a mulher do médico e assim por diante. Vejamos um trecho do livro:

 

“Tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber quem somos, nem nos lembramos sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que iriam servir- nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhes foram postos, é pelo cheiro que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra raça de cães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto, feições, cor dos olhos, da pele, do cabelo, não conta, é como se não existisse, eu ainda vejo, mas até quando.”

 

 

Fernando Meirelles se sai muito bem em seu desafio de recontar uma história, por si só, difícil de ser contada. Com personagens sem nome, atingidos por uma cegueira branca como leite e um elenco de bons atores hollywoodianos, em meio ao qual encontramos Alice Braga, sobrinha da atriz Sônia Braga, que estreou no já mencionado “Cidade de Deus” e, recentemente contracenou com Will Smith no péssimo (em minha avaliação) filme “Eu sou  a lenda”. O próprio Saramago, que, até então nunca permitira a filmagem de uma obra sua, pois “não queria ver a cara dos seus personagens”, se declarou satisfeito com o resultado.

 

Acredito que o grande mérito do diretor, foi construir uma  narrativa autêntica. Não se prender à obra da qual ele se originou. Respeita o original, mas deixa escapar, por exemplo, o profundo pessimismo da obra de Saramago. Suaviza bastante os acontecimentos mais pesados do livro, uma necessidade, conforme o próprio Meirelles ressalta em seu blog, criado para registrar o dia a dia das filmagens. Vale a pena conferir:   www.blogdeblindness.blogspot.com

 

“Ensaio sobre a cegueira” foi rodado em três países: Uruguai ( casa do médico), Anhagabaú, em São Paulo (cidade arrasada) e Canadá (hospital de cegos abandonados). Todos formam a metrópole acometida pela cegueira. A trilha sonora ficou a cargo do grupo mineiro UAKTI, sobre o qual se manifestou Fernando Meirelles:

 

“Formam o Uakti: Paulinho, Arthur, Décio e o próprio Marco Antonio, que é violoncelista, mas nesse trabalho toca chori, gig, tampanário, únicordio, marimba de vidro com arco, entre outros instrumentos. Na trilha, ele só não pega no violoncelo. Sorte a minha. Não que eu não goste de violoncelo: adoro, mas é que a idéia de fazer a trilha com o Uakti foi justamente trabalhar com timbres desconhecidos, com o intuito de colocar o espectador num universo sonoro tão novo quanto o mundo da cegueira. Orquestra, quartetos de cordas, pianos ou violões, por serem muito usados no cinema, nos falam de emoções de um mundo mais conhecido, e neste filme a música deveria levar o espectador para outro lugar.”

 

Aliás, a trilha, realmente, é bastante coerente com a história e ajuda a destacar cenas como a do estupro. Mas, o destaque do filme é mesmo a atuação da atriz Julianne Moore, que faz a mulher do médico, a única que não fica cega. É a mulher que representa o amor incondicional. Aquela que cuida de forma desvelada do seu próximo. Que acompanha o marido ao manicômio, que ajuda desconhecidos a tomar banho, se vestir, comer, ir ao banheiro e uma série de outras atitudes que, se fossem aqui relatadas,  exporiam por demais a história do filme para quem ainda não assistiu, mas que nos permite chegar à velha conclusão clichê: é ele mesmo, o amor, o responsável por abrir os nossos olhos e nos conceder a dádiva de enxergar onde ninguém mais vê.

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Blindness
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 120 minutos
Ano de Lançamento (Brasil / Canadá / Japão): 2008
Site Oficial:
www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br

Estúdio: O2 Filmes / Rhombus Media / Bee Vine Pictures
Distribuição: 20th Century Fox Brasil / Miramax Films
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Don McKellar, baseado em livro de José Saramago
Produção: Andrea Barata Ribeiro, Niv Fichman e Sonoko Sakai
Música: Marco Antônio Guimarães
Fotografia: César Charlone
Desenho de Produção: Matthew Davies e Tulé Peake
Direção de Arte: Joshu de Cartier
Figurino: Renée April
Edição: Daniel Rezende


Elenco
Mark Ruffalo (Médico)
Julianne Moore (Esposa do médico)
Yusuke Iseya (Primeiro homem cego)
Yoshino Kimura (Esposa do primeiro homem cego)
Alice Braga (Garota com óculos escuros)
Don McKellar (Ladrão)
Maury Chaykin (Contador)
Danny Glover (Homem com venda preta no olho / Narrador)
Gael García Bernal (Rei de Ward 3)
Susan Coyne (Recepcionista)
Sandra Oh (Ministra da Saúde)
Billy Otis (Criminoso)
Joe Pingue (Motorista de táxi)
Douglas Silva (Pedestre)
César Brasil de Luna (Pedestre)
Alexandre Tigano (Pedestre)

 

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Vanderhugo@yahoo.com.br

Blog : http://www.vanderhugo.blogspot.com