CINEMA NACIONAL

PRIMEIRA PARTE

 

Vanderlei Lourenço

 

 

 

À época do lançamento do filme “Cidade do Deus” comentei que não parecia cinema nacional, tal a qualidade do filme e das interpretações. E, compulsivamente, fui assisti-lo três vezes, quase que seguidas, tal o impacto que me causou. Na verdade, isso só aconteceu por causa da resistência que sempre opus aos filmes brasileiros. Ainda criança, lembro de ver uma ou outra chamada de filmes baseados em obras de nossos grandes escritores, como Nélson Rodrigues ou Jorge Amado e os escritores do naturalismo. E parecia que não tinham nada mais a mostrar, além de carnaval e sexo, na maioria dos casos, explícitos. Cresci com um certo preconceito em relação a esse tipo de filme, mesmo sabendo que Nélson Rodrigues é “curto e grosso” ao expor em seus romances uma visão de extremo realismo acerca das relações humanas.

 

A resistência continuou,mesmo depois de ter assistido “Deus e o diabo na terra do sol”. Belíssimo filme do premiado cineasta  Glauber Rocha, com direito a Villa Lobos na trilha sonora (luxo para poucos). Trata-se de um filme que inverte tudo sobre o bem e o mal; onde o matador não aparece, na tela à nossa frente, carregando a face carrancuda de vilão. Um filme para ser visto, revisto, discutido e amainar preconceitos com o cinema brasileiro.

 

 

Mas, ainda não reduziria minha resistência. Mesmo que  Glauber Rocha  não tenha sido, assim, uma exceção: o Brasil teve Anselmo Duarte, em 1962, com “O pagador de promessas”, baseado na pérola literária de Dias Gomes, vencedor da “Palma de Ouro” do Festival de Cannes e de vários outros prêmios internacionais e um dos cinco finalistas ao Oscar de filme estrangeiro.  

 

Para quem não conhece a peça, “O pagador de promessas” narra a história de Zé do Burro, homem muito pobre do interior, que promete à Iansã carregar uma cruz até a igreja de Santa Bárbara, em Salvador, caso ela salve a vida do seu burro. Milagre conquistado, o Padre não o deixa entrar na igreja e a confusão está armada. Quando eu fiz parte de um grupo de jovens na igreja católica ensaiamos essa peça na escadaria da igreja e a gente dava gargalhadas o tempo todo. Mesmo decorando o texto, eu tinha acessos de risos com o texto. Uma forma engenhosa que o autor encontrou de falar das nossas mazelas. E, no filme, ainda encontramos as interpretações de rostos bastante conhecidos como os de Eva Wilma e Norma Bengell, que, atualmente está no ar, fazendo a “Dona Deise” do seriado “Toma lá dá cá”. Foi, ainda, o trabalho que revelou Antônio Pitanga, pai da atriz Camila Pitanga.

 

 

O cinema brasileiro careceu de credibilidade nos anos 70 e 80, com fitas apelativas e histórias mal contadas. Uma ou outra exceção pode ser computada como digna de alguma nota nesse período. E nem podemos culpar Hollywood, pois, nesse período, houve filmes muito bons produzidos em outros países, como, por exemplo, o italiano “Cinema Paradiso”, de 1988. Trata-se de um drama sobre o próprio cinema, história emocionante do menino Totó, que vive no interior da Itália durante a segunda guerra e aprende, com o projecionista Alfredo, a amar a sétima arte. É um daqueles filmes que muda o seu estado de espírito, deixando você mais leve ao final. E é mais um filme para ser visto, revisto...

 

Mas, e o nosso cinema? Afinal, hoje são inúmeras mostras de cinema brasileiro em diversas cidades do País e participações em mostras internacionais, com resultados dignos  das melhores “fábricas” de cinema. Pois é. A minha resistência começou a ser vencida a partir de 1997. É o ano que muitos apontam como aquele da retomada do cinema nacional. O responsável foi “O quatrilho”, filme de Fábio Barreto, baseado no livro homônimo de José Clemente Pozenato, ganhador de prêmios mundo afora e que levou o Brasil a voltar a sonhar com o Oscar de filme estrangeiro. Ainda não seria daquela vez, mas o nosso cinema voltou a contar uma boa história, nas interpretações premiadas de Glória Pires e Patrícia Pilar.

 

 

A partir daí, não parou mais. No ano seguinte, foi a vez de “O que é isso, companheiro?”, também adaptado de uma obra literária, dessa vez, um fato real acontecido durante a ditadura e narrado por Fernando Gabeira. Com Fernanda Torres, Pedro Cardoso e Cláudia Abreu no elenco, lá se foi o Brasil sonhar mais uma vez com um Oscar de filme estrangeiro.

 

E, a façanha de ser finalista da festa magna do cinema, que, até então acontecera uma única vez, em 1962, passou a ser normal. No ano seguinte, “Central do Brasil”, do cineasta Walter Salles, faria com que o sonho fosse mais longe: além de filme estrangeiro, o Brasil inteiro torceu por Fernanda Montenegro, uma das cinco finalistas ao Oscar de melhor atriz.

 

 

A essa altura, ainda que a premiação maior não tenha vindo, tornou-se impossível ignorar as nossas produções. O Brasil chegou lá. Uma sucessão de filmes bons e caprichados como “Terra Estrangeira”, também de Walter Salles, “Lavoura arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho e, um que me tocou de forma especial: “O céu de Suely”, de Karim Aïnouz. Emocionante história de uma mulher que tenta esquecer quem ela é. Achei curioso que o filme é embalado por uma música popular, de uma cantora chamada Diana, que fez muito sucesso na década de 70 e hoje faz parte de um extenso número de cantores batizados de “brega”. Quando fui alugar o filme, a dona da locadora me falou: presta atenção na trilha sonora. É linda...

 

 

Ia embora de vez o meu preconceito com os filmes nacionais e com a música brega, que, aliás, embalou meus dias de infância. Fizeram até uma campanha para descobrir o paradeiro da cantora que todos diziam desaparecida.

 

A prova de que o nosso cinema alcançou um alto padrão de qualidade pode ser atestada pelo fato de que, ao começar a discorrer sobre a produção brasileira atual, vamos notando muita coisa que precisa ser mencionada, indicada. Alguns dispensam comentários como o premiado “Cidade de Deus” que, aliás, acaba de ser incluído em uma lista de cem melhores na Inglaterra e já ficou em quarto lugar entre filmes não ingleses, de acordo com críticos norte americanos. Também pudera: levou o Brasil a concorrer a quatro (!) Oscars!

 

Continuarei a falar do cinema nacional no próximo mês.

 

P.S: enquanto escrevia, chegou a notícia da morte do cineasta Anselmo Duarte, mencionado nesse artigo. Fica o registro e a homenagem pela sua grande contribuição ao cinema.

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Vanderhugo@yahoo.com.br

Blog : http://www.vanderhugo.blogspot.com