CINEMA NACIONAL

PARTE 2

 

Vanderlei Lourenço

 

 

 

A história do cinema nacional, para ser contada, tem que ser dividida em fases. Dos primeiros filmes rodados em solo brasileiro, no finalzinho do século XIX, até a fase que os críticos classificam como de “renascimento” do cinema nacional, iniciada, para alguns, com “Carlota Joaquina, princesa do Brasil”, dirigido por Carla Camuratti, em 1995 e, para outros, a partir de “O quatrilho”, de 1997, que comentamos no artigo anterior. Foi um longo caminho de descobertas e experimentações. Houve o período dos primeiros filmes de ficção, a transição do cinema mudo para o cinema falado, o período das adaptações literárias, dos filmes regionais, a chanchada da década de 40 e o festejado cinema novo, que tem em Glauber Rocha o seu maior expoente, também comentado no artigo anterior.

 

Na década de 70, a chanchada acrescida de uma forte dose de erotismo, fez com que o nosso cinema fosse comparado ao gênero pornô. Foi o período que o cinema passou a revelar algumas atrizes que, posteriormente, ficaram famosas por seus papéis na TV e, muitas, passaram a esconder, nos seus currículos, a participação em filmes do gênero. Foi um período de realização de muitos filmes, graças ao incentivo que o governo militar propiciou à indústria cinematográfica, através da Embrafilme e da imposição de cotas obrigatórias de exibição de produções nacionais nos cinemas, o que potencializou o sucesso de filmes como “Dona Flor e seus dois maridos”, de Bruno Barreto, que obteve mais de onze milhões de expectadores, ou  “A dama do lotação”, de Neville de Almeida e “Lúcio Flávio – o passageiro da agonia”, de Hector Babenco. Outros sucessos do período foram “Eu te amo”, de Hector Babenco e “Xica da Silva”, de Cacá Diegues.

 

Assim é que, depois de um longo período de dificuldades, embora pontuado por algumas produções de qualidade, veio a década de 90 conferir credibilidade ao nosso catálogo de filmes. Depois que a Rede Globo resolveu entrar no mercado cinematográfico, através da produtora “Globo Filmes”, uma grande quantidade de filmes tem chegado ao mercado. Alguns muito ruins como “Tainá”, “Olga” e os filmes da apresentadora Xuxa e  muitos sucessos de bilheteria como “Dois filhos de Francisco” e “Se eu fosse você”, “Divã”, “O homem que copiava”, “Carandiru” e, entre outros, “Cidade de Deus”. Atualmente, estão lançando “Lula, o filho do Brasil”, que ainda não assisti e finalizando as filmagens da vida do médium Chico Xavier. Alguém duvida de que será um sucesso?

 

 

 

 

É curioso que os filmes mais marcantes de 2009, não façam parte do catálogo da Globo Filmes. Um deles é “O contador de histórias”, baseado em uma história real. Trata-se da vida do hoje pedagogo Roberto Carlos, um ex interno da Febem. É uma daquelas histórias edificantes que emocionam porque nos dá a oportunidade de acompanhar a vida de uma criança, desde os seis anos internada em uma instituição assistencial, que acumula a impressionante marca de 132 fugas, além de seguidas infrações, como roubo de carteiras, uso de cola de sapateiro e maconha. Conhecido como "Beto Pivete", foi considerado “irrecuperável” aos 13 anos. Até encontrar o amor de mãe, que vai modificar a sua vida. A francesa Marguerite Duvas veio visitar a Febem para realizar uma pesquisa. E lá encontrou o “irrecuperável” e analfabeto Roberto. Adotado, foi levado para a França, alfabetizado e voltou ao Brasil para ser um dos maiores contadores de histórias do mundo.

 

Roberto Carlos Ramos, mestre em educação pela Universidade de Campinas e 13 filhos adotivos é a prova cabal de que não existe cidadão irrecuperável. E a sua história é uma lição de vida que merece ser vista com o coração, já que, como disse Exupéry, “o essencial é invisível aos olhos.”

 

Curioso, também, observar que, nesse retomada do cinema nacional, os filmes de maior sucesso tem sido aqueles que retratam o atual momento que o País vive. São tempos de violência, focado em outro sucesso recente, “Tropa de Elite”. Esse foi um sucesso antes mesmo de estrear nos cinemas. Com milhares de cópias piratas circulando antes do seu lançamento oficial, o filme conta a história do Capitão Nascimento, membro do esquadrão BOPE, selecionado para as ações de combate às drogas no morro do Turano, no Rio, antes da visita do Papa.

 

 

O filme começa a ser realista pelo roteiro, cuja história já havia sido contada pelo Diretor José Padilha no documentário “Onibus 174”. E trata da corrupção na polícia. Aliás, a respeito das críticas que o filme sofreu por ser violento, não sendo, sequer, indicado a representar o Brasil na categoria “Filme estrangeiro” do Oscar, o diretor explicou que “havia um discurso da classe cinematográfica e da crítica de que este era um assunto esgotado. Mas nosso cinema só mostrava o ponto de vista do traficante, não falava da polícia. Não se consegue explicar a violência sem entender a polícia, que não é um detalhe, é um dos fatores mais importantes da questão. Então conversei com o Rodrigo Pimentel e, em 2004, começamos a escrever este filme.”

 

Segundo Padilha, o filme deveria ser o mais realista possível, mesmo que para isso tivesse que fugir do roteiro pré-estabelecido. E, assim, o sucesso foi construído. “Tropa de Elite” acumulou prêmios mundo afora, como o “Urso de ouro de melhor filme”, do Festival de Berlim. O último a conquistar tal façanha havia sido “Central do Brasil”, de Walter Salles Jr., em 1998.

 

Outro sucesso nacional, a bola da vez é “Salve Geral”, indicado para representar o Brasil no Oscar 2010. O filme trata de uma história real ocorrida em São Paulo em maio de 2006 quando, após transferir as principais lideranças do Primeiro Comando da Capital – PCC (tratado no filme por “o partido”), para um presídio de segurança máxima, no interior do Estado, esses líderes ordenaram o ataque a policiais, bombeiros e agências bancárias. O fio condutor desse enredo é o drama de uma professora de piano (personagem de Andréa Beltrão), viúva, que luta para educar o filho que, em conseqüência de uma sucessão de eventos,  torna-se assassino e vai parar na penitenciária. E é ai que a dor e o desespero da protagonista a leva a envolver-se com o crime organizado e a conseqüente paralisação da cidade de São Paulo, no já citado maio de 2006.

 

 

 

Andréa Beltrão é um dos pontos altos do filme, em sua interpretação que transmite emoção em cada cena . Outro ponto forte é a advogada Ruiva, interpretada por Denise Weinberg, um retrato da corrupção que abrange todas as classes do País. “Salve Geral” é um filme bom e interessante, com  trama bem desenvolvida. Mas, apesar disso e em função de algumas falhas que, na minha avaliação,  não chegam a comprometer a qualidade do filme, acho que estaremos, mais uma vez, ausentes da festa do Oscar.

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Email : Vanderhugo@yahoo.com.br

Blog : http://www.vanderhugo.blogspot.com