Apontamentos sobre a guerra

 

Vanderlei Lourenço

 

 

No princípio parecia improvável que “Avatar” deixasse de faturar os prêmios principais do Oscar 2010. O filme já nasceu com ares de vencedor: uma superprodução que consumiu espantosos 500 milhões de dólares e levou dez anos sendo gestado. Uma obra bem trabalhada pelo diretor James Cameron, que bateu o próprio recorde de bilheteria, que antes pertencia ao seu filme de 1997, Titanic. Rico em detalhes e visualmente belo, inovando com a tecnologia 3D, o filme foi talhado para ser coroado o melhor filme do ano. Mas, assim como acontecera no ano passado com outra superprodução, “O curioso caso de Benjamin Button”, “Avatar” acabou com ares de derrotado, apesar de levar as estatuetas de efeitos especiais, fotografia e direção de arte. E o grande vencedor foi, mais uma vez, uma produção de baixo orçamento, assim como “Quem quer ser milionário?”, produção vencedora em 2009.

 

Desta vez, o Oscar foi para “Guerra ao Terror”. Um filme que custou modestos (para os padrões hollywoodianos),  11 milhões. E rompeu barreiras em Hollywood. Pela primeira vez uma mulher foi eleita melhor diretora, Kathryn Bigelow (ex-mulher do diretor James Cameron!). E, pela primeira vez, a Academia premiou um filme de guerra na categoria principal.

 

No Brasil, “Guerra ao Terror” não passou pelas telas de cinema e foi lançado diretamente em DVD, tal a falta de expectativa de fracasso de bilheteria. Entretanto, o filme vinha de uma carreira de sucesso de crítica onde era apresentado. Para se ter idéia, em setembro de 2008, na sua pré estréia no festival de Veneza, foi aplaudido de pé durante 10 minutos! E arrebatou uma infinidade de prêmios a partir de então.

 

 

Confesso que filmes com essa temática são os que menos me atraem. Por isso, comecei a assisti-lo mais por curiosidade em função do seu sucesso e porque queria fazer a já tradicional resenha para o Alvinews, abordando os indicados na categoria principal do Oscar. Assisti, mas não comentei. E, confesso que não consegui entender porque, depois de diversas tentativas de elaborar um texto que a minha autocrítica permitisse encaminhar para publicação, acabei desistindo. O fato é que eu não encontrava palavras que pudessem descrever o impacto que as cenas me causaram. Não pensei que ocorresse a alguém, muito menos a uma mulher, filmar sobre aquele ângulo a história que todos já conhecemos dos conflitos do Afeganistão e da guerra no Iraque. Sobre o segundo, aqui vai um resumo:

 

Era 20 de março de 2003 quando o então presidente dos Estados Unidos, apoiado pelos governos da Espanha, Reino Unido, Itália, Polônia e Austrália, invadiram o Iraque. E qual a justificativa para que um país chamasse para si a responsabilidade de agir contra a soberania de um outro?

Formalmente, a suposta existência de armas de destruição em massa em poder do então ditador iraquiano, Saddam Hussein. Mas, como tais armas nunca foram encontradas, restou para nós a dificuldade de compreender porque tantos interesses materiais se sobrepuseram à soberania e à vida de um povo que foi bruscamente transformada, levando à destruição de um País.

 

Em minha avaliação, não há justificativas que possam conferir legitimidade ao ato praticado. É certo que estava-se diante de um ditador, mas, um homem que oferecia riscos, unicamente ao seu povo, que poderia, mais cedo ou mais tarde e, sobretudo com a contribuição daqueles que diziam querer ajudar, se rebelar e fazer um processo de transição para a democracia. Mas, sob o impacto dos ataques terroristas de setembro de 2001 que atingiram as Torres gêmeas do World Trade Center em Nova York e o Pentágono, em Washington, a população acabou por apoiar a iniciativa do Presidente Bush de “atacar o Iraque antes de serem atacados.” Esse enredo, bem como o saldo de cerca de 140.000 mortos iraquianos militares e civis é conhecido de todos, bem como os gastos que, em 2008 já passavam de 600 bilhões de dólares, com estimativas de passar dos dois trilhões de dólares até o final deste ano.

 

 

Foi desse pesadelo real que a diretora Kathryn Bigelow, na foto acima, tirou material para a pequena obra prima que produziu. E o que o torna tão interessante é não ter a pretensão de constituir-se em um drama sobre a guerra, mas uma denúncia das suas conseqüências. O filme não se preocupa em contar a história da guerra, mas é focado no dia a dia de um grupo de soldados americanos do esquadrão anti-bombas, responsável por desarmar bombas como objetivo de proteger, tanto os soldados americanos quanto a população iraquiana. Suspense em cada cena: cada dia dos personagens consiste em trabalhar para se manterem vivos.

 

“A guerra é um vício”, é a frase que abre o filme. Esse vício que preenche a vida dos soldados envolvidos, acaba ficando na mente de quem o assiste. Acho que o filme perturba tanto, talvez em função da ausência de esperança. Já conhecemos o final do conflito, que, infelizmente, ainda não está definitivamente resolvido. E, talvez em função dessas informações, já sabemos que não se pode esperar um final que revele algum alento. Aliás, o único sopro de leveza que surge no filme, na forma de uma criança que sobrevive da venda de DVDs e diz jogar tão bem quanto o Beckham, é logo dissipado pela crueza da realidade.

 

Por ser tão real, “Guerra ao Terror” chega a nos assombrar. Assombrou-me a ponto de só agora eu conseguir fazer uma breve resenha do filme. Portanto, recomendo com ressalvas: não assista como diversão. Espere cenas fortes. Chocantes. Espere adrenalina do começo ao fim. Porque a guerra não é algo para divertir (Saddam Hussein que o diga), mas é uma oportunidade de reflexão a respeito dos piores instintos que ainda tem lugar dentro de nós.

 

 

FICHA TÉCNICA

 

Guerra ao Terror – Oscar de: Melhor filme, Melhor Diretor, Roteiro Original, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som

Diretor: Kathryn Bigelow

Elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse, Evangeline Lilly.

Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal e Nicolas Chartier

Roteiro: Mark Boal

Fotografia: Barry Ackroyd

Trilha Sonora: Marco Beltrami, Buck Sanders

Duração: 131 min.

Ano: 2008

País: EUA

Gênero: Ação

Cor: Colorido

Distribuidora: Imagem Filmes

Estúdio: Kingsgate Films / Grosvenor Park Media / Firelight Media Inc.

Classificação: 14 anos

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Email : Vanderhugo@yahoo.com.br

Blog : http://www.vanderhugo.blogspot.com