HISTÓRIAS BEM CONTADAS

 

Vanderlei Lourenço

 

Alguns dias antes da entrega do Oscar já era possível prever alguns ganhadores, principalmente pelo barulho dos filmes em outros festivais, sobretudo no “Globo de Ouro”, que acaba sendo uma espécie de “prévia” da festa do Oscar. Com base na trajetória de alguns filmes era possível fazer um exercício de futurologia, como eu mesmo fiz aqui no Alvinews, em relação ao 5º filme do Batman: O cavaleiro das Trevas que, além do prêmio de ator coadjuvante, merecidíssimo, ninguém discute, levou, ainda, Oscar de edição de som.

 

Mas, o grande vencedor do Oscar 2009, foi o filme “Quem quer ser um milionário”. Concorreu com mais quatro filmes de peso: “O curioso caso de Benjamin Button”, a superprodução estrelada por Brad Pitt, indicado em treze categorias, “O leitor”, “Milk, a voz da Igualdade” e “Frost/Nixon”. Esses filmes são tão bons que preparei as resenhas abaixo sobre cada um deles. Nas próximas oportunidades, procurarei abordar outros dos filmes indicados ou vencedor em alguma categoria, cuja história tenha me tocado, como é o caso de “Dúvida”, em minha opinião, um dos melhores filmes de 2008.

 

 

Uma história de descobertas

 

 

Quando se começa a assistir “O leitor”, a primeira impressão é de que vamos assistir a um romance, com forte carga de erotismo entre Michael, um adolescente de quinze anos e uma mulher mais velha, Hanna. O nome, mais o fato de que ela trabalha como condutora de bonde é tudo o que ele sabe sobre ela. Uma mulher, aparentemente, rude, mas capaz de demonstrar ternura, sobretudo quando ele lê trechos de alguns livros que ela acompanha, avidamente, antes do sexo. Aliás, o sexo é a primeira descoberta de Michael no filme. A surpresa fica reservada para o desenrolar da história, quando vamos descobrindo quem é Hanna Schimitz, a personagem que rendeu à atriz Kate Winslet, finalmente, o seu primeiro Oscar de Melhor atriz, depois de concorrer outras cinco vezes, sem sucesso. E olha que esta é apenas uma das interpretações arrebatadoras, atualmente nas telas, dessa que é, hoje, uma das melhores atrizes de Hollywood, pois ela atua igualmente bem no filme “Foi apenas um sonho”, em que contracena com Leonardo Dicaprio, com quem protagonizou “Titanic”.

 

Além de ser “O leitor”, Michael será, em pouco tempo, um estudante de direito e é nessa condição que irá rever Hanna em um Tribunal, descobrindo, por trás daquela mulher brutalizada, mas capaz de uma sensualidade intensa, que é mostrada no início do filme, esconde-se uma das guardas da prisão do campo de concentração de Auschivitz, onde milhares de mulheres perderam a vida na segunda guerra mundial. Todas as semanas, ela e as demais acusadas escolhiam as mulheres que seriam executadas.

 

“O leitor” trata da culpa que Hanna não sente. Do horror que provoca pelas suas declarações no Tribunal e do drama das vítimas do holocausto. Um filme que merece ser acompanhado, sem um minuto de interrupção.

 

 

 

 

Uma história de esperança

 

 

Harvey Milk foi o primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público relevante nos Estados Unidos. Numa época em que o preconceito contra os homossexuais eram aceitos como regra, ele ousou desafiar as normas vigentes, indo viver com o namorado em São Francisco, onde se transformou em agente de mudança, lutando pelos direitos civis dos homossexuais.  “Milk – A voz da igualdade” é o filme que conta a história desse homem.

 

Há cenas tocantes no filme, como aquela em que Harvey recebe um telefonema de um paraplégico à porta do suicídio porque os pais o consideravam doente, em função da sua sexualidade. Esse mesmo personagem voltaria a ligar para agradecer o ativismo que o faz refletir e que transforma a sua vida, dando-lhe forças para viver.

 

O filme é uma luta incessante e intensa em favor dos direitos, não só dos homossexuais, mas da minoria; “permita que tirem os direitos de um só homem e você não terá ninguém para defendê-lo quando tirarem os seus direitos”. É, assim, um tributo à esperança de negros, idosos, deficientes, ou seja, todos aqueles sujeitos ao preconceito, pois “sem esperança, a vida não é digna.”

 

O trabalho impecável do ator Sean Penn, rendeu-lhe o Oscar de melhor ator e a reconstituição de um personagem histórico, deu a filme o prêmio de melhor roteiro original. Ambos merecidos, apesar de que, em minha bolsa de apostas, Mickey Rourke era favorito a melhor ator pelo seu trabalho espetacular em “O lutador”, filme que abordaremos oportunamente.

 

 

Uma história de escândalos

 

 

Frost/Nixon é um filme sobre a série de entrevistas do apresentador inglês David Frost e o ex-presidente norte americano Richard Nixon que protagonizou um dos episódios mais famosos da política americana: o Caso Watergate, que culminou com a sua renúncia à Casa Branca. O filme retrata o embate entre esses dois personagens, interpretados de forma impecável pelos atores Michael Sheen, que já havia interpretado Tony Blair no filme “A Rainha” e Frank Langella que, em outras oportunidades, já havia interpretado Richard Nixon e que foi indicado a Melhor ator pelo seu desempenho. O resultado, eu classifiquei de “fantástico”, seja pela tensão permanente que acompanha o desenrolar da história, seja pelos motivos que move o embate: de um lado, um jornalista que sonha voltar a fazer sucesso na América, pois, segundo ele, não há nada como ter sucesso em Nova York e, de outro, a angústia, a arrogância e a complexidade de um homem que acaba de ser despejado do topo da carreira política: a presidência, uma instituição que, nos Estados Unidos, é mais apreciada do que em qualquer outra parte do mundo.

 

O filme carrega o mérito de tratar de um assunto dos mais dissecados da história americana recente de uma maneira que prende a atenção. Fiquei pensando na crueldade do poder que reduz o homem a uma busca insana pela glória, por ser o centro das atenções, valendo, para isso, o uso de quaisquer artifícios. A pergunta que fica é: porque e para que?

 

Outra característica interessante é mostrar a complexidade do Presidente Nixon. E suas fragilidades, apesar da sua arrogância. Ao final das entrevistas o que se vê é um homem acabado, destruído por ter que admitir os erros que tanto se esforça por esconder.

 

Frost/Nixon não fazia sombra aos demais indicados na categoria de melhor filme na premiação do Oscar 2009, mas já entrou para a galeria de um dos melhores filme sobre política que já assisti.

 

 

Uma história sobre o tempo

 

 

Dizem que o tempo não existe. É apenas uma abstração criada para dar algum sentido à vida. Pois, em "O curioso caso de Benjamin Button", filme indicado em treze categorias e premiado em cinco, essa "abstração" foi elevada à condição de personagem principal de um filme. É ela quem dita o ritmo da história, onde um homem desafia as leis da física, nascendo velho para ir rejuvenescendo com o passar do tempo.

 

Eu admiro a fonte de criatividade humana. Há histórias que a gente lê e gostaria de ter escrito. Eu admiro F. Scott Fitzgerald, o autor do conto que serviu de inspiração para que fosse contada essa história que, no final das contas, a gente tem dificuldade em classificar. É uma história de amor? É uma história sobre encontros e desencontros, ou é, apenas, a história de um tempo passando inclemente, seja para frente ou, brincando conosco e fazendo o caminho inverso da literalidade à qual estamos acostumados?


Há algum tempo, em clip da música "Return to innocense", o grupo musical "Enigma" tratava desse tema, de uma forma muito bonita e sensível, com o tempo correndo ao contrário, a partir do momento da morte da personagem. Mas, á diferença é que, ali, a vida anda para trás, ao contrário, como naquele texto usado em um comercial da década de 90, se não me engano, para uma peça publicitária, onde Chico Anysio falava sobre nascer aos 80 anos e ir rejuvenescendo com o passar do tempo. Tudo redondinho. Poético e bonito.


O filme vem colocar as coisas em seu devido lugar. É que, no mundo real, as coisas são bonitas e poéticas a seu tempo e são, para nossa tristeza, finitas. E como o tempo é curto para aquilo que queremos perpetuar, como situações, momentos e pessoas especiais. Que o diga Benjamin, que, ainda na velhice, vai descobrir que a vida é uma colcha de retalhos, tecida de aprendizados, mas sobretudo, com a dor da perda. E que essa colcha é feita, sobretudo, daquilo que a gente não teve tempo ou oportunidade de fazer.


Mas a vida é feita, principalmente, de amigos. E, lá estão muitos amigos. Inclusive um capitão de navio, um dos elementos importados de outro filme igualmente tocante e sensível, "Forrest Gump - o contador de histórias". Mas o elemento principal é mesmo, o tempo: Benjamin nasceu ao fim da primeira guerra mundial, em circunstâncias "anormais", era um bom dia para nascer...

 

verdade é que, antes do seu nascimento, o tempo já havia se intrometido a personagem principal. Eis que, no princípio era o relógio. E essa raridade de relógio andava para trás, para que os jovens que haviam perdido suas vidas na guerra pudessem voltar para os campos de batalha e, dos campos de batalha, para casa...


não trouxe nenhum jovem de volta, mas influenciou decisivamente a vida do menino que nasceu idoso. O menino interpretado por Brad Pitt, cada vez mais jovem, graças a um trabalho de arte e a uma duração que, se por um lado parece ter deixado o filme meio longo, por outro, propiciou que as mudanças ocorressem na medida certa, para ficar mais convincente. Assim como é convincente a aceitação, por parte da mulher que ele amava, de que seria impossível continuarem juntos.


"O curioso caso de Benjamin Button" é uma prova de que o tempo é cruel. Mesmo quando procura-se inverter a sua lógica de funcionamento. O alento vem do fato de que, por mais que tente, ele não consegue superar o amor. Ainda que consiga separar, provisoriamente, as pessoas que se amam. E, parece vingar-se desse fato, quando assistimos, ao final, a inversão daquilo que ocorre no início: antes era Dayse (Kate Blanchett), criança, e Benjamin, idoso. Ao fim é Benjamin, criança e a sua amada, idosa, depois de terem vivido um grande romance.


De resto, o tempo é, realmente, o senhor da história, que só acaba depois que é trocado o relógio da estação, aquele que, no início da fábula, andava para trás.


A lição que fica é de que, sob qualquer ponto em que se analise a vida, o eclesiastes tem razão: há um tempo para todas as coisas debaixo do sol...


e, se é assim, melhor é que andemos sempre para frente. Nunca o contrário.

 

 

 

 

Uma história de amor

 

 

É muito bom acompanhar histórias de superação. É muito bom assistir injustiças que são corrigidas. Mas é melhor ainda quando tudo isso se junta para dar origem a uma boa história. E boas histórias têm conteúdo, tem romance e tem lição de vida. Em uma boa história os personagens têm garra, tem força, são testados até o limite. E tem, sobretudo, alegria de viver. Esse é o caso de “Quem quer ser milionário”, o filme que arrebatou a Academia de Ciências e Artes de Hollywood em 2009 e ganhou oito dos dez Oscars a que concorria.

Além dos prêmios principais melhor filme e direção, saiu atropelando os concorrentes e foi premiado por “fotografia”, “roteiro adaptado”, “mixagem de som”, “montagem”, “canção” e “trilha sonora original”. Um espanto, quando se leva em conta o baixo custo de produção e o fato de não haver, no filme, nenhuma estrela de Hollywood. Pelo contrário, meninos da periferia de Mumbai, na Índia, a exemplo do nosso “Cidade de Deus” que usou atores da favela de mesmo nome, no Rio de Janeiro e, só não foi indicado ao prêmio de “Melhor filme” em sua época, por ter sido considerado “violento demais”, argumento que não foi usado na edição atual do Oscar, talvez pelo fato de ter um diretor conhecido desde a década de 90.

 

“Quem quer ser milionário” é o título de um programa de auditório, que lembra o nosso antigo “Show do milhão”, onde o indiano Jamal Malik está concorrendo ao prêmio de 20 milhões de Rúpias. No início, você é informado de que ele está em 10 milhões e está a uma pergunta de levar o prêmio máximo. Mas, como ele conseguiu? Como um menino pobre, nascido na favela e sem estudos conseguiu acertar as respostas das perguntas que lhe foram feitas? Ele trapaceou? Ele é sortudo? Ele é um gênio? Ou está escrito? A resposta virá no final, porque, antes, você vai acompanhar a trajetória de Jamal, do seu irmão Salim e de Latika. E vai descobrir que as situações propostas no programa se confundem, todas, com a sua história de vida.

 

Ao longo do filme, ele vai se superando, perdendo muito e ganhando quase nada. Mas acumulando experiências que serão fundamentais para enfrentar o programa de auditório. O melhor de tudo, talvez seja a motivação para que ele participasse do programa. Porque, o filme, ao final, revela-se uma história de amor.O amor que faz o homem trafegar por caminhos jamais sonhados ou imaginados na vida. O amor que premia aquele que o sente verdadeiramente.

 

É esse amor que foi premiado pelo Oscar.

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Vanderhugo@yahoo.com.br

Blog : http://www.vanderhugo.blogspot.com