A TERRA DO NUNCA...

Vanderlei Lourenço 

 

Houve um menino que recusou-se a crescer. Peter Pan foi criado em 1911, na Escócia, pelo escritor J. M. Barrie e ilustrou, na vida real, a saga de uma vida triste e célebre, prematuramente interrompida, do ídolo da música pop, Michael Jackson.

Do menino talentoso, que cresceu sob o cerco da mídia e cuja morte devolveu a influência que já não desfrutava em vida, não é necessário ocupar aqui, já que páginas e mais páginas estão sendo escritas e ainda serão pelos próximos dias e semanas. Mas, o fato é que é impossível não evocá-lo quando nos voltamos para a magia da infância. Magia que, diga-se de passagem, vai sendo, aos poucos consumida e substituída por um amadurecimento cada vez mais precoce. Pena. Porque a mágica da infância, como todo o resto em nossa vida é apenas um momento e, por tudo o que representa, merecia ser  prolongado.

O mundo das artes tem sido o canal, um dos poucos, talvez, onde os sonhos e a magia continua irradiando a beleza dessa fase da nossa vida. Foi por isso que esse texto evocou, em sua primeira linha, Peter Pan que, primeiro foi livro (uma peça de teatro), depois filme (com diversas versões) e, além disso, serviu de base a muitos estudos que tentam explicar a nossa síndrome de querer permanecer eternamente criança.

Interessante é que, na vida real, Peter Pan, uma obra cujo tema é a eterna juventude ou a imortalidade,  nasceu de muito sofrimento na infância de seu autor. Aos sete anos, perdeu o irmão mais velho, que morreu ao patinar no gelo. A mãe nunca se recompôs.  Depois teve um casamento infeliz e de curta duração, antes de conhecer duas crianças de quatro e cinco anos, em um de seus passeios no parque, acompanhado de um cão São Bernardo.   Torna-se o companheiro preferido de brincadeiras das crianças e de seus outros três irmãos. E é dessa relação que vai surgir o personagem Peter Pan, um menino que voa e vive na fantástica “Terra do Nunca”, onde se é eternamente jovem.

O filme “Em busca da terra do nunca”, de 2004 procura resgatar um pouco dessa história. E o faz com a sensibilidade, a graça e a leveza que só a infância ou quem vive em sintonia com ela consegue fazer.  Crescer ou não crescer, eis a questão. Enfrentar a vida ou ser eternamente garoto, ou conciliar as duas coisas?

O filme não se preocupa em ser fiel à vida do escritor. Deixa de lado a sua vida complicada, o ciúme que a sua esposa sentia pela sua relação com a mãe das cinco crianças e, até mesmo, alguns boatos sobre uma suposta relação de pedofilia dele com as crianças.

Parece que a realidade vivida pelo criador de “Peter Pan” estava muito mais próxima da vida do astro Michael Jackson do que podemos imaginar. Sem contar que o romance  “The little White bird” , publicado em 1902 e narrado na primeira pessoa, contava sobre a ligação entre um rico solteiro e um garotinho.  Levando o garoto para passear em Kensigton Gardens, o narrador  lhe conta sobre Peter Pan, que podia ser encontrado nos jardins, à noite.

A vida sofrida de J. M. Barrie se cruza com a vida de Michael Jackson em diversos aspectos: infância sofrida, amizade com crianças e fixação na eterna juventude. E estreitam a convergência na genialidade de ambos.

“Em busca da terra do nunca” é, igualmente, genial. Quer seja pela interpretação soberba de Johnny Depp, quer seja pelo talento do jovem ator que interpretou “Peter Pan” e, ainda, pela qualidade dos diálogos e pela delicadeza do filme.

Concorreu em sete categorias do Oscar em 2005, ganhando a estatueta de melhor trilha sonora. Merece ser visto.

 

... E A MAGIA DO GELO

 

Falando em terra do nunca, estamos em julho, mês de férias, quando a indústria cinematográfica coloca no mercado os filmes que vão atrair um público específico: as crianças. Embora, nos dias de hoje, a maioria dos filmes lançados para esse público é garantia de diversão para toda a família. Exemplo é a trilogia “A ERA DO GELO”. O terceiro filme da série é, com certeza, o melhor deles. Mas, considero oportuno sugerir a quem ainda não viu, assistir os dois filmes anteriores, antes de acompanhar as novas aventuras do esquilo Scrat, na perseguição da sua preciosa noz, desta vez tendo que disputá-la com uma fêmea. O romance entre os dois estão entre as melhores seqüências do filme, sem contar as piadas divertidas e a trilha sonora.

“A era do gelo 3” é, sem dúvida, um filme que ressalta os valores familiares. O que era um bando de mamíferos nos filmes anteriores, transformou-se, agora em uma família. E, como qualquer família que se preze,  vamos encontrar amor, conflitos e momentos de emoção. Os mamutes Manny e Elly esperam seu primeiro filho. O papai, ansioso, acaba entrando em conflito com o tigre Sid que, em crise de identidade, acaba se afastando dos amigos e, querendo ter sua própria família, apossa-se de três ovos de dinossauros que, acreditava-se, estariam extintos. Quando a mãe dos filhotes vem reclamar seus filhos e acaba levando Sid junto, os amigos se unem para o resgate e, a partir daí, é uma seqüência deslumbrante de cenas, diálogos engraçados e tudo de mágico que o mundo da imaginação é capaz de proporcionar.

Duas coisas me chamam atenção em “A era do gelo”: a primeira é notar a tentativa bem sucedida, empreendida pelo diretor brasileiro Carlos Saldanha, de agradar a todos os públicos, o que o filme consegue com o seu humor irreverente e adulto, sem deixar a nuance infantil. A segunda é a constatação de que a animação vem ganhando cada vez mais espaço e, seja pela criatividade dos estúdios e produção, seja pela riqueza de detalhes e apuro que exibem, já não deixam nada a dever às grandes produções.

Somado aos demais lançamentos do período, as férias prometem...

 

Vanderlei Lourenço é alvinopolense, poeta e escritor.

Vanderhugo@yahoo.com.br

Blog : http://www.vanderhugo.blogspot.com