ALVINEWS - CINEMA

 

UMA BOA SAFRA

 

 

Pouca coisa me dá mais prazer do que assistir a um bom filme, ouvir boa música e ler um bom livro. É justamente o primeiro dos prazeres elencados que escolhi para falar nesse espaço que se pretende mensal, ou seja, possivelmente renovaremos essa conversa a cada período de trinta dias.

 

Havia escolhido, inicialmente, oferecer aos freqüentadores do Alvinews algumas dicas de filmes, dos mais diversos estilos, que pudessem proporcionar agradáveis momentos na aridez de nossos dias (puxa... fala poética!), entretanto, por sugestão do nosso amigo Juninho, nosso primeiro bate papo será sobre os principais ganhadores do OSCAR 2008. Note-se que, apesar de uma arrastada greve de roteiristas, responsável pelo cancelamento da cerimônia do Globo de Ouro, de debates entre presidenciáveis norte-americanos e episódios de algumas das séries mais assistidas ao redor do mundo, o ano passado ofereceu uma boa safra de filmes.

Os vencedores : Daniel Day-Lewis (Sangue Negro), Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor), Tilda Swinton (Conduta de Risco), Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez)

 

 

Conforme se pode verificar pela qualidade dos indicados ao Oscar e, principalmente, pela qualidade dos não indicados, caso de “O escafandro e a borboleta”, um belíssimo drama sobre um homem apaixonado pela vida que é vítima de um derrame cerebral e, quando recobra a lucidez, descobre-se com uma rara paralisia: o único movimento que lhe resta no corpo é o do olho esquerdo.

Não aceitando suas limitações, ele aprende a se comunicar piscando as letras do alfabeto e cria um mundo próprio, usando aquilo que não se paralisou: a imaginação e a memória. Como se vê, apenas o enredo já é capaz de dar água na boca. O filme concorreu nas categorias de melhor roteiro adaptado, vencida pelo não menos brilhante “Onde os fracos não têm vez”, fotografia, cujo ganhador foi outro excelente filme da safra: “Sangue negro” e montagem, que ficou com “O ultimato Bourne”, último filme da trilogia iniciada com “A identidade Bourne” e continuada em “A supremacia Bourne”, que faturou os prêmios técnicos das categorias em que concorreu.

 

Na categoria principal, o prêmio de melhor filme foi para “Onde os fracos não têm vez”, como já era previsto. O filme conquistou ainda o Oscar de direção (é natural que o mesmo filme seja o escolhido nas duas categorias, apesar de, eventualmente, a Academia premiar filmes diferentes nesse quesito, como ocorreu em 2006, quando o – excelente! – filme “Crash – no limite” venceu na categoria de filme, desbancando o favorito “O segredo de Brokeback Mountain, que ficou com o Oscar de direção”.).

 

Onde os Fracos não Têm Vez

No Country for Old Men
EUA, 2007 - 122 min
Policial / Faroeste

 

Segundo os analistas, “Onde os fracos não têm vez” foi o grande vencedor este ano. Curioso. Em 2003 o último filme da trilogia “O senhor dos anéis” obteve 11 estatuetas, tornando-se recordista do Oscar, ao lado de ”Ben Hur”, uma obra prima de 1959, do qual falaremos oportunamente, e “Titanic”, de 1996.

 

Hoje, um filme receber oito indicações, como ocorreu com “Onde os fracos não têm vez” e “Sangue negro” em 2008, já pode ser considerado um grande feito. Mais uma mostra da qualidade dos concorrentes. Mas, o fato é que os prêmios (quatro, ao todo: filme, direção, ator coadjuvante e roteiro adaptado) foram merecidos.  Trata-se de um filme com a estética de um faroeste, que passa pelo drama e pela comédia sarcástica. Não é um filme propriamente comercial, mas agrada muito a quem gosta realmente de cinema.

 

Também indicado em oito categorias, “Sangue negro” já é um filme mais difícil. É do mesmo diretor de “Magnólia”, Paul Thomas Anderson. Por ai se vê que não se pode esperar um filme convencional. Para se Ter uma idéia, os primeiros quinze minutos do filme não apresentam nenhum diálogo. São dedicados a apresentar o solitário trabalho desenvolvido pelo personagem principal, interpretado por Daniel Day Lewis (merecidíssimo Oscar de melhor ator). Ele é um mineiro explorador de prata que prefere realizar todo o seu trabalho sozinho, até o momento em que descobre petróleo e percebe que será necessário também explorar outras pessoas para crescer em sua empreitada e enriquecer cada vez mais. Rude e inescrupuloso, não hesita sequer em "adotar" uma criança, desde que ela seja útil aos seus objetivos gananciosos. O filme se passa na virada do século 19 e merece ser visto por quem gosta de assistir a uma boa história. Além de melhor ator, “Sangue Negro” faturou o Oscar (também merecidíssimo), de melhor fotografia.

 

 

Outro excelente filme que concorria a melhor filme é o drama épico “Desejo e Reparação”, adaptação fiel do best seller “Reparação”, de Ian McEwan. A trama tem início em 1935, quando uma adolescente se envolve com o filho da governanta. Essa história modifica o destino de todos os personagens e o filme passeia pelo tempo, mostrando os rumos do romance. Belas interpretações, trilha sonora vencedora do Oscar e diversos prêmios e elogios da crítica especializada. Um filme para ser visto, sem dúvida.

 

Ainda concorrendo a melhor filme, “Conduta de risco”, que procura abordar a forma como as grandes corporações podem prejudicar os cidadãos e cometer crimes de forma a não prejudicar os seus lucros. Estrelado por George Clooney, esse filme foi o responsável por uma  das poucas surpresas da noite de premiação, ganhando o Oscar de Melhor atriz coadjuvante, que foi para a atriz Tilda Swinton. É um filme difícil, denso e demora para que o espectador entenda o que está acontecendo... é preciso paciência e disposição. Aí, é só aproveitar...

 

Entre os indicados na categoria principal, deixei para falar por último da comédia independente “Juno”. Ela é uma adolescente que engravida do amigo e resolve ter o bebê e entregá-lo para que pessoas mais aptas possam cuidar dele, por saber que não tem condições emocionais para essa tarefa. Uma bela trilha sonora, produção barata para os padrões de Hollywood e um roteiro tão bom que não havia dúvidas de que seria vencedor nessa categoria. Um filme simples. Belo. Comovente. Na minha avaliação pessoal, merecia o Oscar de melhor filme.

 

 

Mencionei acima que “Conduta de risco” foi o responsável por uma das surpresas da premiação. A outra foi a vitória da francesa Marion Cotillard , que interpretou Edith Piaf no filme “Piaf – Um hino ao amor”. Emotivo e emocional, o filme andou provocando muitas lágrimas nos cinemas e faturou mais de US$ 10 milhões nos Estados Unidos, onde, geralmente, filmes legendados não costumam agradar. O filme retrata com extrema coerência a vida do ícone da canção francesa, passando pela sua infância pobre, suas andanças por cabarés e prostíbulos, a descoberta de um talento fantástico, a doença. Piaf teve uma vida muito atormentada e a fantástica interpretação de Marion Cotillard aproxima o espectador das tragédias vividas pela personagem. Linda e comovente história do que se pode fazer por aquilo que mais se ama, no seu caso, a música. Não foi indicado pela França na categoria de melhor filme estrangeiro (ia ser barbada!), mas levou duas estatuetas, sendo a segunda, a de maquiagem. É conferir para ver!

 

O Brasil ficou, mais uma vez, a ver navios. Alguns dizem que foi por não Ter indicado “Tropa de Elite” na categoria de filme estrangeiro, mas o fato é que o indicado “O Ano em que meus pais saíram de férias” é tão bom que ficou entre os nove finalistas da Academia. É preciso considerar, ainda, que essa categoria recebe filmes do mundo inteiro. Para o Oscar 2008 a Academia de Artes e ciências de Hollywood recebeu 63 produções para selecionar os cinco finalistas> Isso explica o fato de, geralmente, os filmes premiados nessa categoria serem excelentes. Esse ano, o prêmio foi para um filme da Áustria. Não posso fazer referências a ele, porque ainda está na minha lista para ser visto.

 

Reclinem as poltronas e... boa diversão!

Vanderlei Lourenço

Vanderhugo@yahoo.com.br

 

 

 

 Confira todos os ganhadores da 80ª edição do Oscar:

Melhor Filme
Onde os Fracos Não Têm Vez

Melhor Diretor
Ethan e Joel Coen (Onde os Fracos Não Têm Vez)

Melhor Ator
Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)

Melhor Atriz
Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Melhor Ator Coadjuvante
Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez)

Melhor Atriz Coadjuvante
Tilda Swinton (Conduta de Risco)

Melhor Roteiro Original
Diablo Cody (Juno)

Melhor Roteiro Adaptado
Joel e Ethan Coen (Onde os Fracos Não Têm Vez)

Melhor Animação
Ratatouille

Melhor Fotografia
Sangue Negro

Melhor Direção de Arte
Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Melhor Figurino
Elizabeth: A Era de Ouro

Melhor Som
O Ultimato Bourne

Melhor Efeitos Sonoros
O Ultimato Bourne

Melhor Montagem
O Ultimato Bourne

Melhor Efeitos Visuais
A Bússola de Ouro

Melhor Maquiagem
Piaf - Um Hino ao Amor

Melhor Filme Estrangeiro
The Counterfeiters (Áustria)

Melhor Trilha Sonora
Desejo e Reparação

Melhor Canção
Falling Slowly (Apenas Uma Vez), de Glen Hansard e Marketa Irglova

Melhor Curta-Metragem (animação)
Peter & the Wolf

Melhor Curta-Metragem
Le Mozart des Pickpockets (The Mozart of Pickpockets)

Melhor Curta-Metragem (documentário)
Freeheld

Melhor Documentário
Taxi to the Dark Side