UM POUCO DE LEVEZA EM TEMPOS BRUTAIS

 

                                                   “Lembre-se, George: nenhum homem é um fracasso quando tem amigos”.

 

 

Assisti pela oitava vez (é sério!) ao filme “A felicidade não se compra” antes de redigir o presente artigo. O motivo é simples: eu precisava estar com as imagens e algumas falas do filme ainda frescas na memória, para falar do filme que maior emoção me provoca. E, precisava revê-lo justamente neste momento em que a imprensa e a população brasileira, de um modo geral, encontram-se envolvidas nas controvérsias e na comoção causada pelo assassinato da menina Isabella, de seis anos, ocorrida em São Paulo. Não se fala de outra coisa. E foi pensando justamente no infindável debate acerca do caso e da discutida maldade que permeia a mente do ser humano que fui buscar esse clássico do Diretor Frank Capra (1897 – 1991), um dos maiores cineastas de todos os tempos. Porque, ao contrário dos que pregam que o homem é mau por natureza, ele utilizou os seus filmes para afirmar o contrário: sua crença na bondade intrínseca do ser humano.

 

Para conirmar a assertiva acima, é bom conferir a filmografia de Capra. São filmes que combinam comédia e drama, o bom caráter do homem comum prevalecendo sobre a corrupção e a maldade. Filmes necessários para dar leveza nesses tempos de insegurança e brutalidade. Necessários para reavivar em nós os sentimentos de solidariedade, de compaixão e de benevolência para com o nosso próximo.

 

“A felicidade não se compra” é o meu filme número 1. O que mais assisti até hoje. E, também, o que mais me emocionou. É uma belíssima história que recomendo a todas as pessoas. Tem o condão de nos fazer refletir, de nos fazer sorrir e de nos fazer chorar. Produzido por uma empresa independente, que faliu após o seu grande fracasso, o filme caiu em domínio público em 1974 e foi exibido diversas vezes pela TV norte americana, especialmente na época do natal, em função de sua mensagem. Acabou se transformando em clássico.

 

Trata-se de uma fábula, com uma mensagem que todo mundo vai entender: “qualquer um, por mais insignificante que seja, faz falta no mundo”.

 

O anjo Clarence, que abre o filme, incompetente e bonzinho, é o responsável por uma frase que ficou famosa: “toda vez que toca um sino, é sinal de que um anjo ganhou suas asas.” James Stewart (1908 – 1997), um dos grandes atores de Hollywood faz o personagem principal, vive na pequena Bedford Falls, de onde sonha sair para viajar pelo mundo, mas acaba ficando por ali mesmo, já que sempre se sacrifica pelos outros. Acaba se casando com a melhor moça da cidade (papel da atriz Donna Reed) e seguindo o exemplo de seu pai, sendo um homem que empresta dinheiro e continua honesto e justo, o que provoca a ira do homem mais poderoso da cidade (personagem de Lionel Barrymore, que era paraplégico também na vida real e avô da atriz Drew Barrymore) que, não conseguindo comprá-lo, tenta destruí-lo. É ai que ele pensa em se matar, mas o anjo Clarence lhe mostra o que seria da cidade e das pessoas sem a sua presença. É ai que está a grande mensagem do filme: o lugar e a importância de cada um, para fazer girar o mundo. Quando ele precisa, seus amigos estão ali para ajudá-lo, porque “nenhum homem é um fracasso quando tem amigos”. Este, o mote da história. Bonita e diferente do mundo real como só as fábulas sabem ser. Talvez por isso nos emocione tanto. Talvez por isso, nos faça chorar...

 

 

Outros filmes de Frank Capra

 

“Horizonte Perdido”

 

 Estava ouvindo, recentemente, uma música do cantor e compositor Jessé (sucesso da década de 80, já falecido) com o título de “Um lugar (Shangri-Lá)” e fiz imediata associação com uma outra, da cantora Rita Lee, que diz assim: “mas, se me der na telha, sou capaz de enlouquecer e mandar tudo para aquele lugar e fugir com você pra Shangri-lá)... e, assim, quem ainda não teve a oportunidade de conhecer essa obra-prima que é o filme “Horizonte Perdido”, deve se perguntar que lugar é esse que está na letra de músicas e frases de livros. Pois bem: Shangri-Lá é uma invenção do escritor inglês James Hilton. Seu livro narra a aventura de quatro pessoas que, ao escaparem de uma revolta em terras indianas, descobrem que o avião que deveria levá-los à Inglaterra, na verdade está transportando-os a um lugar desconhecido. O vôo termina nas montanhas geladas do Tibet, onde, após o pouso, o piloto morre e os quatro companheiros são deixados para tentar sobreviver e retornar à civilização. É ai que aparece o personagem misterioso que os convida a visitar um monastério na região. É lá que vão conhecer a idílica Shangri-Lá, um vale onde irão se deparar com coisas espantosas. Um lugar mágico, de paz, juventude e felicidade eternas.

 

Esse filme, grande produção na época em que foi produzido, tem uma característica que considero interessante: uma adaptação de livro que deu certo. Vou citar dois exemplos de adaptações de romances  excepcionais que me decepcionaram. Primeiro, do livro “O retrato de Dorian Gray”, obra-prima de Oscar Wilde, filmado em 1945, que, até pelos escassos recursos do cinema de então, não consegue passar aquela carga emocional que perpassa as páginas do livro. E, recentemente, a superprodução “O Código Da Vinci”, que nem mesmo a presença do astro Tom Hanks (na minha opinião,  inadequado para o papel) e a direção do premiado Ron Howard (Oscar de Melhor Diretor por “Uma mente brilhante”) conseguiram salvar.

 

Nesses casos, a  experiência me aconselha a preferir os livros. “Horizonte Perdido” é uma grata, bela e sensível exceção.  

 

 

“Dama por um dia”

 

Comédia que conta com uma das atrizes de que mais gosto, Bette Davis, no papel de uma simpática vendedora de rua que percorre a região da Broadway todos os dias com seu cesto de maçãs. Há anos ela se corresponde com a filha, por quem faz de tudo para proporcionar uma boa educação e que mora em Barcelona, usando o endereço de um hotel de luxo, como se ali residisse. Seu drama começa ao saber que sua filha Louise, virá visitá-la, acompanhada do noivo rico. O problema é que a filha pensa que a mãe é uma dama da alta sociedade e, sem saber o que fazer, Annie entra em depressão, deixando de vender suas maçãs. Acontece que seu principal cliente é um “bem sucedido” traficante de bebidas supersticioso, que não fecha nenhum negócio se não estiver com uma das maçãs de Annie e entra em pânico, achando que a sorte irá abandoná-lo. É aí que resolve ajudar a amiga, instalando-a numa suite do hotel e contratando uma equipe especializada em figurino, maquiagem e boas maneiras, para transformá-la em uma dama, além de arrumarem uma pessoa para se passar por seu marido, já que, nas cartas, ela dizia à filha que havia se casado. Mesmo com todo o ensaio, imprevistos começam a acontecer... está armada a confusão nessa comédia, que é um conto de fadas, combinando drama e romance.

 

O interessante é que Bette Davis é famosa pelo filme “A malvada”, onde pensamos que ela é a malvada do título brasileiro (um equívoco, já que o original é “All about Eve”, ou “Tudo sobre Eve”). É famosa por Ter representado diversas vilãs no cinema.  Esse filme é uma das oportunidades de analisar o seu talento na interpretação de uma personagem diferente. É um daqueles filmes em que faz a gente torcer e dar gargalhadas sem parar...

 

 

“A mulher faz o homem”

 

A única coisa de que não gosto aqui é, mais uma vez, o título em português. O título original é “Mr. Smith Goes to Washington” e é mais adequado a esse drama político, onde James Stewart tem uma das suas melhores interpretações como um chefe de escoteiros que se torna senador, indicado por um governador e seu séquito de corruptos e que enfrenta os outros senadores e o poder da mídia quando resolve levar adiante um projeto que contraria interesses de um magnata de quem o governador que o indicou para o senado é uma marionete. O filme tem o mérito de inspirar a ideologia e a crença na democracia, apesar das mazelas que a maioria dos homens é capaz de impor ao processo político. Sou suspeito para comentar filmes com temática política, passemos adiante.

 

 

“Do mundo nada se leva”

 

Mais um filme do diretor que, à primeira vista, pode parecer ingênuo para os dias de hoje. Por isso ele é tão bom... é a história de um playboy rico, que trabalha na empresa do pai e que se apaixona pela secretária humilde. Quando as duas famílias se encontram, fica nítido o contraste. De um lado, a arrogância da família do noivo. De outro lado, a família da noiva, simples, despreocupada, feliz. Tem o vovô, que representa a experiência e a sabedoria. A mãe, que escreve peças numa máquina de escrever que recebeu por engano. A irmã, que sonha em ser bailarina e fica dançando pela casa o tempo todo. O pai, que fabrica fogos de artifício no porão, além de outros personagens muito bem humorados. Por um mal entendido, todos vão parar na prisão.

 

O filme recebeu Oscar de melhor filme e direção e o diretor Frank Capra, dá mais uma lição de leveza, alto astral e pensamento positivo e ainda deixa a mensagem de que devemos aproveitar todos os momentos para “curtir” a vida aqui, visto que “do mundo nada se leva”.

 

Quando assistir a filmes desse magistral diretor, mande uma carta, um e-mail, um comentário para mim. Eu gostaria de saber se você que está lendo compartilha da opinião de que, em meio a tanta brutalidade, a esperança ainda tem morada no coração das pessoas.

 

 

Vanderlei Lourenço

Vanderhugo@yahoo.com.br

 

*Obs:

1. Na minha página no orkut há outras recomendações de filmes. É possível acessá-la através do e-mail acima).

 

2. Os filmes aqui mencionados são antigos, portanto, não muito fáceis de se encontrar para locação. Em Belo Horizonte, a Digital DVD (Rua Tupis, 38 – Centro) é especializada em filmes antigos e clássicos. Se alguém se interessar, dê uma passada lá. É só falar com a Lorena ou Thais, que são proprietárias.

 

Filmografia pesquisada:

 

1961 - Dama Por Um Dia (Pocketful Of Miracles)

1946 - A Felicidade Não Se Compra (It`S A Wonderful Life)

1944 - A Batalha Da China (The Battle Of China)

1942 - Prelúdio De Uma Guerra (Prelude To War)

1941 - Meu Adorável Vagabundo (Meet John Doe)

1939 – A mulher faz o homem (Mr. Smith Goes to Washington)

1938 - Do Mundo Nada Se Leva (You Can`T Take It With You)

1937 - Horizonte Perdido (Lost Horizon)

1936 - O Galante Mr. Deeds (Mr. Deeds Goes To Town)

1934 - Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night )

1934 - A Vitoria Será Tua (Broadway Bill)

1932 - O Último Chá Do General Yen, (The Bitter Tea Of General Yen)

1932 - Loucura Americana (American Madness)

1926 - O Homem Forte (The Strong Man)

 

 

Texto escrito com base nos filmes citados, em pesquisa no site www.moviecom.com.br e no livro “Os cem melhores filmes do século 20”, de Rubens Ewald Filho.

 

Filmografia no site: www.cineminha.uol.com.br