FIGURAS "FOLCLÓRICAS" DE ALVINÓPOLIS

Por Zózimo Drumond

 

 

Mundão




         Quando escrevi o título, coloquei a palavra folclórica entre aspas pois não estou muito convencido se é correto usar este termo referindo-se a pessoas. No entanto,  quando morava em Alvinópolis, pude ouvir esta expressão, várias vezes. As pessoas citavam os nossos conterrâneos saudosos : Guilherme, Zé Cotoco, Maria Caraquinha, Sá Rosa da Perna de Pau, Sá Júlia Bana-rabo, Menino Pequitito Dobrado, Sô Barbosa, Dudu e muitas outras, pessoas estas que faziam parte de um acervo que, por falta de registros, vão cair no esquecimento. É uma pena pois eram pessoas que fizeram parte de uma geração, cada um tinha sua característica, e fizeram parte de uma história que não terá seu registro e, numa próxima geração, não serão mais lembrados.
            Espero, com esta minha iniciativa,  "balançar" conterrâneos que foram da época, sabem e gostam de escrever, ensejando assim, quem sabe, o aparecimento de registros que possam eternizar nossa história, pelo menos em alguns tópicos.
             Para não ficar só na crítica e sugestão, vou tentar, nesta oportunidade, aflorar casos de um nosso conterrâneo,  muito conhecido no nosso meio, muito engraçado com seus casos :  o Mundão.
              Mundão decidiu, já há muitas décadas, que iria se sustentar e à sua família, como proprietário de bar. Pessoa muito conhecida e de muitas amizades, não teve dificuldade na manutenção do seu intento. Foi desenvolvendo a sua atividade em imóveis alugados, até que, graças a muita economia e esforço conseguiu construir  um imóvel onde funciona o seu bar, com adaptação, na parte superior, para a sua residência. Ponto muito central,  local onde é quase obrigatória a passagem das pessoas para se locomoverem na cidade. Em épocas de concentração  como carnaval, natal,  feriadões, etc., as reuniões ali, entre conterrâneos é muito grande, ocasião em que sempre tomamos conhecimentos dos "casos do Mundão"  

Vou citar alguns.

Carnaval no Mundão



1)  - CONSUMO OBRIGATÓRIO:   Uma das coisa que mais irritam o Mundão é chegar alguém em seu bar e,  após passado algum tempo, não ter consumido nada. Certa vez chegou um grupo de jovens, juntaram duas mesas com as respectivas cadeiras e dispararam a conversar. Mundão aproximou-se e perguntou: 
    -  vão querer alguma coisa ?

    -  o senhor poderia trazer um copo de água para cada um de nós ?
Não é necessário falar da irritação causada. E os jovens continuaram horas ali, sem nada consumir. Quando o Mundão viu que não tinha jeito mesmo, chegou e disse naquele vozeirão dele:
    - encerrem esta reunião de " alcóolatras anônimos" aí, peçam alguma coisa ou vão parar noutra freguesia.

2)   - Em hipótese alguma o Mundão deixa alguém, dentro do seu bar, comer amendoim. Um dia eu perguntei a razão e ele, prontamente, respondeu :

 - algum dia você já varreu pele de amendoim?  Você passa a vassoura e ela só troca de lugar, não vai embora de jeito nenhum e fica ali, zombando de você.

 

Carnaval no Mundão



3)    - Certa vez, bem no meio da semana, após o almoço, bar totalmente vazio, Mundão com poucas reservas para cumprir alguns  compromissos financeiros próximos, com seus dois filhos desempregados, estava sentado,  cochilando, passa um conhecido lá do outro lado da rua e solta aquela maneira tradicional de se cumprimentar:  "tudo bem", Mundão ?

  - Hein ? ...   Ah, tudo bem sim. Olha aí, meu bar entupido de gente consumindo, o gerente do banco mandou um aviso pra eu não mandar mais dinheiro lá pois os cofres já estão abarrotados de dinheiro meu lá, estou com meus dois filhos muito bem empregados ... Ah, tudo bem sim, seu .....

4)  - Num outro dia que ele também estava cochilando, depois do almoço, chega um jovem lá do Major Ezequiel, sem ver que ele estava cochilando pediu uma cerveja.

 - Será que lá no Major não vende cerveja, pra você vir encher o saco aqui ?

5)      -Certa vez chegou em seu bar um vendedor de estufas para conservar os salgados quentes. Às custas de muita conversa, convenceu o Mundão a comprar uma, sob o argumento tratar-se de um material de mil qualidades.  Vendeu, foi embora mas antes disse que na próxima vinda iria ver como estava funcionando. Mundão encheu a estufa de almôndegas e foi ao Banco. Quando voltou, só tinha a metade das almôndegas mas na gaveta não tinha nem uma moeda.  Desconfiou do seu empregado mas não disse nada. No dia seguinte colocou mais doze almôndegas, simulou uma saída e quando voltou, deu falta de quatro almôndegas sem, todavia, a gaveta estar  com a quantia correspondente. Foi continuando assim até que, noventa dias depois, aparece de novo o vendedor e solta a pergunta: e aí, como está funcionando a estufa ?  Mundão, constatando que seu empregado estava próximo, respondeu ao vendedor :
    - ela mantém os salgados  quentes, mas consome almôndega demais para o meu gosto. O vendedor só entendeu quando ele virou-se para o seu empregado e disse naquele rompante próprio : e você, seu f.d.p., depois de me indenizar em 387 almôndegas,  some daqui, sem direito a nada.

 

Carnaval no Mundão



6)   - Nas conversas em seu bar sobre câncer de próstata, exame de PSA, toque retal, etc., o Mundão só falava uma coisa : vocês vão e façam porque este tal de toque retal num é coisa de homem, não. E foi assim por muito tempo. Mas as coisas mudam. Surgem noticiários mostrando os índices de óbitos, os exemplos mais variados, etc., etc. Um dia o Mundão foi fazer uma consulta rotineira e o médico, a duras penas, conseguiu convecê-lo a fazer o "bendito" . Ele aceitou, numa condição : aqui em Alvinópolis eu não faço. Simulou uma ida a Ponte Nova para ir fazer compras, mas a finalidade principal era, de fato, fazer o exame.
Saiu cedo, calado, sem dizer nada a ninguém. Só que ele não foi de muita sorte. Não se sabe como, mas a notícia  "vazou" e, quando, à tarde, o ônibus chegou de P. Nova, havia uma multidão a esperar o Mundão que, irritadíssimo, teve que se sujeitar a ouvir as seguintes perguntas:

       - como foi a sua primeira vez ?   gostou ?

       - é verdade que você já deixou agendada a     próxima ?

       - o que você achou do médico que lhe atendeu ? 

        - tem direito a pedir bis ?

7)    - Todos seu amigos estavam preocupados porque Mundão apresentava uma irritabilidade acima da que normalmente ele manifestava, até que ele disse que a razão é que ele não agüentava mais ter que assistir televisão com tantos chuviscos que apareciam em seu aparelho.
    -Mas você não está sabendo, Mundão, que tem um técnico hospedado na cidade, que põe uma TV igual a um cinema ?

       Tudo bem. Deram o nome do técnico para ele, que imediatamente o contratou para reparos e providências no mesmo dia. Passa alguns dias e está lá, de novo, o Mundão com a cara amarrada.
      - O que foi agora Mundão.? O técnico não conseguiu sucesso? Ainda está com chuvisco?

      - Não. igual um cinema. Se o ator tiver uma espinha no nariz, a gente vê.

      - Então, qual o problema?

       -É que a TV muito boa mas, em compensação lá em casa num tem uma gota d'água.
       
        - Mas o quê tem a ver TV com instalação d' água ?

 

Carnaval no Mundão



        - É que, o f.d.p. virou daqui, virou dali a antena e, quando ela deu boa imagem, ele não tinha como fixá-la naquele ponto, então ele furou a caixa d' água, colocou o cano da antena no furo e foi embora depois de me cobrar muito caro.

8)     Lá no seu bar, os rapazes comentando algumas notícias que saíram no Jornal Nacional, contaram a do  "tarado" que havia violentado uma mocinha de 18 anos, muito bonita, muito meiga, etc. etc. ao que Mundão interveio :

        - Onde está a tara aí ? Moça nova, bonita, dengosa ...... Isto é o normal.  Tarados somos nós que nos casamos há trinta anos, não trocamos de mulher, transamos com ela muitas vezes na semana e até beijamos na boca. Isto é que é ser  tarado !

9     - Uma vez Mundão foi com um amigo seu de Monlevade, pescar na zona rural de Alvinópolis. Foram lá pros lados de Barretos. Lá pelas 14:00 h, um sol de  lascar, acaba o mantimento de água deles, e o companheiro vê, bem lá no alto da montanha uma casinha que fazia lembrar uma vendinha. Propôs que os dois fossem lá para, quem sabe, uma cervejinha.

       - Você deve acreditar em Papai Noel. Como pode imaginar que um homem lá, naquele isolamento, pode conhecer cerveja ?
     
        Ah, mas não custa tentar...
E foram os dois. Lá chegando, adentraram o cômodo e viram um balcão, uma cadeira, um homem, uma prateleira, um queijo e duas cervejas na prateleira. Entreolharam-se. Ficaram algum tempo em silêncio, suspiraram e o Mundão, apontando o dedo indicador para a garrafa, pediu que descesse e abrisse aquela cerveja para eles. O Homem, calmamente, tirou a cerveja, passou um espanador para tirar-lhe a poeira e os serviu. Beberam, estalaram a língua e pediram a outra. Novamente espanador etc. etc..  Beberam de novo, estalaram a língua de novo e o Mundão disse :  o negócio é bom mesmo. Se tivesse outra eu beberia, ao que o dono da venda disse :

      -  Ter  mais até que eu tenho lá dentro, mas é gelada, não sei se vocês vão querer ....

       -  Mas porque  o senhor não disse antes ?

       -  Você disse que queria é aquela, apontando o dedo pra ela.

Se ocê falasse: nós queremos cerveja ......


 (Nota : Este texto foi previamente mostrado ao Mundão que, sem restrições,

autorizou a sua publicação.

Fotos do arquivo particular de Márcio V. Gomes )