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Éramos felizes...
Contos e Crônicas
Zózimo
Franca Drumond
Capítulo 1
- Alvinópolis com o
advento do colégio
- Os
desocupados
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ALVINÓPOLIS COM O ADVENTO DO COLÉGIO.
Sempre que
vou a Alvinópolis, encontro com os amigos ,
os que moram lá e os que moram fora e que,
por razões naturais coincidem as suas idas
com as minhas. É uma “jogação de conversa
fora” à toda prova. O que mais fazemos é
trazer à lembrança os casos, os inúmeros
casos engraçados, pitorescos. Sempre no meio
da conversa alguém sugere a necessidade de
um de nós por a coisa no papel. Resolvi,
então, arregaçar as mangas e, ainda que eu
tenha certeza da inexperiência minha para o
caso, vou ousar tentar aflorar aquela época
na qual tivemos oportunidade de ter uma
juventude alegre, sadia, uma juventude na
qual a velha máxima “unir o útil ao
agradável” se adequa perfeitamente. Uma
coisa me tranqüiliza: durante a minha vida
profissional inteira tive que escrever
muito. Era uma redação rebuscada,
requintada, onde não podíamos prescindir de
termos apropriados, linguagem formal,
redação que seria criteriosamente criticada,
que poderia ensejar interpretação dúbia e,
conseqüentemente, afetar direitos das
pessoas ou, pior ainda, absolver culpados
ou penalizar inocentes. Ora, a que pretendo
escrever agora, é linguagem corrente,
dirigida a amigos e colegas, versando sobre
um passado feliz. Farei sim, ao fim uma
revisão, em respeito ao leitor, sem
preocupar-me com eventuais efeitos.
A minha
juventude sofreu uma mudança , para melhor,
em relação às de algumas gerações anteriores
visto que, por ser a Alvinópolis daquela
época uma cidade pequena, sem mercado de
trabalho, contando apenas com cursos
primários para as crianças, todo mundo sabia
de cor como seria a vida da maioria dos
alvinopolenses: aos sete anos entrar no
primário, terminar aos 11 se fizesse apenas
os quatro anos ou aos 12 se pegasse o “reforço”
do quinto ano que havia então. Daí, ficar
sem nada a fazer, esperando atingir os 18
anos para ir para fora procurar emprego. Na
maioria dos casos o destino era Monlevade.
Ali, se tivesse feito o primário com
dedicação, se tivesse uma boa letra,
conseguiria arranjar um emprego, por
exemplo, de apontador que era um tipo de
trabalho que normalmente quem o exercia
ficava no tempo, na chuva, no sol, fazendo
apontamentos: quantos caminhões passaram
carregados, quantas horas aquela máquina
trabalhou, etc.. Dependendo do seu
desenvolvimento nesta atividade,
eventualmente aparecia uma vaga para ele
passar a Auxiliar de Escritório.
O ambiente
de trabalho melhorava, o salário aumentava e
vinha em forma de mensal em vez de “por
hora”. Aqueles que não fizeram o
primário bem feito, que não tinham boa
letra, conseguiam trabalhar como balconista
de um Bar ou de uma Loja, como trocador de
ônibus, gari de prefeitura, e por aí afora.
Este, com raras exceções, era o destino de
alguém que nascesse em Alvinópolis e não
pertencesse a um pequeno número de famílias
que tinham condições de mandar os filhos
para estudar fora. Como, por exemplo, meu
pai que criou uma família de 11 filhos, com
pequeno vencimento de funcionário público,
iria ter condição de mandar pelo menos um de
seus filhos estudar fora? Os pais eram
heróis em conseguir manter o básico, nada
além do básico. E o básico não era padrão.
Havia diferenças de família para família. E
exemplos como este não faltavam e não há
necessidade de citá-los. Aí, então, é que
apareceu a guinada de 180 graus, para
melhor, na qualidade da minha juventude em
relação à das anteriores.
E ela só aconteceu
porque umas pessoas de espírito
empreendedor, desafiador, confiador,
altruísta, pessoas que sonhavam para os
outros, os verdadeiros baluartes da cultura,
resolveram se reunir e discutir a
possibilidade da criação de um curso
secundário para Alvinópolis. Deste grupo,
lembro-me de, entre fundadores, professores,
mantenedores, alguns nomes: Sr. José
Faustino, Prof. Jayme Barcelos, Profa. D.
Judith Barcelos, Dona Mariquinha (mãe do
Padre João Bosco) Dona Diva Barcelos, Dr.
Carlos de Paiva, Prof. Dr. Ary Pinheiro
Moreira, Dr. Mário França, Dr. Fritz, José
Prímola e outros. Sei que existiam outros
mas, devido à minha pouca idade da época (eu
era criança), fiquei sem a informação na
íntegra.
Anteriormente, quando eu citei a
mudança e abri um parêntese para dizer que
era para melhor, estava certo. Vejam
que presente recebemos do grupo (e isto é
apenas um exemplo): além da
finalidade precípua do Curso, que era
dar-nos condição de progredirmos, aquele
lapso de tempo que era perdido pelos
adolescentes, dos 12 ao 18 anos, esperando a
hora de sair, acabou. Saíamos do primário,
prestávamos uma prova e matriculávamos no
famoso Curso de Admissão. Daí para frente
era só seguir em linha reta, se não entrasse
na contra-mão, se não saísse da estrada
principal, chegaria lá. E quantos chegaram!
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Formandos de 1961 do Colégio na
porta da Igreja Matriz.
Da esquerda para a direita :
Jador. Repolês, Zózimo, José
Viana, Pedroca, José Teixeira,
Pedro Gancho, Afonso, Piliu,
Tutuca:
Moças : Vanda Mascarenhas,
Magda, Zazá, Margarida, Penha,
Marilda Drumond, Rita Januária,
Lia, Maria José Cerqueira,
Marilda Moreira, Maria Célia |
Bom, vejo
agora a necessidade de fazer uma observação:
não há razão para ninguém ter nada contra um
jovem ir trabalhar, novo, sem estudar. Não
há demérito nenhum nisto. Pelo contrário,
deverá haver sim, muito reconhecimento e
respeito para com eles pois, do que a gente
tinha notícia é de que sempre se postavam
com honestidade, respeito, formaram famílias
dando ótimos exemplos, sem prescindirem da
dignidade. Todavia, acho, eles deveriam
tomar este caminho por opção e não por
estarem sujeitos a uma única condição.
Volto, então,
a afirmar: resolvi colocar a coisa no
papel. Com certeza cometerei várias falhas,
mas isto não me preocupa. Que nome vou dar?
Como todo trabalho deve ter um nome de
referência, pensei alguns e vou ficar com o
mais simples deles:
ÉRAMOS FELIZES...
Qual vai ser a Editora? Nenhuma. Não vou ter
a petulância de querer escrever um livro.
Quem vai editar para mim é a impressora do
meu computador. Qual o tamanho? Não sei.
Umas páginas. Se vier muito assunto, muitas
páginas, se acabar assunto, poucas páginas.
Qual encadernação? Nenhuma. Vai ser um
conjunto de folhas, tamanho A-4, grampeadas
em ordem. Quantos exemplares vou fazer?
Tenho em mente que o número não será
inferior ao de pessoas que serão citadas no
decorrer desta escrita. Cada uma vai receber
um exemplar. Se o citado já for falecido,
algum seu parente próximo o receberá. Vou
ter cuidado de não citar data específica
pois, por se tratar de uma situação dinâmica
no tempo e no espaço, correria o risco, por
exemplo, de citar o nome de uma pessoa que
não mais residia em Alvinópolis na época que
sucedeu um fato do qual ele estava sendo
sujeito. Vamos então considerar que os fatos
que citarei iniciaram-se na década de
cinqüenta – princípio dos anos cinqüenta. As
pessoas que eu citar viveram aqueles fatos,
cada um na sua época. Visando eu não perder
o “fio da meada”, vou citar
tudo a partir de um primeiro de janeiro e
concluir quando chegar no 3l de dezembro.
Evitarei usar linguagem subjetiva pois, quem
o faz, escreve só para si e não é esta a
minha intenção.
Vamos, então, dar nomes. Era
um grupo grande, unido, leal, com muito
humor, com muita responsabilidade,
idealista, dinâmico:
Tatai, Dadico, Avanir,
Repolês, Marcelo e Márcio (de Zé Faustino),
Adair, Gustavo, Bené Classe, Vicente,
Vandinho, Geraldo Louro, Teodoro, Duducho,
Fernando, Rafael, Comodoro, Narciso, Dinho,
José Alvarenga, Pedro Duarte, Marquinho,
Nonô Tubarão, Modestino, Birinha, Zé Renato,
Ozanan, Walter, José Geraldo de Waldir,
Célio, Davi, Daniel, José Pérez, Jésus,
Heleno, Luizinho, Aurélio, Chico de Nélson,
Magela, Silvério, Jujuca, Jadir, Mário e
muitos outros. Doravante citarei apenas,
A TURMA. Vez por outra, tirarei,
aleatoriamente, um nome da lista acima para
falar especificamente sobre ele.
Não se trata do Clube do
Bolinha onde “menina não entra”. No entanto,
o nosso grupo exercia atividades
eminentemente masculinas como: pescarias,
serenatas, futebol, etc. Mas, quem seríamos
se não tivéssemos, nos encontros sociais, a
grata presença das moças que, com suas
delicadezas, completavam o elenco. Entre
outras, eram elas: Arlete, Diana,
Zazá, Bernadete, quatro Marildas, duas
Pituchas, Nívea, Lares, Dodora, Vilma, três
Margaridas, duas Marias José, Magda, Ana
Lúcia, Ana Maria, Mariângela, Bililiu,
Ubiracy, Lia, Maria Helena, Maria Conceição,
Zelinha, Cristina, Rita Rosa, Consolata,
Consolação, Marilene, Marta, Maria Clara,
Imaculada , Catarina Monteiro.
Os rapazes se
incumbiriam da prática que exigiam as
seguintes qualidades: arrojo,
determinação, resistência, audácia,
irreverência (no bom sentido), destemor,
etc. As moças entrariam com qualidades que
lhes são próprias: beleza, formosura,
meiguice, ternura, fragilidade, encantamento
e outras. A estas qualidades se misturavam
ainda as comuns aos dois grupos: respeito,
dedicação, prudência, sabedoria,
responsabilidade, solidariedade, serenidade
e determinação. Todas qualidades juntas
representavam os ingredientes de uma receita
para, a muitas mãos, confeccionar-se um
grande bolo: A NOSSA JUVENTUDE.
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OS DESOCUPADOS
“Venha Ninita. Chega aqui na janela. Venha
ver. Os desocupados já vão”. Era Dona
Mariquinha do Curro, alisando a sua gata de
preferência, a Menininha (ela tinha mais de
30 gatos), e chamando sua filha para ver os
desocupados indo para a Sapataria do Tone.
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Dona Mariquinha |
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E
não estranhem porque “desocupados” era
apenas um dos vários atributos que nos eram
jogados às costas pela sociedade. Ela sabia
que todos os dias, após o almoço, íamos para
a Sapataria do Tone e lá ficávamos até, mais
ou menos l5:00, quando então regressávamos.
Entrava dia, saía dia e estávamos lá, à
mercê da sociedade a nos dar qualidades:
desocupados, improdutivos, alienados, “os
sem quê fazer”, irresponsáveis,
inconseqüentes, vadios e por aí afora. Devo,
aqui, fazer um comentário: há mais de uma
razão para eu respeitar a memória de Dona Mariquinha. Aquele deslize de tomar conta da
nossa vida era perfeitamente relevável se
considerássemos as suas boas virtudes:
caridosa, solidária e gentil com as
pessoas.
Às vezes fico até arrependido de
quando a gente parava em frente à casa dela,
vendo a gata Menininha cochilando lá em cima
daquela janela tão alta, e torcendo para, em
algum cochilão desequilibrar-se, cair e
estatelar-se lá em baixo. Dona Mariquinha
não merecia isto.
Um dia, passando em frente
à sua casa ela falou:
“Ô menino de Zé
Drumond, venha cá em cima.”
A gente nunca
deixava de ir. Lá chegando ela indagou se eu
estava indo para a Baixada (assim se referia
à Praça de São Sebastião).
Tendo eu
assentido ela pediu-me que levasse umas
folhas de chá para Dona Neném de Jucazinho,
porque ela estava muito gripada. “E quando
voltar, passe aqui novamente”. E aí é que a
gente não deixava de passar mesmo pois, com
certeza, sairia o pagamento: uma mesa cheia
de todo tipo de quitandas, queijos, sucos,
muita fruta. Como ela sabia que a gente
tinha um pouco de constrangimento, virava
as costas e só voltava quando calculava já
haver passado o tempo que julgava suficiente
para se lanchar à vontade. Quando
terminávamos, enchia uma sacola daquelas
guloseimas e mandava a gente levar para
nossa mãe.
“Fala com Dona Ritinha que eu
estou com muita saudade dela”.
Bem, já tendo
defendido a Dona Mariquinha de possíveis
insinuações, deveria agora defender-nos do
peso que tínhamos às nossas costas com as
qualidades negativas anteriormente
descritas. Mas não vou fazê-lo agora. Farei
mais lá na frente, bem naturalmente.
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