Éramos felizes...

Contos e Crônicas

        

       
        
Zózimo Franca Drumond

Capítulo 2     - Primeiro de Janeiro

 

 

PRIMEIRO DE JANEIRO

Dia de Confraternização Universal.

Este era o primeiro dia de um ano que, a exemplo dos anteriores, seria de muitas atividades. Como chegamos em casa com o dia clareando, efeito dos drinques ingeridos, da noite não dormida, só lá pelas l9:00hs apareciam os primeiros da Turma. Dirigíamo-nos para o centro da praça Bias Fortes (praça do Gaspar) e conversa vai, conversa vem, daí a minutos estava o grupo reunido outra vez. Era uma reunião apenas de bate-papo pois não precisaríamos organizar a programação do ano que se iniciava já que esta era repetitiva e automática. Em plenas férias escolares, ainda longe do carnaval, sem dinheiro para viajar (não era costume nosso viajar nas férias, ninguém conhecia o mar) aquele janeiro seria igual aos outros. A gente fazia caminhadas pelas zonas rurais, caminhadas longas, às vezes Pimenta, Major Ezequiel, Campo de Aviação, pescarias, Fazenda do Chico Cunha.

Era comum sair cedo e só voltar quando a noite já chegava.

Almoço?

 

Um litro de leite numa fazenda, um cacho de bananas na outra, umas laranjas que o pé deixava pender para estrada, e assim passávamos o dia sem que alguém reclamasse nada, felizes. Chegávamos em casa, preparávamos para voltar pois, mês de férias havia hora-dançante todos os dias.

Hora-dançante de clube cheio. Como já disse, ninguém tinha o costume de viajar (e não fazia falta) e, além do mais, nas férias vinham conterrâneas que estudavam fora (Maria José, Dodora, Cotinha, Conceição, Dorinha, Pompéia, Maria do Carmo, Selma, Dora de Juquita) reforçar nosso contingente que já era bom. Tudo isto, sem contar as “moças de fora” como chamávamos as de outras cidades que iam nos honrar com as suas visitas. E é aí que estava bom para mim pois a minha especialidade em termos de namorar era com “moças de fora”. E, modéstia às favas, eu dava sorte com elas.

 

Um dia o Pite (da ACAR) assegurou-me que andou fazendo uns cálculos e chegou à conclusão que de dez que iam lá, sete eram para mim. E eu acho que ele errou por pouco. Nos meus cálculos davam seis. Muitos da Turma tinham namoradas locais mas comigo era o descompromisso total. E toma hora-dançante, e toma Bylle Vaugh, e toma Românticos de Cuba, e toma rum Bacardi com coca-cola e toma Nat King Cole (Noche de Ronda, Solamente una vez, Vaya com Dios, La Golondrina ... ) e o mês vai passando e, quando a gente se assusta a orquestra está, bem lá no palco, afinando os instrumentos e preparando os primeiros ensaios para o carnaval.

 

Zózimo, Fernando e Marquinho na Praça Bias Fortes

 

No Alvinopolense o destaque era o trombone de Chico de Ná e no Industrial a requinta de Tanico (a requinta é muito parecida com a clarineta, porém bem menor e com o som muito mais agudo, ouve-se a quilômetros). Ambos instrumentos davam um toque todo especial em suas respectivas orquestras. E vai passando o tempo, vai passando o mês e chega um dia que esperávamos: o do Grito de Carnaval. Assim se chamava o baile pré-carnavalesco que os clubes promoviam visando angariar recursos financeiros a serem aplicados no próprio carnaval. A partir deste baile (que normalmente acontecia 15 dias antes do carnaval), todos os dias, inclusive os da semana, haveria ensaios da orquestra e todo mundo aproveitava para cair no pagode. No meu primeiro carnaval o Alvinopolense ainda estava em construção: a laje, as paredes e colunas sem rebocar, o piso grosso, sem acabamento (na areia mesmo). Puseram iluminação no teto, puseram os enfeites nas paredes, puseram uma orquestra no palco e esta pôs muita alegria no salão. E chega o dia do carnaval. Era uma alegria misturada com ansiedade, com comentários e previsões, é a preocupação de como adaptar uma roupa para o primeiro dia, era um tal de vigiar os ônibus dos Vianas para ver quem estava chegando: “Você viu aquela morena que estava na poltrona número três? Ela ficou hospedada lá no Raimundo Nazário.” E a gente também ia ajudar a colocar os adereços e enfeites no Clube.

 

Em termos de carnaval propriamente dito, no sábado ele se restringia ao baile noturno. Mas a partir de domingo era difícil adequar a agenda. Lembro-me, às 08:00, (isto mesmo, 8 da manhã) já havia bloco de mascarados nas ruas, batendo caixas, batendo latas, promovendo a alegria. E estes blocos mascarados, no domingo e na terça-feira, era rua cheia o dia inteiro. Mal passava um batuque e logo em seguida vinha outro. E a Turma tinha o seu bloco também. A gente mesmo fazia as máscaras com forma de tijolo e alguma argila para dar contornos. Em seguida fazíamos grude (polvilho, água e fogo), cola simples e barata, íamos colando jornal acompanhando o feitio dos contornos da forma até atingir um corpo que desse robustez, púnhamos para secar ao sol e em seguida o acabamento com uma folha mais fina como papel de seda, pinturas, etc. Agora era só pegar um vestido de uma irmã, uma meia fina, um soutien e saíam aquelas marmotas para o meio da rua, a zonear. Para complicar mais a agenda, na parte da tarde havia o baile de matinèe que servia para as crianças distraírem bem como para cansar a orquestra que iria nos servir à noite.

 

Combatíamos mas não havia jeito. Já que não havia jeito, íamos assistir à matinèe pois era motivo de paquera e, quem sabe, reprogramar a parceira da noite, dependendo do que poderia surgir ali. Lembro-me, houve um carnaval que eu estava com duas namoradas e uma noiva. A noiva era noiva do noivo dela. A mãe era contra o noivado e a mandou para Alvinópolis para ver se ela arranjava alguma coisa séria para se esquecer do noivo. Alguma coisa até que ela arrumou mas, séria, ficou para o próximo carnaval. Bem, acabada a brincadeira das crianças, voltar para casa, tomar um banho e, às vezes até jantar (se bem que a gente achava uma perda de tempo sem igual jantar em dia de carnaval, para tristeza dos nossos pais). E chegava a hora de voltar para o Gaspar. Era comum o footing. Os rapazes, normalmente topetudos, parados nos passeios e as moças andando de braços dados entre si. Do footing as moças iam para o Clube e nós também, não sem antes passarmos no bar do Remo para começarmos a aclimatar o estômago, como se estivéssemos avisando-lhe que se preparasse porque o bicho ia pegar de novo. Então íamos também para o Clube e, quando lá chegávamos, já havia gente na pista, a orquestra já exibia as marchinhas antigas dos carnavais, dos carnavais que não deveriam ter acabado. Estas marchinhas a que me refiro eram o hino da alegria: letras inocentes, pertinentes ao tipo da festa, melodias lindíssimas:

“Vou deixar chover, vou deixar molhar,
pois no molhado é melhor pra se brincar
o guarda-chuva, que acho graça:
guarda-chuva de pobre é cachaça”

“Menina vai, com jeito vai, senão um dia, a casa cai.
Se alguém, te convidar, pra tomar banho em Paquetá
Pra piquenique na Barra da Tijuca
Ou pra fazer um programa no Chuá, menina vai...”

“Tem, tem, tem um amor em cada porto
Tem, tem, tem, tem mulher e tem conforto
Quando chega em Cuba, cai nos braços da cubana
Vai pra Nova Iorque, beija logo a americana
Repete a cena, lá  em Paris, salve o marujo, ele é que é feliz.”

E vinha a segunda-feira. Ela era diferente do domingo porque a fábrica trabalhava, o comércio funcionava, então diminuía muito o “quorum”, diminuíam os batuques, repetia a sessão de matinèe, e vinha a noite. Outro desfile de marchinhas:

 

                                “Bananeira não dá laranja,

                                 coqueiro não dá caju,

                                 a menina que é direita, não dá sopa,

                                 e você dá muita sopa, Marilu !

 

Houve um caso interessante numa segunda-feira de carnaval: lá pelas 3 da tarde alguém da Turma alegou que o calor estava demais, que deveríamos fazer alguma coisa. Alvinópolis não tinha piscina. Resolvemos ir para o Andaime que é uma cachoeira que existe a uns 2 km depois da Fábrica, indo em direção ao Quati. Era o maior reduto de esquistossomose jamais visto em toda região. Fomos para lá. Não deu tempo de ninguém passar em casa para pegar short. O que fizemos? Desfizemo-nos de nossas roupas, ficamos apenas de cuecas, pusemos as roupas juntas em cima de uma pedra e caímos na água. Água agradabilíssima, dane-se a xistose. De repente um tropel de cavalo se aproximando. Escondemo-nos atrás de uns pés de goiaba e ficamos observando. Quando apareceu, era o Galinho com uma moça na garupa do cavalo. Havia umas moças de Ouro Preto passando o carnaval em Alvinópolis, (uma era paquera do Bené Classe) e o Galinho saiu com uma passeando a cavalo.

Quando ele viu aquele monte de roupas, desceu do cavalo, vasculhou os bolsos, viu nossos documentos, deu aquela risada característica dele, pegou um saco de aniagem que ele tinha no arreio, meteu nossas roupas e documentos lá dentro, montou no cavalo, levando a moça,  as  roupas e a nossa alegria. E agora?  Naquela época não era comum usar nem uma bermuda. Como iríamos atravessar a cidade de cuecas, logo no dia de carnaval? Todas as sugestões eram refutadas. A noite estava chegando e os mosquitos não perdoavam. O que fazer? Foi aí que chegou o Lalau de Jucazinho em sua bicicleta, com um saco de roupas amarrado na garupeira. Ele viu, lá no seu Bar, o Galinho fazendo a farra e contando para todo mundo o acontecido. Salvou-nos de perdermos uma noite de carnaval e sermos devorados pelos mosquitos.

 E chegou a terça-feira. A parte da manhã foi a repetição da manhã do domingo, porém, por se tratar do último dia, com mais intensidade, com mais blocos na rua, com mais força nas mãos ao bater os bombos... Neste dia a matinèe não acontecia pois havia atividade demais para a Diretoria se preocupar: é que os carros alegóricos, normalmente escondidos em algum quintal, estariam precisando de muitas mãos para os retoques finais. Finalmente chegou a hora dos desfiles. O Industrial saía com seus carros alegóricos lá da Fábrica. O Alvinopolense, lá do fim da rua, próximo ao Djalma. O Industrial com vários carros tinha no da frente um caminhão que foi transformado num navio, feito com muito bom gosto, alusivo ao seu hino (lindo hino que o Quinzinho compôs), na frente vinha um gorila feito com todo capricho (o bicho tinha uns três metros de altura); o Alvinopolense tinha também vários carros muito bonitos e o da frente era um “Sputinik” em alusão à viagem de Gagarin. Fantasias de elevado gosto, de muita leveza, colombinas, pierrôs, arlequins. E os dois clubes, lentamente, se aproximando. Convencionava-se que o encontro deveria dar-se próximo ao Fórum, em virtude de ali a rua, na época, ser mais larga, o que facilitaria a operação.

E as orquestras que se postavam sobre um caminhão preparado especialmente para isto, trinavam seus instrumentos deixando no ar aquela combinação de sons sucessivos e simultâneos:

 “Pierrô apaixonado, que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina, acabou chorando
Acabou chorando”

“Saçassaricando, todo mundo leva a vida no arame,
Saçassaricando, a viúva, o brotinho e a madame,
O Velho, na porta da Colombo
É um assombro, saçassaricando”

“Lá vem o cigano, com seu violino,
Cigano não tem coração,
A cigana que gosta dele,
Está por aí, vendendo ilusões”

E aquelas belezas seguindo lentamente, uma ao encontro da outra. Quando a distância passou a ser questão de metros, o Chico de Ná, com apenas o aceno de cabeça fez com que seus comandados parassem repentinamente, e, a todos pulmões imprimiu em seu trombone dourado o “Bamba do Gaspar”, hino dotado de uma introdução característica que todos, ao o ouvirem, simultaneamente pulavam e gritavam. Chico de Ná e seus músicos imprimiram uma mistura de vigor e sentimentos em seus instrumentos com tanta intensidade que os vidros das janelas vibravam como que fossem cair a qualquer momento; por sua vez, do outro lado o Tanico repetiu o mesmo gesto e, com não menos inspiração e entusiasmo entoou o Hino do Industrial. A sua requinta parecia desconhecer os impulsos das teclas calcadas mecanicamente, para atender aos anseios da alma, emitindo sustenidos que faziam lembrar uma siriema em noite de cio. E aquele espetáculo continuava, e era todo nosso. E era o último dia. Naquela hora, o Criador que lá de cima a tudo assistia, resolveu abençoar aquele espetáculo cheio de pureza, e mandou uma chuva bem fininha, uma garoa que se precipitava e, ao atingir a altura das lâmpadas dos postes,  tomava o feitio de uma chuva de prata. Agora estava completo o espetáculo. Houve o encontro. Muitas serpentinas, muitos confetes, muitos “lança-perfume”. Era uma mistura de risos e lágrimas, ambas manifestações oriundas da alegria... As orquestras concluíram os hinos de cada parte e, como num toque de mágica promoveram uma única introdução musical, para os dois blocos saírem, um para cada lado, cantando a mais bonita das marchinhas antigas:

 

“Guardo ainda, bem guardada a serpentina,
Que ela, jogou.
Ela era uma linda Colombina,
E eu, um pobre Pierrô!”

“Guardei a serpentina, que ela me atirou.
Dancei com a Colombina até as sete manhã
Chorei quando ela disse: vou-me embora,
Até amanhã, Pierrô, até amanhã...”

No dia seguinte, Quarta-feira de Cinzas, na parte da manhã, ninguém na rua. Na parte da tarde, reconhecemos que a D. Mariquinha, que morava na Rua de Cima, com sua obesidade, não deveria ter participado de nada do carnaval. Que pena! Uma pessoa boa e perder tanta coisa bonita. Resolvemos, então, dar-lhe uma alegria, e fomos para a Sapataria do Tone. Nunca a vi tão cheia. Muitos comentários, muita troca de informação, muita fofoca, quem estava com quem, quem perdeu o último dia, quem já viajou,coitado, às cinco da manhã já no ônibus”, quem voltou com a namorada, quem terminou no carnaval, “não dou cinco dias e eles voltam”. Graças a Deus nunca ouvimos comentários que pudessem denegrir ou macular as pessoas, as famílias de quem tanto gostávamos.

À noite a Turma se reuniu no centro da Praça do Gaspar. Não tínhamos, naquele dia, outro lugar. O Clube estava fechado e assim ficaria toda a quaresma. Isto não era bom. De férias escolares, à noite não tínhamos muita escolha. Algum dia cinema, outros, reunião na praça.

 

 

 

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