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Éramos felizes...
Contos e Crônicas
Zózimo
Franca Drumond
Capítulo 3
- Recomeço das aulas -
Escola Técnica de Comércio
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RECOMEÇO DAS AULAS
Logo em seguida as aulas
recomeçavam. Matrícula, primeiro dia de
aula, curiosidade pelas matérias novas, por
eventuais colegas novos, pelos professores.
Num desses recomeços de aula, tivemos a
grata surpresa de podermos contar com mais
dois excelentes professores : Geraldo
Bicalho e Élio Lage.
Havia alunos que tinham
preferência por determinadas matérias. Modestino gostava do Português e Literatura,
(quando eu estava no segundo ano de Grupo,
lembro-me, tinha como professora a saudosa
Dona Madalena, e como colega, entre outros,
o Modestino. Era impressionante a sua
desenvoltura, naquela idade tenra, na
participação das aulas.) José Mauro gostava
de História e Geografia (devorava tudo que
caísse na frente). Uma vez um professor caiu
na bobagem de perguntar-lhe a população da
China, ele não só falou a população como
disse o nome de cada habitante, seu CPF,
número de Carteira de Identidade, endereço,
preferência de dentifrício de cada um e por
aí afora. Eu gostava de Português, História
e Geografia. Normalmente as notas
confirmavam as preferências de cada um. Mas
havia uns exagerados (Márcio de Zé Faustino,
Zazá, entre outros) que não tinham
preferência. Traçavam o quê caísse na
frente. Era um tal de nota máxima em quase
tudo. E o bom é que não tinham as qualidades
chatas, próprias de alunos deste nível. Eram
normais, populares, amigos, gozadores.
Estava começando um novo Ano
Escolar. Estudar todos os dias, das sete da
manhã às onze e meia, parar para almoçar,
ouvir um noticiário rápido, descer para
marcar o ponto na Sapataria, (às terças
e quintas-feiras, após o expediente
da Sapataria, eu tinha uma hora de
datilografia, lá no Monte), voltar para
tomar banho e jantar, ir para o Colégio.
Agora ficaria fácil qualquer pessoa deduzir
qual seria a próxima atitude ou seja, a após
o Colégio. Qualquer um arriscaria: “voltar
para casa”. Certo? Não. Errado. A nossa
jornada não terminava com o Colégio. As
aulas terminavam sempre às 22;00.
Obedecíamos, a partir daí, rigorosamente o
nosso calendário :
- às segundas e
quartas-feiras, íamos jogar sinuca no bar do
Darcy e lá ficávamos até às 23:30. Se
chegássemos lá e as mesas estivessem
desocupadas, formávamos os grupos e
jogávamos respeitando, sempre, o horário.
Se já havia alguém jogando, limitávamos
a assistir, com direito a eleger para quem
iríamos torcer;
- às terças e quintas-feiras,
jogávamos voleibol. Chegou uma vez em
Alvinópolis, um senhor do Rio de Janeiro,
cunhado do Amaury, que jogava muito bem e,
sendo pessoa muito comunicativa, ajuntou-se
a nós e com pouco tempo provou-nos que
estávamos totalmente errados quanto à
maneira de jogar (nosso jogo mais parecia um
ping-pong), ensinou-nos regras do jogo,
ensinou-nos que deveríamos colocar um da
turma, num patamar acima da gente, bem acima
da rede, para desincumbir a função de juiz,
dirimindo as dúvidas e, principalmente,
ensinou-nos que o juiz (meditem quão
profundo é o que vou dizer), por mais amigo,
por mais expansivo, por mais brincalhão, por
mais extrovertido que fosse, deveria,
naquele momento, agir e ser respeitado como
juiz. Era uma pessoa relativamente estranha
ao nosso grupo, querendo ensinar vôlei, sem
saber que estava nos ensinando para a vida.
Entusiasmamo-nos e programamos que, às
terças e quintas, após as aulas,
esticaríamos a rede no pátio e jogaríamos
três partidas.
Aí o horário de término não
era muito rígido porque havia variação
quanto à duração. Se a gente sentisse que
alguma partida estava demorando demais,
ficávamos com apenas duas;
- na sexta-feira, após as
aulas, descíamos para o bar do Remo e lá
consumíamos feijoada (aquela em lata de
conserva), um pãozinho de sal, uma
cervejinha (sem exagero) e muita conversa
fiada. Era a comemoração do sentimento do
dever cumprido naquela semana.
Bom. Vinha o sábado. O
compromisso na Sapataria do Tone neste dia
era de manhã. Mais conversa fiada, mais
gozação. Voltávamos para casa, almoço,
noticiário (de rádio). Aí vinha o melhor do
sábado: impreterivelmente todos do Colégio
que eram amantes do esporte, tinham o
compromisso de ir para o campo do
Industrial. Lá praticávamos, principalmente
futebol e vôlei (chamávamos de treino). O
Zizi era o técnico do futebol e o Mauro
Duarte, do vôlei. Ambos muito exigentes
quanto a horário, disciplina, apresentação e
limpeza dos uniformes. Havia grande número
de pessoas que não praticavam o esporte. Iam
só pelo prazer de assistir, da reunião.
Começava sempre às 13:00 e terminava quando
a noite vinha, pois não havia iluminação no
campo. A gente revezava. Uma hora no
futebol, outra no vôlei, mas não parava, com
sol ou chuva.
À noite, se quaresma, sem
opção, era cinema, se fora da quaresma,
hora-dançante. No período escolar, todo
sábado havia hora-dançante, no domingo, se
não houvesse baile (olha que coisa mais
estranha, os bailes eram domingos sendo que
muitas pessoas trabalhavam na
segunda-feira), mais hora-dançante.
Aproximava-se o fim da
quaresma. Durante a semana santa,
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Semana Santa em Alvinópolis |
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a
participação de quase todos da Turma nas
procissões caracterizadas que havia. O Repolês, quinze dias antes parava de fazer a
barba. Nas procissões vestia uma grande
túnica, portava um grande cajado e, com o
olhar sempre fixo para o chão, promovia um
leve balanço de vai-e-vem no dorso,
caracterizando idade e cansaço. Era o
exemplo da seriedade. Um dia quando a
procissão estava passando em frente ao
cinema, o Miau (apelido de um adolescente da
época), escondeu-se atrás do poste e gritou:
“nunca vi homem de Sem Peixe vestir saia”.
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Semana Santa em Alvinópolis |
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Para compensar as vezes que
passávamos em frente aos Clubes de portas
fechadas e luzes apagadas, aguardava-nos o
sábado da aleluia quando acontecia um baile
muito esperado. Mais agitação, mais gente de
fora chegando, mais “moça de fora” chegando,
mais morena na poltrona número seis do
ônibus dos Vianas. Vinha o baile, os dois
clubes lotados, boas orquestras, todas as
mesas reservadas. Nós sempre dispúnhamos de
pouco dinheiro e nem sempre dava para
reservar mesa. Então apelávamos para a
sacada do Alvinopolense ou, se fosse o caso,
para a ante-sala do Industrial. Do nosso
grupo poucos trabalhavam com vínculo
empregatício. O dinheiro era difícil e
pouco. Alguns faziam o que chamam de “bico”.
O Marcelo (de Zé Faustino) prestava horas
disponíveis na Secretaria da Escola – o
Marcelo foi o primeiro a possuir uma calça
“vincada”,- aquela que nunca perde a quina,-
em Alvinópolis. O Duducho ajudava seu irmão
na loja. Zé Alvarenga, nos dias que o Cinema
da Rua de Cima exibia algum filme, assumia a
parte da divulgação e a operação das
máquinas. Gustavo fazia fotografias para
documentos. Eu fazia datilografia de
trabalhos escolares e resumos de pontos para
vários alunos do Colégio (ganhava dobrado
porque com esta prática evitava comprar
livros, tirava uma cópia a mais para mim).
Bom. Passava o baile e a rotina voltava:
aula-sinuca, aula-vôlei, aula-feijoada,
horas-dançantes. E íamos tocando o semestre.
Nos meses de maio e abril, às vezes pedíamos
dispensa a um dos complementos da aula, a
sinuca ou vôlei, (nunca a feijoada) para
irmos visitar, altas horas da noite, o
quintal de Dona Mariquinha, que era provido
de um lindo pomar, onde “colhíamos” (é feio
falar roubar) várias frutas, principalmente
suas deliciosas laranjas. Uma vez constatada
quantidade suficiente para toda a Turma,
enchíamos o saco, íamos para a porta do
Cemitério onde as facas, previamente
afiadas, iriam ter muito trabalho. Se a
noite fosse muito escura, sem lua, levávamos
as laranjas para serem consumidas lá na
Caixa d’água. Até um certo ponto eu tinha a
consciência tranqüila sobre esta prática,
pois fiquei sabendo, através de D. Nhanhá,
vizinha da proprietária do pomar, de que
esta teria dito que sabia das nossas visitas
e não se importava porque éramos ordeiros,
não deixávamos lixo, reparávamos a cerca que
fora violada ao entrarmos, e,
principalmente, porque o pomar era muito
grande e poderia haver muita perda se não a
ajudássemos. E tínhamos consideração
com ela mesmo.
Uma vez, quando íamos
determinados a “degustar” suas
frutas, quando passávamos em frente à loja
do Chiquito, havia uma camionete
estacionada, cheia de sacos de esterco. Pela
marca da camionete sabíamos qual era o
fazendeiro. Entreolhamo-nos: “vocês estão
pensando o que eu estou pensando?” No dia
seguinte, quando D. Mariquinha foi molhar
sua horta, perto do canteiro de couve havia,
estranhamente, um grande saco de esterco.
Hoje acho bom que ela tenha citado duas
situações que deixavam nossas consciências
tranqüilas porque (lembram-se que eu falei
“até certo ponto”?) quando em janeiro de
2000 eu estava com a família em Portugal, vi
em Lisboa uma coisa muito comum lá, que é os
passeios das casas terem pés de laranja
plantados. As laranjas crescem, amadurecem,
apodrecem e caem porque ninguém sequer
degusta, uma vez que a ele não
pertence. Considero então, como
reserva técnica para a consciência, a
parte que ela disse que éramos ordeiros,
asseados, etc., bem como que o pomar era
muito grande e haveria desperdício se não a
ajudássemos.
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ESCOLA TÉCNICA DE COMÉRCIO PROF. CÂNDIDO
GOMES
Funcionava nas instalações do
Grupo Escolar Bias Fortes. Instalações que
já faziam parte da minha infância,
resolveram voltar na adolescência/juventude.
E não houve intervalo de tempo. Passou a
existir uma diferença no espírito quanto à
maneira de encarar a coisa. No tempo do
Grupo, era sem preocupação pois não tínhamos
informações suficientes para tanto. Agora,
porém, ouvíamos novas nomenclaturas que
passariam a, em termos, preocupar:
concorrência, mercado de trabalho,
continuidade de estudos, testes vocacionais,
vestibulares, etc.
Realmente, quem falar que
ouvira estas expressões no tempo de Grupo,
está enganado ou mentindo. No entanto, posso
afirmar, o novo ambiente era de esperança,
alegre, sadio, construtivo. Professores de
espírito altamente idealista, pessoas que,
não obstante o cansaço da jornada diária de
trabalho, se dispunham a renunciar ao
aconchego da família para ir passar para nós
um pouco do muito que sabiam. E não se
limitavam à função precípua de fundar,
manter e lecionar. Desenvolviam outra função
que era “catequizar”. Sim.
Catequização de pais e filhos, aqueles
instruindo, estes recebendo instruções de
que estudar era bobagem. “Fulano, filho de
Beltrano nunca estudou, foi para fora e
ganha uma fábula”, como se dinheiro
representasse o valor maior da vida, ou como
se uns três salários-mínimos representassem
uma fábula.
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Desfile do Colégio em data
cívica |
Certa vez estava fazendo
caminhada na rodovia, junto com o Magela.
Conversa vai, conversa vem, ele disse-me que
um dia, chegando em casa, viu o Sr. José
Faustino, na cozinha de sua casa, tentando
convencer à Dona Anita de que todos os
filhos deveriam matricular-se no Colégio. Ao
argumento dela de que a renda familiar não
comportaria tal compromisso, ele retrucou:
“Não há problema. Eles entram na condição de
bolsistas”. E a bolsa de estudos, lá, não
era igual a que conhecemos, que exige cópia
do contra-cheque, atestado de residência,
atestado de pobreza, compromisso de
ressarcimento, etc. Simplesmente, na frente
do nome do aluno que constava na ficha de
matrícula, ele escrevia a palavra “bolsista”
(às vezes, a lápis) e estava deferido o
requerimento.
Aquilo era uma convenção para
o Tesoureiro, na hora de emitir os carnês,
simplesmente pular aquele nome. Decorridos
exatos sete anos, aquele nome que antecedia
a palavra “bolsista”, passava a
constar numa lista colocada em cima de uma
mesa bem no centro do palco do Cine Alhambra,
onde iriam ser citados os nomes de mais
alguns Técnicos em Contabilidade. Que pena
que só agora em 2.006, após aposentar-me,
resolvi ter a iniciativa de escrever este
texto. Que pena que antes eu tinha a
correria do dia-adia; que pena que eu só
tinha folgas aos sábados e domingos e que
teria que dedicar estes dias aos meus filhos
que se privavam de mim toda a semana; que
pena que eu não pude escrever este texto
quando os fundadores do Colégio ainda eram
vivos. Como seria bom eu pegar o primeiro
exemplar, levar à casa o Sr. José Faustino
entregar-lhe e dizer-lhe:
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Sr. José Faustino discursando
em solenidade de Formatura |
“ Quando,
naquela época o senhor não poupava esforços
pelos nossos futuros, nós não sabíamos
avaliar a sua luta, nós éramos inibidos e
não sabíamos falar nada além do trivial em
roda de amigos; nós, às vezes, nem
gostávamos da sua cara fechada, com a qual o
senhor conseguia manter a ordem tão
necessária então. Espero que agora o senhor
veja o quão valorizamos e somos agradecidos
pela garra que o senhor e seus companheiros
de luta dedicaram a nosso favor.”
Não
posso aqui deixar de lembrar e manifestar a
gratidão a outros nomes que muito
contribuíram para a efetivação e
continuidade do Colégio: os seus primeiros
alunos. A desistência deles seria fatal para
a Escola e, concomitantemente, para nós.
Entraram num mundo sem tradição, sem
certeza, sem prática.
Tiveram coragem,
determinação, vontade de vencer,
perseverança e isto foi bom para eles e
todos nós. Para nós que estamos ainda
lembrando deste detalhe e para aqueles que
hoje são alunos da Escola e mal sabem o nome
dos atuais professores. Seria o caso de uma
homenagem para eles, numa galeria de
retratos e referências que iriam constar os
nomes de Zizi, Zé de Jucazinho, Ênio,
Marcelo de Clodomiro, Rômulo, Remo, Mauro
Duarte, Dora, Marília, Amaury, Lincoln,
Juvenal, Maria Elisa, Ruth, Maria Stela,
Maria Célia, Néder, Chiquito, Zé Blusão,
Efigênia Perene, e muitos outros. Peço
desculpas aos que também faziam parte desta
lista mas que, por uma questão de idade, não
cheguei a sabê-lo. A mesma gratidão que
devemos aos criadores e mantenedores deve
ser estendida a eles. E não acabou por aí. A
maioria deles ainda iria continuar dando
exemplos, provando que seria possível
transferir-se para uma cidade grande e
conviver, com parcos salários de bancário,
tendo que assumir compromissos com pensões,
cursinhos, livros, transporte, etc., desde
que se vislumbrasse um futuro vencedor. E
este futuro chegou para todos.
Dona Mariquinha (mãe do Padre
João Bosco), com naturalidade e maestria,
passava-nos ensinamentos de Desenhos
Geométricos com tanta propriedade e vontade
que na hora da prova era ponto garantido,
Dona Diva e Dona Judith se incumbiam da
Matemática: álgebra, logaritmo, equações e
inequações, raiz quadrada, etc.,
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Casamento do Prof.Jayme Barcelos |
a gramática
que o prof. Jayme Barcelos nos passou
socorreu-nos em diversas situações no
futuro, o Prof. Ary Pinheiro (exemplo de
idealismo e autenticidade) deixou-nos
ensinamentos de História que até hoje moram
em nossas memórias: “hoje vamos falar
sobre Shakespeare”, ou, “hoje trataremos de
Catarina de Médici”, “a redação da prova
será sobre Rafael Sânzio”, “na próxima aula
vamos ver sobre a Guerra de Tróia", “hoje
será sobre o Coliseu de Roma”. Imprimia uma
seriedade tal em suas aulas que o
aproveitamento era geral.
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Prof. Ary Pinheiro e sua esposa
Rita Carvalho |
Certa vez ele
chegou, como sempre pediu alguém que se
dispusesse a limpar o quadro que continha
anotações da aula anterior, fez a chamada,
ficou de pé, enfiou a mão no bolso interno
do paletó dali tirando o seu maço de
cigarros marca Cairo, acendeu um cigarro e
falou: “Vamos entrar na parte mais
bonita do programa deste ano. Vamos falar
sobre Michelângelo Buonarotti. Estou
alertando vocês para fazerem o possível de
não perderem nenhuma aula pois o prejuízo
será muito grande. Precisarei de muitas
aulas para discorrer sobre toda a matéria”.
E começou a falar sobre Michelângelo. A sala
era toda ouvidos. Ninguém nem tossia. E ele
falava. E falava. E era com sabedoria e
empolgação que o fazia. Não era raro a gente
notar que ele se engasgava pela emoção,
emoção que passava para a sala. Chegou ao
ponto de um dia, quando o sino anunciou o
intervalo (do qual todo mundo gostava),
houve um sussurro geral numa nítida
manifestação de que aquela não era a melhor
hora daquele sino tocar. É que nesta aula
ele estava falando sobre a estátua de Moisés
que o Michelângelo esculpiu (aquela que
quando ele acabou, bateu o martelo na base
da estátua, com força, e bradou : PARLA -
fala). Mas, aula vai, aula vem, um dia ele
chegou e disse: “Estamos chegando ao fim do
programa sobre Michelângelo. Nas próximas
aulas falaremos sobre as suas pinturas na
Capela Sistina. Vou precisar de umas quatro
aulas para falar sobre este tópico. Mas não
percam porque é muito bonito”.
E realmente era. O professor
procurou falar pausadamente sobre cada
figura que está lá estampada no teto da
Capela Sistina. Para quem não sabe ou se
esqueceu, a Capela Sistina é um anexo do
Museu do Vaticano, é nela que se realizam os
conclaves para se eleger o novo Papa. E não
poupou detalhes: falou que o Michelângelo
pintava deitado, amarrado nos andaimes, a
centímetros do teto, falou de suas brigas
com o Papa que lhe encomendara os serviços e
que estava querendo dar palpites, falou das
vezes que abandonou os serviços e voltou a
fazê-lo, não por medo de retaliações mas por
amor à sua arte, falou de um religioso que “fofocara”
com o Papa de que Michelângelo estaria
pintando todas as figuras nuas e que o
artista, para se vingar, pintou o fofoqueiro
(está lá no teto para quem não acreditar),
próximo ao inferno, com orelhas de asno e
uma serpente rodeando-lhe os testículos. Era
uma aula bonita, era uma aula entusiasmante,
mas, era uma aula teórica. Sim. Teórica.
Porque a aula prática só viria muitos anos
depois e nela eu tinha como colegas pessoas
estranhas, de várias cidades, de outros
países, e não os meus colegas do meu
terceiro ano de ginásio; no lugar do
idealista Prof. Pinheiro eu tinha um guia
que mal falava o português, que nem sabia o
meu nome. Foi quando em outubro de 2003
estávamos na Itália. Quando eu entrei nas
ruínas do Coliseu, belisquei meu próprio
braço para ter certeza de que não estava
sonhando...
Aquele Coliseu que não era tão
bonito quanto o que apareceu no filme da
Metro, mas era o Coliseu original onde os
condenados se matavam para a distração dos
que estavam lá em cima, nas arquibancadas
que naquela hora estavam debaixo dos meus
pés; indo para o Vaticano, quando
entrei na Basílica de São Pedro e vi, a dois
metros de distância a escultura da Pietá,
protegida por um vidro de 2 cm. de espessura
(anteriormente um louco jogara sobre ela uma
barra de ferro), lembrei-me da empolgação do
Prof. Ary para falar daquela obra. Lembro-me
de quando ele disse que o escultor tinha
apenas 24 anos quando esculpiu a “Pietá”. Se
informações como esta não viessem de uma
fonte tão confiável, seria impossível
conceber que aquele primor de obra ali na
minha frente, tirado da pedra, fosse feito
por quem mal saíra da adolescência.
Lembro-me de que o professor, naquela aula
repetiu um pronunciamento do Michelângelo
quando um bajulador estava elogiando as suas
obras: “Eu não crio as obras. Elas já
estão dentro do mármore. Eu apenas tiro o
excesso.”
Desculpem-me estar aqui,
fazendo divagações com coisas particulares e
pessoais como minhas viagens. Prometo ficar
nestas duas. Citei-as já que há um vínculo
muito grande de tempo e espaço distantes,
correlatos com a minha juventude, a qual
estou tentando relatar.
Quando entramos na Capela
Sistina ficou bem claro porque o Professor
usou quatro aulas para falar sobre ela. E
ele só o conseguiu por ter associado
capacidade, altruísmo, emoção, idealismo.
Tenho comigo um livro que se chama “A Arte
Secreta de Michelângelo”. Entre muitas
informações, o autor passa a de que o
escultor estudava anatomia, para saber como
proceder nos contornos de suas obras. Isto é
plenamente justificável para quem teve a
oportunidade de ver, por exemplo, a estátua
original de Moisés.
Não foi menor a emoção quando
escalamos uma montanha até chegarmos ao topo
da cratera do vulcão Vesúvio, bem como
visitar as ruínas das duas cidades por ele
soterradas no ano 79 da nossa era: Pompéia e
Herculano. Realmente as viagens complementam
o que estudamos, principalmente Geografia e
História.
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