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Éramos felizes...
Contos e Crônicas
Zózimo
Franca Drumond
Capítulo 4 - Reuniões do Grêmio
- Gustavo
- José Alvarenga
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REUNIÕES DO GRÊMIO
Todos os domingos, após a
missa das dez horas, fazíamos a Reunião do
Grêmio Esportivo e Literário Policarpo
Moreira. Gustavo fez, com muita propriedade,
em seu conto “A missa das dez dos Anos
Dourados”, menção a isto. Gostei muito do
seu conto, apesar de não concordar quando
disse que eu “chorava a cântaros por um amor
perdido”. Ele bem sabia que às vezes, numa
festa eu ia às lágrimas, e sabia também a
razão. Ele só quis poupar-me da lembrança.
Mas, apesar de a reunião já ter sido tratada
por ele, permito-me também falar sobre ela:
o local era uma sala grande no Grupo E.
Bias Fortes. Os partícipes eram os alunos do
Colégio.
Ficava a reunião sob a direção da
Diretoria do Grêmio (na nossa época o
presidente era José Alvarenga,
posteriormente sucedido pelo Adair) que dava
por iniciada a sessão, nomeava o secretário
que iria elaborar a ata, lia a pauta do dia,
abria debates. Aí que o bicho começava a
pegar. Por exemplo, alguém lia
um texto de uma reportagem recente de algum
jornal (greve estudantil em B. H. ) Havia os
pedidos de apartes, críticas sobre a
gramática empregada (no escrito ou na voz de
quem estava comentando) – “aí ele empregou a
mesóclise inadequadamente”, “você está
cometendo um erro quanto à regência verbal”,
“a crase sim, é permitida antes de palavra
masculina quando esta sub-entender moda: ‘à
Luiz XV’”. E o negócio era “brabo”.
Falava- se de pé, gesticulando muito, em
alto som.
Havia também um desfile de
palavras “bonitas”. Zé Alvarenga e
Adair disputavam quem falava primeiro a
palavra “INDELÉVEL”. Quando um a falava
primeiro, o outro a substituía por “INDISSIPÁVEL”,
Modestino em todas as reuniões achava uma
oportunidade para soltar a sua “INEXORÁVEL”,
a Magda não se dava por rogada e ficava
atenta para alguém falar alguma coisa que
ela pudesse retrucar dizendo que aquilo era
uma “UTOPIA”. Eu aprendi que se indelével e
indissipável já tivessem sido usadas, teria
ainda a reserva de INDEFECTÍVEL, o Repolês
tentou introduzir um ÍMPROBO mas
desistiu. As palavras proparoxítonas são
perigosas, induzem ao erro quanto à
pronúncia e ficam horríveis quando se tornam
paroxítonas. Eu, como já nasci
proparoxítona, “num tô nem aí” para
elas. E, discussão pra cá, briga pra lá, se
não se chegasse a um consenso, só havia um
recurso: procurar o Padre Jairo. Sempre ele.
Virava e mexia e: “então vamos procurar o
Padre Jairo”. O Modestino era muito ardiloso
e antecipava as coisas. Durante a semana ele
elegia um tema, procurava o padre, pedia a
sua opinião, no dia da reunião lançava a
discussão e quando o padre era procurado,
saía todo vitorioso, rindo da gente. Nós só
descobrimos isto porque, em mais uma
investida sua, quando alguém sugeriu
procurar o Padre Jairo, uma voz, da janela
disse: “Eu estou aqui.”
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Rua do Rosário.Zózimo nasceu e
viveu sua infância na segunda
casa da direita |
Era ele mesmo que,
espontaneamente teria ido participar da
reunião. Quando a matéria lhe foi
apresentada ele, sem saber de nada, disse
que não precisaria de sua ingerência naquele
momento já que instruíra o Modestino, dois
dias antes, sobre aquele assunto. Ele fazia
aquilo por farra, por gozação. Se quisesse
usar o conhecimento que tinha de literatura
e gramática, ganharia todas as contendas.
Vou citar uma passagem muito interessante
que houve numa reunião, mas antes devo fazer
uma observação que depois todos entenderão a
razão: tínhamos um relacionamento
muito bom, relacionamento de respeito e
colaboração (de ambas as partes) com rapazes
de Alvinópolis que estudavam fora. Por
exemplo, era admirável a educação,
simplicidade, gentileza com que nos tratavam
o Afonso e Amilton Cota, nas reuniões
sociais. Não era de ninguém estranhar aquele
comportamento pois todos conhecíamos a
integridade e educação de seus pais. Mas
existiam rapazes de várias famílias e, como
tudo não é perfeito, havia um que (claro que
não vou citar o nome), primava por desfazer
de nossa escola, de nós mesmos, da cidade
(onde ele nasceu), chegou ao desrespeito de
dizer que nós, na nossa escola, estávamos
desaprendendo para no futuro não saber fazer
nada, etc. etc. Um dia, para nossa surpresa,
após a missa das dez ele se manifestou
desejoso a assistir a nossa reunião. A
princípio achamos bom, pensando que ali
estava a mudança do relacionamento. Qual
nada. Ele chegou, pediu licença (atitude não
própria dele), assentou-se na primeira
fileira de carteiras e ficou atento,
esperando a oportunidade. Zé Alvarenga deu
por aberta a sessão, passou alguns informes,
disse que antes de passar para os assuntos
da pauta, colocava a palavra em aberto, para
quem se dispusesse a falar alguma coisa.
Antes de ele acabar de falar, o xereta
(assim nós chamávamos, erroneamente, os
oferecidos, penetras, intrometidos, pois o
sentido correto é bajulador, adulador) já
estava de pé, em pose arrogante, com um ar
de rei no semblante e disparou: “sou aluno
da escola fulano de tal, tiro as melhores
notas, estou melhorando a minha qualidade
para ser um futuro profissional, com
certeza, com muito êxito, pa-ta-ti-pa-ta-tá
- pa-ta-ti-pa-ta-tá.”. Começou-se um
mal-estar, começamos a ficar apreensivos,
víamos a possibilidade de, ali “nas
nossas caras”, ele repetir as blasfêmias
de que era contumaz. Ficamos preocupados de
como seria o desfecho daquela reunião se ele
ousasse tanto. E tudo caminhava para a
ousadia. E se ele falava, na nossa ausência
o quê não devia, ali ele não falaria.
Afinal, a Escola era o nosso presente, o
nosso futuro, o nosso patrimônio, o nosso
orgulho, a nossa esperança.Os seus
fundadores, a quem tanto devíamos e
admirávamos, teriam vergonha se deixássemos
a covardia sobrepujar as nossas vontades. E
covardia não fazia parte dos nossos
dicionários. Nesta hora, todos ficamos
atentos para, no seu menor deslize,
tomar-lhe a palavra e encerrar aquele
momento de apreensão. E, como era de se
esperar, o deslize não tardou. Ele, que já
havia falado muito de si, começou a
enaltecer as qualidades de um seu irmão:
“meu irmão, como todos da minha casa, é
inteligentíssimo, sempre tirou as melhores
notas. Em avaliação a que foi submetido
descobriu-se que o Q.I. do meu irmão é
1500”. Pronto. Era do quê precisávamos. O
primeiro deslize.
Até então, estávamos todos
silentes, prestes ao bote. Comecei a
levantar-me mas no meio do caminho senti que
era tarde. Gustavo foi mais rápido no
gatilho e já estava de pé, dedo em riste e
tal qual Cícero, no ano 63 a. C. disparara
contra Catilina, também ele, com seu
vozeirão disparou o primeiro torpedo contra
o xereta:
“QUOUSQUE
TANDEM CATILINA ABUTERE PATIENTIA NOSTRA?”
O xereta disse: não
entendi. E Gustavo continuou a torpedeá-lo:
“Claro é que vós não
entenderíeis o que é sério já que só se
preocupais com futilidades. Portanto mando a
vós duas traduções: a primeira, que é a
original: ‘Até quando, Catilina, abusarás da
nossa paciência?’ e a segunda, a vulgar, que
é de que entendeis: ‘Até quando, oh
imbecil xereta, enchereis o nosso saco?’”
Naquela hora, as moças
começaram a tremer e passaram a dar um sinal
para o Gustavo como que estivessem querendo
dizer que já bastava. O Gustavo (que não
estava a fim de parar, virou-se para mim e,
apenas pelo olhar entendi que ele estava
indagando-me: “paro ou continuo?”
Eu aproximei-me dele e
sussurrei ao seu ouvido: “Mete os ferros
ou passe-me a palavra” Era o que ele
queria.
E toma torpedo:
“Sem que fostes convidado,
adentrastes este recinto, tornando-o impuro
e fétido com vossa presença asquerosa e
vossas insinuações tendenciosas,
inverossímeis, arrogantes e intempestivas.
Em vossas colocações, não reconhecestes
Sócrates quando este afirmou que ‘A
verdadeira sabedoria consiste em reconhecer
a própria ignorância.’ Quando afirmastes
que vosso irmão é portador de Quociente de
Inteligência 1500, cheguei à conclusão que o
vosso Q.I. também deve ser elevadíssimo.
Deve ser um Q.I. 5000. Sim, porque, no vosso
caso, Q. e I. têm outra conotação, ou seja,
Quantidade de Ignorância. Dizei a vossa
Grande Escola que a nossa escolinha
sugere ensinar-vos que, quando no
princípio do século XX, o francês Albert
Binet e seu colega Pierre Simon criaram um
instrumento para se mensurar a inteligência
humana, deram-lhe o nome de Quociente de
Inteligência e concluíram que a tabela teria
uma escala variando de 74 para os
infradotados, até l26 para os superdotados.
Colocai o terminal caudal entre as
canículas, desocupai este recinto sem a
saída triunfal que pretendíeis e, agora sim,
estais convidado para aqui nunca mais
comparecerdes.”
Hoje a Psicologia não mais
adota o mecanismo do Q. I. criado pelos
franceses, sob a premissa de que a
inteligência pode ser trabalhada, mudando,
assim, os parâmetros.
Bem, da fala do Gustavo eu
paro por aqui, mesmo sabendo que ele ainda
não parara. Afirmo que não fiz a citação
acima em represália àquele rapaz que quis
denegrir a nossa cidade, a nossa escola, a
nossa condição. Acho que aquela era uma
postura de alguém que não teve como nós, o
ensinamento de que somos todos iguais e que
uma das grandes virtudes do ser humano é
respeitar a outrem. Tenho certeza de que a
escola da vida já deve tê-lo ensinado.
Pessoas que sem motivação tratam os
outros com desdém, são dignas de
dó. Respeitei-o não citando seu nome nem
dando detalhes que pudessem levar à sua
identificação, todavia, em nome do respeito
a ele, não poderia deixar de divulgar mais
esta faceta da nossa juventude.
Certa vez eu
estava em passeio ao sul do Brasil, mais
precisamente, nas Serras Gaúchas. Era
passeio de um grupo. Num determinado dia,
conversando com um senhor, a uma altura da
conversa ele “soltou” que era
cardiologista em Belo Horizonte.
Instintivamente eu disse que tinha um amigo
cardiologista em Belo Horizonte ao que ele,
imediatamente, perguntou o nome. Quando eu
citei o nome ele parou, olhou pra mim e
disse: “Conheço-o. Trata-se de um dos
grandes cardiologistas do Brasil”. Pois é
minha gente. Pense comigo. Possivelmente
este “um dos grandes cardiologistas do
Brasil” estaria lá naquela reunião onde um
xereta qualquer iria desfazer da sua
presença, subestimar o seu futuro, não fosse
o Gustavo partir a sua fala com tanto furor
quanto Cícero o fizera contra Catilina que
se rebelara contra o Senado Romano,
aproximadamente 20 séculos antes. E vejam as
correlações que a vida se nos reserva:
Cícero foi considerado o maior orador
romano; Gustavo, a partir daquele dia, foi
considerado o melhor entre nós. Atentem-se
para a sua ousadia em manter uma oração,
de improviso, na segunda pessoa do
plural, inclusive na hora que mandou o
xereta enfiar o rabo entre as pernas:
“colocai o terminal caudal entre as
canículas”, Cícero o fizera, como já
disse, rebatendo a uma atitude injusta,
Gustavo também; Catilina nunca mais foi
visto em Roma, o xereta sumiu do pedaço. O
xereta foi muito sem sorte porque Gustavo
havia acabado de ler uma das quatro
catilinárias, orações de que Cícero usou
para se insurgir contra Catilina. O
oferecido saiu sem olhar para trás. O
silêncio que era total foi quebrado por
Paulinho Barcelos que, passados alguns
segundos, disse bem lá do fundo da sala:
TOMOU PAPUDO? Aquela intervenção do Paulinho
foi boa para relaxar os ânimos. Os nervos
estavam à flor da pele.
Todas as
janelas da sala foram abertas pois, naquela
época fumava-se em ambientes fechados e a
tensão esvaziara vários maços de cigarro.
Houve um intervalo. A Wanda aproveitou para
ir à sua casa e voltou com um copo de água
com açúcar para o Gustavo. Ele realmente
precisava de um calmante. Todos voltaram à
sala. Zé Alvarenga disse: “seria pouco se eu
ficasse o resto do dia agradecendo a defesa
que o Gustavo prestou a todos nós, naquele
momento indelével, por isto eu vou
simplesmente dizer: Gustavo, você é o maior
patrimônio do nosso Grêmio.” Outros disseram
que era uma “reunião indissipável” outros
que era “inexorável”, outros,
“indefectível”, outros que “não seria uma
utopia afirmar que Gustavo se equiparava a
Cícero”, etc...
Bom. Eu disse
anteriormente, de vez em quando puxaria um
nome da Turma para falar sobre ele. Então
vou continuar falando sobre Gustavo.
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GUSTAVO
Além da
determinação citada anteriormente, ele tinha
várias outras virtudes. Uma qualidade,
porém, era a com a qual a gente ria muito:
ele era muito exagerado. Ele ia tomar
sorvete e tomava trinta. Todos, de vez em
quando, brigavam com a namorada, ele, todo
dia. Todos, de vez em quando reatavam, ele,
todo dia. Todo mundo comprava um chapéu para
ir pescar, ele, meia dúzia. Todo fumante
fuma muito no parto do primeiro filho, ele
que nunca havia colocado um cigarro na boca,
fumou um pacote. Um dia a briga com a
namorada teve sinal de definitivo e ele foi
para casa pensando um jeito de fazer ciúmes
nela. Pensou muito. Lembrou-se de que estava
hospedada na casa de Mariângela uma irmã do
Repolês, muito bonita, muito educada, etc.
Pensou: vou lá, converso um pouco e as
“línguas” se incumbem de fazer a divulgação.
No dia seguinte, levantou-se à 06:30, tomou
o “breakfast” e partiu para o Gaspar. Lá
chegando, foi informado pela Mariângela que
a moça fora embora no dia anterior,
aproveitando uma carona de um primo.
Perguntem-me se o Gustavo virou as costas e,
imediatamente partiu, a pé, para Sem
Peixe. Se eu não estou enganado a distância
é de aproximadamente 40 quilômetros. Às
l6:30 o Repolês e seu pai estavam na varanda
e viram um vulto se aproximando. Quem seria?
E ele foi se aproximando.
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Gustavo |
“Está
parecendo o Gustavo.” Aproximou-se mais.
Despenteado, suado, com os dois sapatos
pendurados na mão, um deles com a sola
virada (não resistiu à parada) uma calça de
duas cores - do joelho para cima era azul,
do joelho para baixo (divisa de um “degradèe”)
uma cor avermelhado-fogo, duas dobras na
bainha, muita bolha no pé, muito mau humor
para quem estava visitando.
“Ô Gustavo, o
quê você está fazendo aqui? Que bom você
vir!”
“Eu estava
indo para Ponte Nova, o ônibus quebrou lá na
encruzilhada e eu resolvi...”
“Gustavo,
fala a verdade.”
E ele falou.
E disse ainda: “Arranjem-me um copo d'água
porque estou voltando”.
Convenceram-no a ficar. Entraram,
cumprimentos, casos, etc., etc. A D. Lica
(mãe do Repolês) perguntou se ele já havia
jantado e ele disse que sim. Mas Repolês,
que conhecia a fera, falou com a mãe: não
jantou e nem almoçou. Ela, então disse: “O
nosso ritmo de alimentação aqui é igual ao
de roça, ou seja, almoço até as 10 horas e
jantar até as 15 horas. Vou então fazer algo
como um arroz, ovo, verdura, legume, está
bom?”
“Está ótimo.”
Ela foi para
a cozinha e quando estava a caminho,
lembrou-se de um detalhe, voltou e
perguntou:
“Você gosta
de ovo mais firme ou mais mole?”
“Podem ser
seis mais firmes e seis mais moles e os
demais como a senhora achar melhor.”
Uma vez uma
mulher da roça, muito feinha, chegou brava
lá no estúdio dele: “Eu vim devolver o
retrato, está muito ruim, estou muito feia”.
“Com uma cara
desta a senhora quer tirar retrato bonito?”
“Quanto que
você cobra para fazer um serviço ruim
assim?”
“Eu só vou
responder se me disser quanto que a senhora
cobra para assombrar uma casa de dois
quartos, sala e copa.”
Às vezes fico
pensando que o Gustavo, se algum dia atuasse
em um júri, acusando um réu que tenha
cometido daqueles crimes hediondos que
provocam comoção nacional, ele esgotaria
todos os Títulos, Artigos, Incisos, Alíneas,
Parágrafos da Constituição, dos Códigos
Penal, Civil, Tributário, Comercial,
Estatuto do Idoso, Tabela do Imposto de
Renda, Alcorão, Tábua de Logaritmo, e, ao
fim, ir-se-ia aparecer uma Jurisprudência
para dirimir casos não previstos na Lei
Material, e o fim da sentença seria mais ou
menos assim: “... e, na
qualidade de representante desta Corte, e
atendendo o que foi provado nos autos, os
ditames que norteiam o direito, a lei e a
minha consciência, condeno o réu a 30 anos
de prisão, em regime fechado, mais 3 anos
por não dar oportunidade de defesa à vitima,
mais dois anos por ter unha encravada, mais
três anos por estar de camisa xadrez num
júri, mais quatro anos pelo fato de o seu
vizinho da direita estar desempregado e o da
esquerda chamar-se Judas...”
Existe muito
mais sobre ele mas vou parar por aqui senão,
no seu próximo conto ele, vai à forra.
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JOSÉ ALVARENGA
Ele tinha 13 anos e eu 11,
ele estava terminando o primário e eu
iniciando, ele estudava de manhã e eu à
tarde, ele jogava no juvenil e eu no
infantil, ele soltava papagaio no Rosário na
parte da tarde e eu de manhã. Toda essa
semelhança de sol e lua por uma simples
diferença de três anos. Mas o tempo foi
passando e a diferença, ainda que se
mantivesse em números absolutos, se diminuía
em números relativos e, de repente ele era
um jovem e eu também.
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Zózimo e Zé Alvarenga na famosa
lambreta |
Começamos a participar dos
mesmos passeios, das mesmas reuniões, das
mesmas pescarias, dos mesmos bailes e nos
tornamos colegas, companheiros e amigos. E
que amigo era o Zé Alvarenga! Destemido,
determinado, leal com todos, dinâmico,
valorizador da cultura. Mostrou-nos
qualidades como ator, líder estudantil,
solidário com as pessoas, honesto com a
sociedade, pontual com seus compromissos.
Deixou-nos prematuramente. Guardo comigo
duas coisas que ganhei dele: um retrato em
sua lambreta, na qual estamos posados lá na
praça do Gaspar, e um long-play, vinil, do
Nat King Cole, que contém músicas que se
transformam em hino de época, trazendo à
lembrança a saudade de um passado que não
deveria passar. A memória está instalada no
cérebro mas, quando a lembrança envolve
saudade, aquela se transfere para o coração.
Esta é, saudoso Zé Alvarenga, uma das duas
maneiras que me lembro de você; a outra é em
minhas orações.
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