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Éramos felizes...
Contos e Crônicas
Zózimo
Franca Drumond
Capítulo 6 - E a vida continua ...
- Sapataria do Tone
- Serenatas
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E A VIDA CONTINUA ...
E o semestre ia andando. Mês
de maio, o Industrial comemorava a data de
sua fundação e com a tradição do futebol e o
baile. Fugidas na hora do intervalo no
Colégio (duas aulas, intervalo de 20 minutos
e mais duas aulas) para uma ida rápida lá no
adro da Igreja Matriz, conferir, nas
barraquinhas, alguma novidade;
segundo domingo do mês, Dia das Mães: de
dia, sessão cívica no Cine Alhambra, para as
mães comemorarem o seu dia, à noite, baile
no clube para os “filhos das mães”
comemorarem a vida.
Chegava então o mês de junho.
Teríamos que reciclar nossas agendas.
Naquele mês havia as provas no Colégio, para
encerrar o semestre. As notas destas provas
tinham o mesmo peso das do fim do ano. Seria
muito temerário não tirarmos boas notas.
Precisávamos entrar no segundo semestre com
uma boa média. A Sapataria então estava
riscada dos planos para o mês. E
debruçávamos sobre os livros na parte da
manhã e à tarde. O resto era intocável. No
mês de junho, apesar do aperto estudantil,
tínhamos uma festividade social muito bonita:
os Bailes de Festa Junina.
Muito chapéu
de palha, muita camisa xadrez, muita botina
(riúna), muita quadrilha, muita alegria.
Houve um ano que a Guilhermina Moreira
assumiu a direção desta festividade, cujos
rendimentos seriam doados para o Hospital
Nossa Senhora de Lourdes. Foi uma das mais
bonitas festas de Alvinópolis. Os ensaios
(que já eram uma grande animação) começaram
dois meses antes. Dança da fita, dança do
chapéu, casamento na roça, quadrilhas, tudo
ensaiado com muita responsabilidade. Houve
necessidade de, durante a semana,
estabelecer-se dois horários de ensaio: um
das 20:00 às 22:00, para a juventude que não
estudava, e trabalhava na fábrica no dia
seguinte, cedo; outro de 22:15 às
24:00, para os estudantes que tinham as
aulas ou provas terminando às 22:00. Os
ensaios de sábado e domingo eram uma reunião
das duas turmas (estudantes e
não-estudantes), sempre das 19:00 às 23:00.
A festa foi um sucesso total.
Acabavam-se as provas. Boas
notas, de um modo geral. Teríamos pela
frente um mês para merecido descanso. O
programa de férias anteriormente citado para
o mês de janeiro se repetia, acrescentando
alguns programas que não foram lembrados: à
tarde era comum irmos para a Casa Paroquial
onde o recém-chegado Padre João Bosco Franca
Pimenta, de uma tremenda habilidade para
lidar com jovens, nos recebia de braços
abertos. Ali aprendemos muita coisa sadia.
Chegamos a ensaiar, para apresentar como
peça teatral o “Pequeno Príncipe” de Antoine
Sant Exupéry. Lá ouvíamos música (muita
música clássica) líamos muito, jogávamos
vôlei no adro e ping-pong na garagem.
Excelente lembrança. Teatro era uma
atividade que exercíamos, graças a uma
herança que recebemos de um grupo de
atores e atrizes amadores, de Alvinópolis.
Incentivados e orientados pelo Padre Jairo,
um grupo de jovens de geração anterior à
nossa, fundou o Grêmio Artístico e Literário
“Stella Maris”, que exibiu, de maneira
brilhante, várias peças. A que fez mais
sucesso foi “Maria Stuart”. Lembro-me de
alguns nomes daquele grupo: Zizi, Ênio,
Zezito Cadeña, Sebastião Drumond, Marcelo de
Clodomiro, Juarez, Zito Prímola, Meire,
Maria Elisa, Ruth, Maria Stela, Maria Célia,
Mauro Duarte, Dora, Marília, Maria Marta,
Maria Lacerda. O Quito de Tote e o Zé
Alvarenga também faziam parte daquele elenco
e eram os mais jovens entre eles. Com a
extinção do Grêmio, estes dois últimos
trouxeram o conhecimento para nós e passamos
a ensaiar peças e apresentá-las
periodicamente.
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Teatro em Alvinópolis |
À tarde, quando o sol já
estava caindo, já prontos para a
hora-dançante, juntávamos na caixa d’água e
ali ficávamos conversando até a hora de
irmos para o clube. E era bom. Os clubes
mais cheios. As moças lá com as suas
alegrias e simpatias.
E o mês ia passando e
necessário se tornava uma providência:
o baile mais esperado do semestre estava
chegando, ou seja, o Baile de Aniversário de
Fundação do Alvinopolense. Muita divulgação,
muita organização, muita gente aguardando. A
primeira providência da Turma era pegar o
terno e levar para lavar no Nonô Selado
(assim se chamava o único profissional que
se incumbia dessa missão, lá residente).
Cada um tinha um terno, só Bené Classe tinha
dois, um azul anil e outro bege; o de Adair
era preto com listas, o de Avanir era um
azul-claro (muito brilhante para o meu
gosto), Duducho tinha um cinza, Gustavo,
azul-marinho, Dadico, um cor de chumbo. Era
assim: havia aqueles que tinham um
terno, havia Bené que tinha dois e havia
Zózimo. Estranho? Para explicar, vou ter que
fazer mais uma divagação.
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Momento de confraternização em
Baile de Formatura.
Da esquerda p/direita: Repolês,
Mariângela, Geraldo, Consolata,
Marcello e Marilda Moreira,
Zózimo e Marilda Drumond, Adayr
e Maria Geralda, Nôca e Penha.; |
Em tempos recentes, fui
procurado por uma colega do Tribunal, muito
alegre porque seu filho estava formando em
medicina, para entregar-me o convite. A
festividade de entrega de diplomas foi no
Mineirinho e, do serviço mesmo dei uma
passada por lá. Cumprimentei a todos e
quando estava me despedindo, novamente a
colega apareceu-me e disse-me que eu estava
convidado, compulsoriamente, para ir
à recepção que eles estavam promovendo para
os amigos. Realmente a recepção não estava
nos meus planos mas, diante da alegria e
simpatia dela, mudei mais uma vez de rota.
Lá chegando, ainda estava estacionando o
carro e uma voz indagou-me: “O quê você está
fazendo aqui ?”
“Eu é que pergunto: o quê
você está fazendo aqui, Avanir?”
Eu disse a
minha razão e ele apresentou a sua, que era
ser tio da namorada do formando. Presenças
justificadas, sentamo-nos e disparamos
conversa fiada. Todos os sobrinhos do Avanir
(meninos e meninas de no máximo 14 anos),
rodearam-nos e morriam de rir dos casos. E
desenterramos todos. Quem mais ria na festa
éramos nós. Quando o Avanir citou o caso dos
ternos serem lavados no Nonô Selado, deu-lhe
um “de repente” e ele disse-me que a
hora era boa para eu esclarecer uma coisa:
“Eu estava há dias conversando com o
Adair, lembramo-nos da nossa juventude, dos
casos e a uma determinada hora ele
perguntou-me: você tem explicação para
aquele desfile de ternos que o Zózimo fazia
lá, enquanto nós sempre repetindo os nossos
humildes, surrados e cansados ternos?”
Eu não estava
preparado para aquela indagação. Levei um
susto e dei a maior risada. Até que enfim
chegou a hora da verdade. Como e quantas
vezes eu tive medo desta pergunta ser-me
feita naquela época! E como eu estava
achando bom o Avanir questionar-me agora!
Aquele desfile de ternos, aquelas gravatas
italianas, aquelas camisas de linho ou
seda-pura, aqueles sapatos “Fox” ou “Scatamarchia”,
os mais variados blaisers nas mais variadas
cores, contrastando com calças especiais
para o conjunto. Vejam bem, até que enfim,
em l997 alguém resolveu “levantar a lebre”.
Vou parar de
fazer sensacionalismo e contar a verdade. O
meu irmão mais velho (já falecido) tinha um
gosto muito bom para trajar-se, diria até,
vaidoso. Era gerente de um banco que exigia
deste nível de profissional uma apresentação
impecável. Ele recebia, além do bom salário
compatível com o cargo, uma ajuda de
custo para traje. Isto é “jogar sapo
na água”. Como resultado ele tinha
sempre dois guarda-roupas abarrotados de
ternos, blaisers, calças, etc. A
conseqüência era a melhor possível. Ele
estava sempre substituindo usados por novos
e eu sempre o auxiliando na desova.
Realmente eu tinha muita roupa social.
Tudo escolhido a dedo, roupas feitas em
excelentes alfaiates de Belo Horizonte, moda
atualizada. As roupas chegavam para mim em
estado de novas e os manequins eram os
mesmíssimos. Caimento para não deixar nada a
desejar. Eu morria de medo de algum dia
alguém fazer a pergunta fatal e eu ter que
falar que era de segunda-mão. Mas
eles admiravam, olhavam “de banda”,
cochichavam, mas nunca perguntavam. Houve
uma vez, numa semana-santa, o irmão foi
visitar-nos. Quando eu soube que ele ia
chegar, deixei um terno no guarda-roupas,
escondi os outros e fiquei esperando.
-E aí? Como
é que estamos de roupa?
Abri o
guarda-roupas e mostrei o único. O anzol
estava lançado. Era só esperar. Ele foi
embora. Passei algumas vezes em frente ao
Correio e na quarta vez, lá de dentro a
Célia acenou-me: “Há um registrado
para você.” (registrado é o nome que se dava
à postagem que só era entregue
contra-recibo). Assinei o recibo e fui
embora. Tive vontade de violar o embrulho
ali na rua mesmo. Não o fiz. Resisti. Um
embrulhão. Cheguei em casa e abri-o. Neste
embrulho estava o terno mais bonito que eu
já tive na minha vida. Era de uma cassemira
incorpada, cor verde-petróleo, modelo
jaquetão (aquele paletó que ao se abotoar as
partes traspassam-se), com quatro botões
grandes, dourados. Junto, a camisa de
cambraia num tom verde-água e uma gravata
que, também num tom agreste, permeava o mais
forte e o mais fraco. Eu fiquei boquiaberto
na frente daquele conjunto. Além deste,
havia um terno de tropical inglês, numa cor
chocolate e um blaiser cor areia. Neste dia
fiquei com estoque para ir a muitas festas,
sem repetir.
E estava
próximo o baile famoso. E chegou o dia. Como
sempre, futebol à tarde. Agora lembrei-me de
um detalhe muito interessante, que estava “passando
batido”. Os rapazes que jogavam futebol,
na hora do footing (não todos, eram
sempre os mesmos), apareciam devidamente
engravatados e mancando muito. Aquilo era
uma vaidade como que estivesse ali um grande
defensor das cores do clube, e que lutou com
tal destemor, que se contundira. Toda vez
isto se repetia. O Dinho era o mais trágico
e o que mais usava esta estratégia. Às vezes
nem tinha sido escalado para jogar mas, à
noite estava lá puxando de uma perna e
fazendo contorções faciais, simulando dores
horríveis. Um dia ele não se deu por
satisfeito e foi além. Foi para o Hospital e
atormentou a Irmã Eva até que ela cedeu ao
seu pedido. E, à noite, aparece-me o Dinho,
contorcendo em dores, apoiando-se em apenas
uma perna e um par de muletas. Mas ele não
foi muito feliz. Como sempre acontecia, a
luz do Clube se apagou. Todos sabiam o
“macete”: pegar um bambu na casa de
Dico Gama e acionar um fusível que dava mal
contacto, no poste em frente. O executor,
por engano, atingiu uma caixa de maribondos
próximo ao fusível. Os bichos desceram na
hora. Todo mundo correndo. O Dinho jogou as
muletas longe e deu uma esticada “cantando
pneus” rua acima que em poucos segundos
eu só vi o paletó dele sumindo na esquina de
Dodô. No campo ele não conseguia correr
tanto. Nunca o vi correr tanto.
O baile
transcorreu dentro da normalidade, muita paz
e muita alegria.
E o semestre
foi passando. Em setembro, muitos dias de
ensaios após as aulas, para no dia sete o
desfile ser bem sucedido. Outubro, se não
aparecesse uma festa inesperada, a
programação seria leve, a rotineira.
Novembro, a partir da segunda quinzena
preocupações e preparativos para as provas.
Dezembro dois bailes muito esperados também:
o de formatura do colégio e o de
reveillon.
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A SAPATARIA
DO TONE
Pertencia ao
Tone que não gostava de ser chamado de “Tone
Anemia” e nem gostava que a gente chamasse o
seu estabelecimento de “Sapataria Fulengo”. O Tone era o proprietário e tinha como
ajudantes o Tatão, o Pateca e o Zé de
Nhozito. Funcionava num cômodo comercial que
havia na frente da casa do Nhozito.
Freqüentávamos a Sapataria (éramos chamados
“Sapos”) diariamente, sempre após o
almoço pois a parte da manhã era reservada,
religiosamente, para estudar. A Turma
era grande, logo, não havia lugar para se
assentar, mas a gente improvisava: um
caixote, um rolo de couro, um tijolo e ...
o chão. Mal chegávamos e o Tone estava
voltando do almoço. Com a cara fechada, dava
um boa-tarde, retirava a aliança do dedo,
(era noivo), dava-lhe um beijo e a guardava
na gaveta, fazia o sinal da cruz e, de
cabeça baixa e cara fechada, começava a
trabalhar. Lá do cantinho, um gritava, com a
voz disfarçada: Sapataria Fulengo !
- “É a mãe”- bradava Tone
Risos,
entreolhares, insinuações, piadinhas e:
-“Fulengo”
-
“Vocês vão deixar-me trabalhar? Aqui não é
casa de mãe-joana, não, pombas. Pode todo
mundo ir embora!”
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"Sapataria do Tone" - Tone,
Mauro, Pateca, Adair, Zé,
Zózimo, Cuíca e Sudário. |
Mas a gente
não ia. Para não complicar, nos próximos 10
minutos a gente fazia um silêncio.
Entreolhares maliciosos e aquele silêncio
incomodando. Aí, o Lete não conseguia
controlar-se e, totalmente vermelho, com a
mão tampava a boca, gesto que não conseguia
mascarar o seu riso. Um, lá do outro canto,
aproveitando que o riso do Lete desviou a
atenção, gritava: “Fulengo”
Quando ele
tinha muito compromisso de entrega, ele
chegava, admitia a entrada dos seus
ajudantes, fechava as portas. A gente ficava
no passeio, fazendo o maior “burburinho” e
de vez em quando: “Fuleeeeeeeeengo”
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Em frente a Sapataria "Fulengo". |
Houve uma vez
que, quando vimos que ele não ia mesmo abrir
as portas, lá de fora demos um ultimato para
ele: “ se esta porta não se abrir nos
próximos minutos, nós vamos embora e
ficaremos 30 dias sem aparecer aqui”
Minutos depois ele abriu a porta e disse:
podem entrar, mas o primeiro que fizer uma
gracinha aqui ....
Combinamos e
entramos no silêncio total.
As moças da
cidade, sempre que tinham que levar algum
sapato lá, para consertar, o faziam na parte
da manhã pois, em hipótese alguma, entrariam
lá na parte da tarde.
Quando, uma
vez por mês ele ia a Ponte Nova fazer
compras de couros, nós fazíamos o maior
batuque lá. O Zé, que é ótimo baterista,
pegava uma suvela e um punção que serviam de
baqueta e a mesa de serviço recebia as
pancadas. Era um ritmo fenomenal. No dia
seguinte, quando o Tone chegava, algum
vizinho fazia a fofoca e ele fechava a cara
de novo.
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SERENATAS
Esta
atividade, exercíamos, normalmente aos
sábados e, raramente, no meio de semana
desde que o dia antecedesse um feriado ou,
dentre as moças de nosso relacionamento,
estivesse alguma aniversariando. Ninguém
sabia tocar nada. Eu “arranhava”
muito mal uma gaita. A gente convidava o
Sebastião de Tereza (violão) e o Hernane
(pandeiro) que, a troco de um maço de
cigarros, acompanhavam-nos à noite inteira.
Para as de sábado, o programa era
invariável: primeiro íamos ao cinema,
depois do cinema, hora-dançante que
terminava , mais ou menos às 24:00 hs. As
moças eram avisadas que haveria serenata e
então iam para casa preparar lanches e
vinhos que deixavam nas janelas para nós.
Saíamos do Gaspar, subíamos o Beco da
Canjiquinha, passávamos pela rua do Sapé,
Rua do Bobo, uma estrada que passa atrás do
Cemitério e chegávamos na Rua de Baixo.
Invariavelmente lá começávamos. Casa do Sr.
José Américo, casa do Sr. Lana, casa do Sr.
Juca Cota, Dona Alódia, Dona Tita, Casa de
Dona Castivilha, Dona Marina, etc..
Havia uma
música que a gente cantava a primeira parte
e assobiava a segunda . (Vento que balança,
as palmas do coqueiro ...) Tínhamos o hábito
de levar balas de hortelã que limpavam a
garganta. Pois bem. Cantamos a primeira
parte e quando fomos assobiar a segunda, a
bala estava me incomodando no lado direito
da boca. Sem parar de assobiar, fui passá-la
para o lado esquerdo e quando ela estava no
centro da língua, o fluxo provocado pelo
assobio a fez sair e cair dentro do bolso
da camisa do Bené Classe. Acabou a serenata.
Todo mundo ria sem parar e bastava fazer a
introdução da próxima música e os risos
incontroláveis apareciam.
Uma vez, num
mês de maio, 02:00 hs, estávamos subindo a
antiga Avenida (que não tinha nenhuma casa)
uma cerração que não dava visibilidade de
além de cinco metros, um frio de bater
queixos, pára perto de nós uns quatro
carros. Ficamos curiosos e logo em seguida
veio a explicação: tratava-se de um coral de
amadoras – mais ou menos 12 a 15 moças – que
haviam dado uma apresentaçao em J. Monlevade
e estavam indo para Ponte Nova onde iriam
fazer uma apresentação num Colégio, no dia
seguinte.
Como que tivessem ensaiado, sairam
do carro já cantando “En la orilla del mar”
na maior afinação e entonação, e fomos,
juntos subindo. A próxima foi “Aquellos
ojos verdes”. Àquela altura o Sebastião de
Tereza ameaçou empinar o violão para tirar
uns “acordes” e nós, com cuidado para não
afetar a sua humildade, o convencemos que
num coral de voz, o violão e o pandeiro não
ficam bem.
Quando estávamos passando em
frente à casa do Dominguinho, a música era
“Noche de Ronda”. E foi por aí afora. As
janelas todas se abriam, as luzes acendiam e
nós acompanhando aquele espetáculo
romântico. O grupo não parava e cantava em
determinada casa como era o nosso costume.
Ia andando e cantando. Quando passamos em
frente à casa do Sr. José Américo Cerqueira
(da Estrada de Ferro) convencemos o coral a
dar uma parada em frente à casa pois a Maria
José, sua filha, era paquera de alguém da
Turma. Nestas alturas, já se aproximavam as
04:00 hs. O Sr. José Américo acendeu todas
as luzes, insistiu em que subíssemos para a
sua casa (ali próximo à entrada do Sítio do
Chico Soares) . Muito vinho, muito salgado e
muita música de alto nível, até o dia
clarear, quando os motoristas das moças as
convenceram que não dava para continuar.
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Até o dia clarear.... |
Mesmo assim conseguimos convencê-las de que
a cidade estava acabando, faltava só a rua
São José e as seguimos, a pé, com elas
entoando mais músicas, até atingirmos o
início da estrada. A nossa sorte é que, como
disse anteriormente, tratava-se de um grupo
amador (se não estou enganado, de S.João Del Rey) pois, se fosse profissional, não iria
fazer nada além de dar-nos um banho de
poeira produzido por quatro carros.
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