Bons tempos de Carnaval

 

 

Frederico Ozanan Barcelos

 

 

Carnaval em Alvinópolis - 1925

 

 

Só mesmo parafraseando o poeta Oswaldo André de Melo, na antologia “Alvinópolis e Literatura”, ao falar do nosso teatro :

“Ah, o Carnaval de Alvinópolis na lembrança dos mais velhos ... “.

 

Sim, um Carnaval sem a descontração de hoje, mas nem por isso menos animado. Afinal, havia os limões de cheiro (substituídos mais tarde pelo lança perfume); havia os corsos, as batalhas de confetes, os Zé-Pereiras e as marchas e os sambas de Sinhô, Donga, Heitor dos Prazeres, Ary Barroso, Noel...

 

Por décadas e décadas o alvinopolense brincou animadamente o seu Carnaval.  Acredite : em seus clubes e ruas já foram vistos pulando alegremente, desengonçadamente, democraticamente, um faraó e uma Chiquita Bacana, um pierrô e uma nega-maluca, um palhaço e uma casta Suzana, um pirata e uma colombina, um índio e uma Dama das Camélias, um arlequim e um tirolesa, um broto e uma balzaqueana, um General da Banda e uma Maria Escandalosa, um carega e uma nega-do-cabelo-duro.

Cada qual com sua cor: branca, preta, loura, mulata, morena, não importa. Fizesse o tempo que fosse: sol ou chuva, vento ou mormaço, frio ou calor.

 

Bloco das antigas. Alvinópolis - Anos 50

 

Nos quatro dias de folia aconteceram coisas aqui que até Deus duvida.

Falam, por exemplo, que, num antigo sábado de 1952, no Industrial Sport Club, uma odalisca  só sabia repetir assim para seu chinês : “Acho-te uma graça!”.

Outros dizem que no Alvinopolense, numa mesa de canto, em meio a muita serpentina – era uma terça de Carnaval, pouco antes das 3 horas-, um marciano se derramava em juras de amor para  uma sereia, e que, no Original, num domingo à tarde, havia muita gente pensando que cachaça era água.

Não pode ser verdade. Se fosse, esse Carnaval daqui seria mesmo um Carnaval, muito, muito louco...

 

O certo é que a alegria aqui sempre pediu passagem, todo bloco gritou "Ô abre alas", cada folião levou na ponta da língua o samba do pé, apenas porque era carnaval e na quarta-feira a vida voltava ao normal.

 

Orquestra do Sr. Tanico - 1958

 

 

Por esses espaços e por esses climas, corpos suados envolveram carros alegóricos e alas,

e o cheiro de éter e álcool inundou o ar. As emoções ficaram leves e soltas nas fantasias, nas máscaras, nas brincadeiras de rua e de salão.

Aqui todo mundo, nos sagrados dias de folguedo, deixou o barco correr, o tempo passar, o dia raiar e só ficou triste quando viu a festa no fim.

Aqui ninguém perguntou "Com que roupa eu vou?", porque roupa para entrar no cordão é sempre aquela inspiração que a gente tem no momento – cabeça feita.

Para receber os confetes coloridos de saudade, coração aberto para ouvir o primeiro clarim tocar.

E de uma coisa todos sabemos : já se dançou de tudo nesta cidade, assim que irrompia o reinado de Momo. Polca, mazurca, calango, dança do funiculi, marcha do remador, minueto, passo do canguru. De tudo se viu: gente no lero-lero, gente com pó de mico no bolso, gente querendo ter um troço. E mais ainda : um velho gagá sassaricando, uma loura dando sopa, uns contando piadas de salão, outros entrando no cordão dos puxa-sacos e muitos querendo ir pra Maracangalha...

 

De tudo se ouviu entre as pilastras dos clubes e as esquinas das ruas : um folião dizendo pro seu grande amor que se ele errou foi sem querer; um Tipo 7 falando não me diga adeus para uma Morena Grau 10; uma loura reclamando: mas que calor, ooô, ooô, e um havaiano sentido por causa de uma Aurora que não era sincera...

 

De tudo se amou e se perdeu, de tudo se provou e se morreu, de tudo se procurou ser feliz e – carnavalescamente – de tudo se viveu, porque assim tamanha é a influência de Momo, grande o seu poder e tão curto o seu reinado.

 

Leia também :

 

Romancinho em Alvinópolis - Oswaldo André de Melo

 

 

*Fotos do acervo do Mauro Sérvulo.

 

Da Revista de Alvinópolis - 1985

Homenagem ao jornalista alvinopolense Frederico Ozanan Barcelos.