Dois dias em Alvinópolis

 

Tabajara Pedroso

 

Conto retirado do livro Alvinópolis e Literatura – Antologia, do ano de 1973, de autoria do José Afrânio Moreira Duarte, um apaixonado por Alvinópolis.

 

Bairro do Gaspar - Anos 70.

Foto do acervo do Mauro Sérvulo

 

 

            Nada melhor, para quem leva a vida a lecionar, do que um fim de semana numa dessas pitorescas e aprazíveis cidades mineiras, que se escondem modestamente entre os acidentes serranos do interior do Estado. Assim foi que, após rápido e feliz vôo de vinte e cinco minutos, descemos no campo de pouso de Alvinópolis, no extremo da Zona da Mata.

            A viagem, por si só, compensa o sacrifício. O pequeno avião da Aero-Sita, veloz e confortável, decola em Carlos Prates e toma o rumo leste. Sai por entre Nova Lima e Sabará, passa ao largo da Serra da Piedade, para logo bordejar o maciço gigantesco do Caraça, mole rochosa de feitio algo exótico, que parece velar pelos dois séculos de cultura humanística que dali se irradia pelo Brasil. Ultrapassamos, também, a Serra do Congo-Soco, salpintada de escavações, não mais do ouro que se fora para os bolsos dos reis portugueses, mas do ferro viçoso e rico. Tanto assim, as cidades históricas, que ali se encontram, estão se retemperando para a promissora idade  do aço nacional, quando, então, se confirmará a predição do Eschwege a respeito do Reino Brasileiro.

            Ao descermos em Alvinópolis, já sentimos que a cidadezinha que pretendemos conhecer é daquelas que se esgueiram por vales apertados, espraiando-se aqui e acolá, ora pelas encostas menos íngremes, ora através de pequenas várzeas.

            Tem a forma triangular, ou, melhor, compelida pela topografia do terreno, que é todo arqueano, e pelas voltas dos vales, dispõe-se em três pontas divergentes. Numa delas, aonde chegamos primeiro, está a cidade nova, de ruas asfaltadas e prédios modernos. Na segunda, que é a mais ampla, vemos logo uma praça plana e larga e a fábrica de tecidos. Na terceira, para onde subimos por uma rua tortuosa, está a cidade velha, com o seu casario colonial, muito pitoresco, ainda mais que o adorna a Matriz de Nossa Senhora do Rosário.

 

Rua de cima antiga.

Foto do acervo do Mauro Sérvulo

 

            A povoação surgiu do patrimônio doado pelo fazendeiro Paulo Moreira, ainda nos primeiros tempos imperiais. Elevada à categoria de vila, já no período republicano, deu-lhe o governo mineiro o nome atual, em homenagem a Cesário Alvim, um dos fundadores da República.

            Numa altitude média que orça pela cota dos 570 metros, desfruta de clima bastante ameno, abrigada, como se acha, por elevados morros, dos ventos fortes de leste. Sua população deve passar dos 3.500 habitantes.

            Como fatores da economia municipal, destacaríamos a fábrica de tecidos, a cultura de cereais e a criação de gado bovino e suíno. A fábrica, principalmente, dá-lhe grande vitalidade. Pertence a essa família extraordinária dos Mascarenhas, a quem Minas tanto deve pelo arrojo e segurança de suas iniciativas industriais.

            Ligada a dois centros ferroviários, Dom Silvério e Rio Piracicaba, o futuro de Alvinópolis está na dependência de rodovias mais amplas que lhe facilitem o transporte da produção.

            Todavia, é um cidade de trabalho e de cultura. Conta com uma Escola de Comércio, um centro agrícola e dois grupos escolares. Um deles tem o nome de ilustre Governador do Estado. O outro, que se acha na cidade nova, traz no fronstispício o nome do Monsenhor Bicalho, querido e bondoso vigário geral da arquidiocese de Belo Horizonte. Há, ainda, um bom cinema situado estrategicamente na trijunção dos vales urbanizados, dois postos de saúde, um hospital e dois clubes sociais recreativos.

 

Complexo da Matriz - Anos 70.

Foto do acervo do Mauro Sérvulo

 

            A fim de assistirmos à missa dominical, a tomar o lotação que serve razoavelmente a cidade, preferimos subir a pé, não só com o objetivo de conhecermos melhor a cidade, mas também para que a missa se revestisse de um caráter ascensional, pois a Matriz, que é colonial e bonita, levanta-se no ponto mais alto da cidade-velha. O vigário, que nos pareceu ativo e empreendedor, brindou-nos com feliz e oportuna alocução, tomando por tema o Bom Pastor, de acordo com o Evangelho do dia.

            Fez-nos bem a viagem a Alvinópolis. Entramos de novo em contacto com essa gente conservadora e hospitaleira que constitui, ainda e sempre, um alto patrimônio de equilíbrio, função precípua de Minas na conservação da unidade nacional.

            Por isso, cogitando acerca do grave problema social que nos envolve, achamos que, enquanto houver cidades como Alvinópolis, que, a par de seu progresso, não se deixam envolver pelos exotismos  que solapam as grandes metrópoles, Minas continuará a exercer sua influência amenizante no todo brasileiro.

 

(Artigo publicado em “O Diário”, de Belo Horizonte).

 

Tabajara Pedroso nasceu em 7 de maio de 1897, em Campinas, SP.

Residiu em Belo Horizonte, com ânimo definitivo.

Engenheiro, geógrafo, doutor em Geografia e História, Professor da UFMG, “Comandeur des Paumes Académiques”, conferida pelo Governo Francês.

Pertenceu à Associação dos Geógrafos Brasileiros, Academia Municipalista de Letras de MG, Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e à “New York Geographical Society”.

            Trabalhos publicados : História do Brasil, História Geral, A Geografia, O Mestre e o Discípulo, o Ensino da Geografia nos Cursos Secundários, São Paulo, a terra e o homem.

            Além desses livros, escreve assiduamente na imprensa brasileira – principalmente em Minas Gerais e em São Paulo – e também no exterior.

 

Leia também :

Inauguração do Campo de Aviação de Alvinópolis, por Mauro Sérvulo.